Capítulo Dezesseis - Fazenda White

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No decorrer da semana, todos na cidade estavam empolgados com a festa que haveria na fazenda dos White.
- Vamos, querida! Você precisa conhecer mais pessoas. Ficar fazendo bolo, arrumando casa, adubando plantas ou limpando fezes de cavalo não irá levá-la a lugar algum. Você precisa se enturmar mais. Não estou vendo nenhuma velhota aqui. Se por acaso você não gostar, você volta para casa.
- Eu não sei. Você sabe que Patsy não me suporta e eu não caio de amores por ela. Essa coisa de ficar dando sorriso falso, não é meu passatempo. Além do mais, não conheço os pais dela e isso seria estranho.
- Ai, ai, ai..., mas você não fez nada pra eles. Eles são boas pessoas, só erraram na hora de educar a Patsy. Vamos! Se você não for, eu também não vou.
- Uh, eu vejo uma chantagem.
- Que seja! Você vai?
- Sou obrigada?
- Mas é claro que é!
- Droga!
À tarde, Cielo e eu, fomos à cidade comprar um vestido. Ela gostou de um florido, com renda nas mangas e cintura marcada. Ela era muito bonita. Eu tinha certeza de que quando jovem, devia ter chamado a atenção de muitos rapazes.
- Você vai usar o quê, Lisy?
- Eu não sei. Por mim, eu iria assim.
Ela avaliou meu short e minha camiseta de algum cantor qualquer. Em seguida, fez uma careta.
- Só por cima do meu cadáver.
- Isso não é justo. Eu não ando armada.
No dia seguinte, seguimos para o salão de Victoria. Ela era uma mulher extravagante, de voz alta e presença marcante. Seus cabelos platinados e lisos iam até os ombros, e sua maquiagem era um tanto exagerada, destacando suas feições. De estatura baixa e um pouco acima do peso, Victoria tinha uma personalidade vibrante.
- Só vou a essa festa porque Margareth White é minha cliente e amiga, mas, aquela filha dela... Um verdadeiro demônio! Patsy não conhece limites. Ontem, meninas, a Lily me contou que aquela safada deu em cima do filho dela. E o menino está noivo! - relatava Victoria enquanto aplicava a tinta no cabelo de Cielo.
- Isso não é nada. Esses dias, o senhor Oliver disse que ela tentou subornar o guarda Flint, depois que ele a pegou dirigindo bêbada - comentou uma cliente do outro lado do salão.
Victoria apontou o pincel na minha direção, interrompendo a conversa para dizer:
- Fique longe dessa cobra. Ela não é amiga de ninguém.
Assenti com a cabeça, mas nada naquelas histórias realmente me surpreendia.
Após cuidar dos cabelos e das unhas, fui para casa me arrumar. Decidi prender meus cabelos compridos em um rabo de cavalo frouxo, deixando alguns fios soltos caírem naturalmente. As camadas reforçadas por Victoria deram um efeito elegante, com ondas suaves que lembravam cascatas. Optei por uma maquiagem leve, destacando os olhos, e finalizei com um batom vermelho mate que ressaltava meus lábios.
O vestido escolhido era preto, com mangas que iam até o meio dos braços. Ele abraçava minha cintura perfeitamente, descendo em uma saia rodada que terminava logo acima dos joelhos. Embora fosse fechado na parte da frente, um detalhe especial chamava atenção: a gola alta escondia um botão nas costas, e logo abaixo, um grande decote em forma de gota deixava minha pele à mostra de maneira ousada, mas sofisticada. Nunca tinha usado algo tão revelador, mas me senti bem.
Segui a regra do convite e combinei o vestido com botas marrons. A mistura do sofisticado com o rústico me arrancou um sorriso ao me olhar no espelho. Peguei minha bolsa de mão e esperei Thom me chamar.
