Heloyse
Ao chegar à cidade, em uma enorme placa decorada com a silhueta de um cowboy, nos saudava com os dizeres "Bem-Vindos a Clearwater". O nome pintado em letras rústicas me dava a sensação de entrar em um lugar pitoresco.
Meu coração foi invadido por uma pontada de alegria quando cruzamos os limites da cidade, me trazendo a sensação de acolhimento.
Tempo depois, estávamos em uma vasta fazenda. À primeira vista, a casa de Thom era bonita e esteticamente, rural. Embora não ostentasse luxo, era grande. As paredes vestidas de tons suaves refletiam a fraca luz do sol, que aos poucos, se apagava.
Desci da caminhonete e uma senhora de estatura baixa saiu da casa indo de encontro com ele.
- Você demorou muito, homem - disse abraçando-o.
- Também senti sua falta, Cielo .
Os dois formavam um lindo casal. Thom era um senhor muito apresentável apesar da idade, e Katherine, uma senhora magra de grandes olhos azuis e cabelos loiros.
Após abraçar o marido, ela me avaliou e em seguida me deu um amplo sorriso que eu acabei retribuindo.
- E quem é essa jovem, Thom?
- Essa é Heloyse. Encontrei-a na estrada a noite e dei-lhe uma carona.
- Seja bem-vinda, Heloyse!
- Obrigada!
- E você a trouxe...? - perguntou Katherine, esperando a resposta do marido.
- Eu a trouxe, porque ela estava tentando resolver alguns problemas e achei que ela poderia esfriar a cabeça aqui. Acredite, ela precisa.
- Não precisa se preocupar. Amanhã mesmo eu irei embora.
- Quem está mandando você embora, querida? Eu confio no Thom. Ele nunca erra. Às vezes acho que Deus fala no ouvido desse homem. E se ele a trouxe, então é minha convidada também. Fique!
- Eu agradeço, mas...
- Agora venha! Vou preparar um lanchinho enquanto você toma um banho. Você está visivelmente cansada. Megan irá te mostrar um quarto. Ela está lá dentro.
Megan era uma jovem vinte e cinco anos, a pele bem bronzeada e olhos iguais aos da mãe. Os cabelos cortados na altura dos ombros, totalmente loiros e cacheados. As sardas do seu rosto lhe deixavam mais graciosa.
- Você pode colocar suas coisas neste espaço do armário. Fique à vontade.
Ela tinha um levo sotaque texano, ao contrário de Thom e Katherine, que qualquer um que os ouvisse, saberia que ambos eram do Texas.
- Obrigada e me desculpe pelo trabalho que estou dando.
- Não é trabalho nenhum. Na verdade, fico até feliz que tenha alguém aqui pra fazer companhia para minha mãe. Semana que vem, eu volto para a faculdade. Tirei duas semanas para cuidar de uma alergia e resolvi ficar aqui com meus pais. Eu sentia falta deles.
- Você estuda o quê?
- Engenharia.
- Você gosta daqui?
- Eu nasci aqui e amo esse lugar. Mas lá também tem o Jeremy, meu noivo. Quando estou lá, sinto falta daqui. Quando estou aqui, sinto falta de lá.
- Imagino como seja - eu disse sorrindo.
Ela retribuiu com um simpático sorriso e me ofereceu uma toalha.
- E então? De onde você é?
- Eu moro em Boston e nasci na Califórnia.
- Que legal! - disse indo em direção à porta e em seguida parou - Não sei o que você veio procurar, mas espero que encontre.
- Eu acho que estou tentando achar eu mesma.
- Você vai achar, querida. Agora tome seu banho.
Banho era tudo que eu precisava.
Sob a suave cascata da ducha, deixei a água quente escorrer pelo meu corpo, fechando os olhos e permitindo-me um raro momento de introspecção. Como tudo havia acontecido tão depressa? Ali estava eu, sob o teto de pessoas que mal conhecia, mas que me acolheram de forma generosa e calorosa. Existiam mesmo pessoas assim, capazes de oferecer tanto sem esperar nada em troca?
O mais surpreendente era a sensação de conforto que me envolvia. Por um instante, senti-me como se fizesse parte de algo maior, como se, após anos de solidão, encontrasse refúgio em um lar. Por alguns momentos preciosos, a dor que eu carregava se dissipou, dando lugar a uma paz que eu não sentia a um bom tempo.
Saí do banho renovada, com o corpo mais leve, mas a mente ainda me traía. Pensamentos de Michael invadiram-me, trazendo uma enxurrada de lembranças. Onde ele estaria agora? Pensava em mim? Em nós? Tentei afastar essas reflexões sacudindo a cabeça, como se pudesse dispersar a tormenta que se formava em minha mente.
Vesti-me e, na tentativa de encontrar algum alívio, dirigi-me à cozinha, buscando a familiaridade simples de uma conversa ou o conforto de uma xícara de alguma coisa quente.
- O banho lhe fez muito bem, Lisy. Sente-se! Cielo vai lhe servir.
- Obrigada!
- Pode me chamar de Cielo, Lisy. Thom me deu esse apelido quando éramos jovens e todos me chamam assim.
- É um lindo apelido.
- Eu era um jovem muito galanteador naquela época - comentou Thom.
- Isso é verdade, querido. E hoje você é um velho muito roncador.
- E você ainda me acha bonito!
As brincadeiras continuaram enquanto comíamos nossos lanches. Megan falou sobre seus colegas de faculdade, seus estudos e sobre seu noivo.
- O que a fez sair com uma mochila nas costas por aí? - Ela perguntou com interesse.
- Acho que não é educado ficar bisbilhotando.
- Ora, papai, não estou! Só fiz uma pergunta. Se ela quiser responder tudo bem, senão, não tem problema.
- Não há problema algum - eles me olharam atentamente enquanto eu achava as palavras para poder explicar o que me levou a tomar aquela decisão. - Eu... eu queria sumir por um tempo.
- Acho que todos nessa vida já desejamos sumir.
Eu olhei para Cielo e concordei.
- Creio que sim. Bom, eu precisava me afastar de uma pessoa. Ele era meu namorado de nove anos de relacionamento. Ele reencontrou uma ex-namorada que havia ido embora há quinze anos e também descobriu que tinham um filho. Então, ele escolheu ter com ela, a família que nunca teve comigo.
Todos ficaram quietos. O silêncio só foi cortado quando Thom limpou a garganta.
- Lisy, não precisa falar. Sei o quanto é difícil...
- Não! Eu quero falar, Thom. Uma hora, tenho que me conformar com a situação.
Eu contei toda a história a eles, desde a morte da minha família, meu relacionamento com Michael, sobre Alice e sobre o fato de que eu estava enlouquecendo, morando perto dele. Eles foram prestativos.
Isso também foi como alívio para eles, pois mesmo Thom confiando em mim, eu sei que havia o medo ao acolherem uma estranha. Eu tive esse medo desde a carona que aceitei, mas o tempo todo, eu não conseguia evitar a sensação de que eu deveria me arriscar.
Eles ouviram cada palavra que eu disse. Deram-me palavras de apoio e isso foi muito bom. Foi a primeira vez que consegui falar sobre o assunto e não derramar uma lágrima.
Cielo: Céu
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UM PONTO DE PARTIDA
RomansaTragédia e perda deixaram Heloyse à deriva, presa em um vazio onde a dor é sua única companhia. Em busca de um escape, ela se lança ao desconhecido-não para se encontrar, mas para esquecer, nem que seja por um instante. Sua jornada a leva a terras v...