Pontualmente às sete, Thom e Cielo chegaram, buzinando na frente do portão. Entrei na caminhonete e os segui até a propriedade dos White, onde estacionamos ao lado de outros veículos luxuosos.
- Está linda, querida - disse Cielo com um sorriso sincero.
- Não exagere! - murmurei, sem jeito.
- Ela não está exagerando, Lisy. Você está linda, embora só perca para a Cielo - brincou Thom, arrancando um sorriso de ambos.
Cielo envolveu os braços em Thom, lhe dando um beijo.
- Não diga isso, Thom. Não é verdade.
Ele a fitou com doçura e respondeu:
- La neta es que te amo con todo mi corazón.
A cena aqueceu me aqueceu.
Thom estava irreconhecível: usava um elegante terno marrom combinado com botas e chapéu. Seu cabelo estava penteado para trás, e a barba feita deixava seu semblante ainda mais imponente. Não parecia em nada com o velho senhor rústico que conheci.
Caminhamos juntos até o salão de festas dos White, onde um número crescente de convidados se reunia. A maioria das pessoas me lançava olhares curiosos, desde homens de terno até garçons, o que me fazia sentir como se estivesse usando um cartaz anunciando: "Oi, sou nova aqui".
Na entrada, o simpático casal White recebia os convidados. Margareth, sempre rodeada por pessoas, parecia não ter notado nossa chegada. Um rapaz responsável por nos acomodar se apresentou educadamente e nos levou até nossa mesa.
Primeiro haveria um jantar; depois, os convidados poderiam escolher entre dançar no salão principal ou participar de atividades no salão secundário, que incluíam jogos, bingo e um bar bem movimentado.
As pessoas continuavam chegando. Homens bem-vestidos, com seus chapéus e caminhonetes imponentes, misturavam-se a moradores da cidade que traziam um ar mais casual. Megan chegou pouco depois, radiante. Seus cabelos curtos, cheios de cachos, emolduravam seu rosto de maneira graciosa. Ela usava um vestido bege e estava acompanhada por Jeremy, um rapaz alto, de óculos e aparência reservada.
Após as apresentações, nos acomodamos à mesa. Além de Thom, Cielo, Megan e Jeremy, havia um lugar sobrando.
- Quem mais vai se sentar conosco? - perguntei, inclinando-me para cochichar com Cielo.
- Ora, é o...
Nessa hora, ela foi interrompida quando uma voz familiar chamou nossa atenção.
- Boa noite a todos!
O'Connor estava de pé, com as mãos apoiadas na cadeira vazia.
O homem era perfeito. Seus cabelos estavam soltos, jogados para trás das orelhas, revelando um rosto impecável, agora adornado por uma barba cerrada e bem alinhada. Os lábios, rosados e aparentemente macios, chamavam atenção por si só. O terno preto ajustado destacava sua postura elegante, enquanto as botas discretas e a camisa branca, levemente aberta no colarinho, completavam o visual. Ele era alto, forte, e seus músculos eram perceptíveis mesmo sob o tecido do terno.
Cumprimentou cada um à mesa com um aperto de mão firme, mas, quando chegou a minha vez, apenas inclinou a cabeça em um gesto educado, sem tocar na minha mão.
- Como vai, senhorita?
- Estou bem! E o senhor? - respondi, mantendo a compostura.
- Muito bem, obrigado - disse ele, ocupando o lugar vazio à mesa.
A conversa na mesa fluía naturalmente. De tempos em tempos, conhecidos da família Ferrel e dele se aproximavam para cumprimentá-lo, trocando algumas palavras antes de seguir adiante.
Will parecia à vontade, conversando com Thom sobre algum assunto que eu não acompanhei. Megan e Jeremy me arrancavam risadas com suas histórias, enquanto, ocasionalmente, Will e eu trocávamos olhares rápidos, quase furtivos.
A música começou a tocar, convidativa. Muitos casais foram para a pista de dança, enquanto os demais se dirigiram à mesa dos White. Ficamos sozinhos, Will e eu.
- Apreciando seu vinho? - ele perguntou, quebrando o silêncio entre nós.
- É o que parece.
- Vejo que não está muito animada.
- Nem você.
- Todos aqui sabem que eu não sou fã de festas - disse ele, com um leve sorriso irônico.
- Então, por que veio, senhor O'Connor?
- Para ser honesto, nem eu sei. Talvez eu tenha consciência que depois tantos convites recusados, seria a hora de mostrar que sou um bom vizinho.
- Por que eu acho que o senhor está sendo sarcástico?
- Touchée! - disse ele, levantando a taça antes de esvaziá-la com um gole.
- Não sabia que cowboys falavam francês - retruquei, provocando.
- Cowboys? - ele perguntou, arqueando uma sobrancelha e exibindo um sorriso torto que fez meu coração acelerar.
Disfarcei o sorriso e fingi prestar atenção na pista de dança. A música country era animada, e até os mais velhos arriscavam alguns passos desajeitados.
Quando voltei a olhar para Will, percebi que ele ainda me observava, os olhos fixos, como se estudasse cada detalhe meu. Desviei o olhar e vi Patsy dançando, enquanto os rapazes encostados na parede, davam a ela, olhares de admiração.
- Já que não me respondeu, suponho que tenha vindo para desfrutar uma dança com Patsy - soltei, tentando manter um tom casual.
- Por que você acha isso? - ele perguntou, franzindo o cenho, claramente intrigado.
- Megan me disse que ela é o centro das atenções nessas festas e nunca faltam homens dispostos a ter uma dança com ela.
Minha voz saiu mais afetada do que pretendia. Não que eu estivesse incomodada com a possibilidade deles dançarem juntos, claro.
- Não tenho nenhum interesse de dançar com ela - ele respondeu com firmeza.
"Obrigada, meu Deus", eu pensei.
- E por quê? - perguntei, estreitando os olhos, desafiando-o a continuar.
- Heloyse e sua incrível capacidade de ser curiosa. Você é sempre assim, raio de sol?
"Raio de sol?" aquele apelido me pegou de surpresa.
- Não sou curiosa. Só estou tentando manter uma conversa, principalmente quando a companhia é... digamos... entediante. Estou apenas fazendo minha parte. - Respondi, arqueando uma sobrancelha, como se provocá-lo fosse meu passatempo favorito.
Ele sorriu, o tipo de sorriso que deixava qualquer um desconcertado, e, por um instante, eu quis tocar em seus lábios.
- Se quer saber, você é linda e não é com a Patsy que eu quero dançar.
Eu saí dos meus pensamentos, novamente surpresa. Respirei fundo e controlei minha voz.
- O senhor mente com frequência?
- Será que pode me chamar pelo nome?
- É acostumado a mentir, William? - eu corrigi.
- Will. É Will, Heloyse!
- Muito bem, Will. Pode me chamar de Lisy.
- Eu vou chamar, pode ter certeza, senhorita - ele deu um gole no seu vinho e continuou -: Eu não estou mentindo... É realmente a mais linda, de todas as mulheres que já vi.
- Pelo jeito você não sai muito da sua fazenda.
- E pelo jeito você tem problema com sua autoestima.
Eu ia comentar sobre sua grosseria, mas neste momento, alguém avisou no microfone que era hora de nos servirmos.
Will foi chamado por um senhor e os dois foram para outro lugar, se juntar a outros homens.
Resolvi esquecer o que ele disse sobre minha autoestima, tentando negar que ele estava certo, e decidi que comer era de certa forma, algo bem melhor a se fazer, então segui para onde estavam os pratos.
Havia tantas opções e tudo tão saboroso: pratos típicos com raízes, caviar texano, chili, carne de javali, carne com molho à base de mostarda embrulhada em papel pardo, linguiças, carne picada com pimentas. O famoso molho barbecue tinha um sabor defumado, bem diferente do que eu conhecia. Também havia salada de batatas, de repolho com cenoura, batatas de peles vermelhas cozidas na manteiga, creme de milho e diversas outras comidas típicas. As sobremesas e bebidas eram igualmente variadas, e eu me encantei com a torta de nozes e a de pêssegos.
Todos desfrutavam de seus pratos, cervejas e vinhos em conversas agradáveis. Will retornou à mesa, comeu e conversou distraidamente com Thom e Jeremy.
Em determinado momento, meu celular tocou. Era Ashley. Quando fui atender, a chamada já havia parado. Decidi sair para retornar a ligação. Peguei minha bolsa e fui ao banheiro.
Na tentativa de retornar a ligação, a bateria do celular descarregou. Eu sempre fui esquecida nesse ponto; meu celular vivia sem carga. Guardei-o de volta na bolsa, chequei minha maquiagem e meu cabelo no espelho. Tudo estava no lugar.
Ao sair do banheiro para voltar à mesa, um barulho chamou minha atenção. Olhei para o fim do corredor. Do lado esquerdo, em outro corredor, uma lixeira havia caído.
Lembrei-me do dia em que fui na fazenda do Will e acabei me deparando com um cão disposto a me atacar. Arqueei a sobrancelha, imaginando se Will não tinha razão sobre a minha curiosidade.
Caminhei devagar, certa de que algum animal poderia ter entrado para mexer no lixo. Contudo, o que eu não esperava ver era Patsy.
Ela estava com as costas apoiadas na parede, os braços em volta de um rapaz, as pernas envoltas na cintura dele. As mãos dele deslizavam das pernas dela para suas nádegas enquanto se beijavam intensamente.
Quando pararam e me viram, o rapaz parecia aterrorizado, e Patsy, claramente desgostosa com minha presença.
- Me desculpem. Pensei que algum animal tivesse entrado aqui... Vi a lixeira cair e...
O rapaz colocou Patsy no chão, assustado e passando as mãos pelos cabelos de forma desesperada.
Eu comecei a me virar quando a voz do rapaz me parou.
- Por favor, não conte nada a ninguém...
- Relaxa, Christian. Ela não conhece sua esposa, e mesmo se conhecesse, não é problema dela. Não é, Heloyse?
Eu não respondi e o rapaz, agora conhecido como Christian, passou por mim como um foguete em direção ao salão.
- Homens covardes me dão nos nervos - Patsy disse, enquanto alisava o vestido e me encarava com um sorriso cínico.
- Você não se sente mal por saber que a esposa dele está aqui?
- Me poupe da sua lição de moral. Eu sou livre, ele não é. Ele deve respeito à esposa, não eu.
- Mas você está ajudando-o a enganá-la.
- Você não imagina o quanto eu tenho ajudado o Christian - respondeu com um sorriso.
Ela se aproximou de mim e, com um tom confidencial, sussurrou:
- Que isso não saia daqui. Sou uma péssima amiga, mas, como inimiga, eu sou ótima.
Então, ela sorriu e foi embora.
Fiquei alguns minutos com as costas apoiadas na parede, refletindo sobre o quanto uma traição podia ser dolorosa. Eu ainda carregava minhas próprias feridas sobre esse assunto.
Resolvi retornar para o salão, mas andei apenas alguns passos antes de parar.
Quando pensei que nada mais poderia ser estranho, lá estava Will, me observando.
Ele veio até mim, pegou no meu braço e me puxou para dentro do banheiro. Tudo tão rápido, que processar o que estava acontecendo, era uma tarefa difícil.
Ele trancou a porta com a chave e me olhou.
- Will? - eu disse assustada.
- Por que veio com esse vestido?
- O quê?
- Esse vestido, Heloyse, tem um rasgo enorme nas suas costas e se você não tomar cuidado, todos serão capazes de ver a sua lingerie. Você não tinha outro?
Eu juro que tentei compreender.
- Que brincadeira é essa? - eu perguntei com os olhos arregalados.
- Não tem brincadeira nenhuma. Você se levantou e não tinha um homem que não se virasse para olhá-la. Se queria chamar a atenção com esse vestido, conseguiu.
- Eu não quero chamar a atenção de ninguém, seu imbecil! E mesmo se quisesse, você não tem nada a ver com isso. Nos vimos apenas três vezes, contando com esta - levantei a mão e mostrei três dedos -, então acho que não somos próximos, muito menos amigos, para você achar que tem o direito de opinar sobre a roupa que visto. Muito menos é meu namorado, nem é meu pai para criticar, repreender ou se incomodar com quem me olha.
Fiquei parada esperando a resposta. Ela não veio.
Ele passou a mão no rosto, em um gesto nervoso. Eu desisti de esperar e com a mão estendida, tentei tocar na chave. Will segurou em meu braço, puxou e encostou-me à porta.
- Espera!
- Me solta, Will!
Seu corpo tão próximo e seu cheiro invadindo minhas narinas... Tudo nele exalava sedução, mesmo ele me deixando no limite da raiva.
- Você queria chamar a atenção dos outros homens? Conseguiu. Nem Patsy se veste tão vulgar desse jeito.
Aquilo doeu em mim.
- Eu não estou vulgar! E estou bem certa de que Patsy não se importa muito em ser uma moça recatada.
- Não me importa o que ela seja. Não há outra mulher com algo tão escandaloso quanto esse vestido. Parece mais com o traje de uma mulher de progra...
Eu não acreditava no que estava ouvindo. Em um impulso, levantei minha mão e atingi seu rosto com um tapa.
Ele me olhou por um instante e então, fui pega de surpresa quando seus lábios cobriram os meus.
O ar sumia dos meus pulmões enquanto ele me apertava forte em seu peito. Sua mão envolvia minha cintura, enquanto a outra segurava meus cabelos, fazendo com que minha cabeça pendesse para trás.
Estávamos em uma mistura de desejo e raiva.
Pensei que talvez, ele quisesse fazer eu me sentir como o tipo de mulher que ele me acusava ser. Pensar nisso, fez com que a humilhação tomasse conta de mim e não restasse nenhum encanto naquele beijo.
Eu reuni todas as minhas forças e o empurrei. Eu não podia aceitar aquilo. Não depois da forma que ele me tratou.
- Nunca mais toque em mim, O'Connor! Seu beijo me enoja - eu passei as costas da mão, nos lábios.
Notei sua respiração um pouco ofegante, mas em segundos, Will voltou ao normal, como se ele não estivesse afetado.
- Se for mentir, faça direito.
Will me olhou com desprezo, girou a chave e se retirou.
Enquanto eu o via desaparecer da minha visão, eu repetia para mim mesma, que o odiava. Eu não entendia o motivo pelo qual ele tinha agido daquela forma, mas nada justificava sua atitude.
Toquei meus lábios que estavam um pouco dormentes com a pressão que ele havia depositado ali e imaginei como teria sido beijá-lo de forma doce e suave. Recordei-me da sua mão em meu braço. Era calejada, ao mesmo tempo, tão macia. Mãos de um homem que trabalhava duramente.
"Poderia ter sido diferente", eu repetia em minha cabeça.
Will, não só fez com que eu me sentisse humilhada, como também pegou algo de mim. Eu não sabia o que era e de certa forma, ele o tinha.
Eu controlei minha respiração e mesmo me sentindo atordoada eu fui para o salão, fingindo que nada tinha acontecido.
A conversa na mesa girava em torno de assuntos que eu mal entendia: gado, plantações e técnicas agrícolas. Minha cabeça, porém, estava longe dali, mergulhada em pensamentos confusos. Tentei me distrair conversando com Megan e Cielo, mas nem isso ajudava. Nada parecia capaz de me fazer focar naquela noite.
Terminamos nossas sobremesas e foi nesse momento que vi novamente quem eu menos queria ver: Patsy.
Ela era insuportavelmente bonita. Os cabelos ruivos estavam presos em um coque apertado, tão perfeito que nem parecia a mesma mulher que eu vira no corredor, se esfregando com um homem casado. Seu vestido, rosa e justo, realçava cada curva e era tão enjoativo quanto ela. O contraste com o meu visual fez minhas bochechas queimarem de vergonha. A comparação que Will havia feito antes ecoou na minha cabeça, me fazendo questionar minha escolha de roupa.
Patsy caminhava pelo salão com uma postura confiante, parando de vez em quando para cumprimentar algumas pessoas. Quando chegou à nossa mesa, dirigiu um sorriso forçado para mim antes de se voltar a Will. Seu sorriso, então, se alargou. Ela se inclinou para cumprimentá-lo com um beijo no rosto, quase nos lábios, mas Will foi rápido o suficiente para esquivar.
- Como vai, William?
- Bem - respondeu ele, curto e direto.
- Fiquei feliz por vê-lo aqui. Você nunca vem.
- Hoje eu vim.
- Isso é bom. Já decidiu levar alguma mulher daqui para dançar?
- Ainda não.
- Espero que pense em mim. Quero minha dança - disse ela, deixando no ar um tom de desafio.
Will permaneceu sério, apenas assentindo com a cabeça. Patsy sorriu, jogou um "até mais" e saiu rebolando, como se cada movimento fosse ensaiado para chamar atenção.
Foi Megan quem quebrou o silêncio constrangedor.
- Acho que você deveria levar a Lisy para dançar, Will.
Eu quase engasguei com o vinho.
- O quê? - perguntei, apavorada.
- Dançar com o Will! - repetiu Megan, inocente
- Você não pode falar essas coisas, Megan! - exclamei, tentando disfarçar o nervosismo.
- Não entendi. Desde quando isso virou crime?
- É que eu e o senhor O'Connor não estamos interessados em dançar. Ao menos, não um com o outro. Não viu que ele já está prometido à Patsy? Não me interessa roubar o par dela.
Antes que Megan pudesse responder, Will interveio.
- Eu já tinha intenção de convidá-la, Heloyse.
Senti um arrepio subir pela espinha.
- Eu agradeço, mas prefiro continuar aqui mesmo - respondi, tentando soar firme, mas minha voz saiu hesitante.
Ele exibiu um meio sorriso que me deixou ainda mais desconcertada.
Megan sorriu divertida, mas eu mal consegui reagir. Will manteve o olhar em mim por mais alguns segundos antes de desviar para o salão.
Logo em seguida, o senhor White anunciou o início dos jogos e brincadeiras no outro salão, convidando os todos a se juntarem aos sorteios e prêmios. A banda continuou tocando, mas a maioria das pessoas começaram a se dirigir ao outro ambiente. Selena, a irmã de Patsy, me cumprimentou rapidamente, depois, se juntou a Jeremy e Megan e seguiram para os jogos.
- Você vem, querida? - perguntou Cielo, enquanto se levantava.
- Pode deixá-la comigo, Cielo. Nós temos uma dança. - interveio Will.
Balancei a cabeça para Cielo, quase implorando para ela não me deixar sozinha, mas ela apenas sorriu.
- Então está bem. Divirtam-se! - disse, lançando um olhar curioso para Will antes de se afastar.
"Oh, Deus... Me ajude!" pensei.
Will estava sentado ao meu lado, imponente, e eu não conseguia sequer olhar diretamente para ele. A ideia de dançar com aquele homem me deixava nervosa como nunca.
Eu torcia para que a noite acabasse logo.
A presença dele era avassaladora, e, a cada minuto, eu desejava ainda mais que ele se afastasse. O problema era que ele não parecia nem um pouco disposto a fazer isso.

UM PONTO DE PARTIDAHistórias para pegar e não largar. Descubra agora