Heloyse
A mulher era uma loira exuberante, e os enormes seios quase escapavam pelo decote generoso do vestido vermelho justo, que parecia costurado em seu corpo. O tecido mal cobria suas pernas, e juro que, se ela ousasse se agachar, qualquer um veria sua calcinha, isso se estivesse usando uma. Seus lábios, tingidos de um vermelho intenso, destacavam-se de tal forma que, mesmo longe montada no cavalo, eu conseguia vê-los.
Eu sabia quem ela era. Reconhecia aquela mulher das poucas vezes em que a vira com Will.
O cavalo reduziu o passo até parar, e Will foi o primeiro a descer. Ele se virou para mim, oferecendo a mão para me ajudar. Seu rosto carregava uma expressão incomum, um desconforto evidente, como se soubesse que algo estava prestes a acontecer e não quisesse lidar com isso.
Aceitei sua mão e desci. Assim que meus pés tocaram o chão, Will pegou as rédeas do cavalo e, sem dizer nada, começou a caminhar para dentro do estábulo.
A loira, que até então me avaliava com um olhar de cima a baixo da mesma forma que Patsy costumava fazer, abriu um sorriso largo e correu para abraçá-lo.
Ele se sobressaltou, segurando as rédeas com uma mão e, com a outra, devolvendo o abraço de maneira hesitante, desajeitada, como se tivesse sido pego de surpresa ou simplesmente não quisesse aquela demonstração de afeto.
— Oi, querido! — a voz dela saiu manhosa, arrastada, carregada de intimidade.
Will deu um passo para trás, tentando se desvencilhar sem ser rude.
— O que está fazendo aqui? — perguntou, sem esconder a impaciência.
— Eu vim vê-lo. Tenho ligado há dias e você não atende — fez um biquinho infantil, balançando os cabelos platinados como se aquilo pudesse distraí-lo do assunto. — Sem contar que ultimamente, você está muito estranho, então resolvi vir pessoalmente descobrir o que está acontecendo.
Eu me senti deslocada. O ambiente pareceu se fechar ao meu redor, como se aquele momento não me pertencesse. O melhor a fazer era sair dali.
— Não querendo interromper... — comecei, tentando ser educada.
— Já interrompeu — a loira rebateu rapidamente, com um sorriso presunçoso.
Ah, como eu queria arrancar aquele sorriso da cara dela.
Mas preferi ignorá-la. Mantendo o tom sereno, continuei:
— Eu agradeço a você por tudo, Will, mas preciso ir. Até qualquer hora…
Will finalmente se afastou da loira, e ela arregalou os olhos, claramente surpresa com a atitude. Ele virou-se para mim, segurando minha mão antes que eu pudesse partir. Seus dedos envolveram os meus de forma firme, mas ao mesmo tempo delicada, e seus olhos se prenderam aos meus em um pedido silencioso.
— Fique e almoce comigo — sussurrou.
Eu hesitei.
Antes que pudesse formular uma resposta, a voz irritantemente doce da mulher voltou a nos interromper.
— Não vai me apresentar à sua amiga, querido?
Will soltou um longo suspiro, como se estivesse se preparando para algo inevitável, e então, sem me soltar completamente, virou-se para ela.
— Heloyse, essa é Mary. Mary, essa é Heloyse.
A loira lançou um olhar avaliativo em minha direção e sorriu de forma maldosa.
— Prazer — disse, num tom que não combinava em nada com a palavra.
Antes que eu pudesse reagir, ela se aproximou novamente de Will, deslizando as mãos em volta da cintura dele, apertando-o contra si.
— Will nunca me falou de você — disse, com uma falsa surpresa.
Ele fechou os olhos por um instante e respirou fundo.
— Você devia ter avisado que viria, Mary.
A paciência dele estava claramente se esgotando.
— Por que está me tratando assim? — Ela fez o tal biquinho de novo, o que me causou um leve enjoo. —Você sempre gosta quando me vê…
Will retirou as mãos dela da sua cintura e encarando-a com seriedade.
— Acho melhor você ir. Estou com visitas e não vou poder dar atenção a você.
Mary recuou ligeiramente e seu rosto se transformou em uma expressão de decepção.
— Ah... Então você pode recebê-la, mas a mim, não? — ela retrucou, elevando a voz.
— Chega, Mary! — ele respirou fundo. — Por favor... Se puder ir, eu agradeço.
Ela apertou os lábios e, antes de sair, olhou para ele com um sorriso venenoso.
— Vejo que está se esforçando para ser educado, Will. E você, menina... — seus olhos passearam por mim como se pudesse ver dentro da minha alma — ...deve ser a causa desse esforço. Mas não se iluda. Ele não é assim.
Meu coração acelerou.
— Will está longe de tratar uma mulher com educação. Agora você é novidade e, como todas as outras, ele vai dispensá-la sem pensar duas vezes. E sabe o que é pior? Ele sempre acaba voltando para mim, porque eu sou a única que suporta o gênio dele.
Ela se virou para Will com um olhar desafiador.
— Não contou que estamos nisso há três anos?
O maxilar dele se contraiu.
— Acho melhor você parar... — a voz dele saiu baixa, mas carregada de aviso.
Mary ignorou.
— Ele não é nenhum cavalheiro, querida. Eu não me importo, adoro homens assim. Mas duvido que você goste. Essa sua cara de apaixonada vai desmoronar quando perceber que, por trás dessa máscara de cara legal, existe um homem que não se apega a ninguém…
— Que droga! Cala a boca! — Will rugiu, agarrando Mary pelo braço e praticamente a arrastando para fora do estábulo.
A cena diante de mim se dissolveu em um borrão. Eu já não ouvia mais as vozes alteradas, nem os sons ao redor. Meu peito estava apertado, como se alguém tivesse espremido meu coração até restar apenas dor.
Mary estava certa. Patsy estava certa. Johnson estava certo.
Eu não queria ser como as outras. Eu não suportaria ser descartada.
A realidade bateu como um tapa.
Minha visão se embaralhou, mas encontrei forças para caminhar. Cada passo parecia pesar uma tonelada, mas eu precisava sair dali.
— Heloyse…
Will estava parado à minha frente, bloqueando meu caminho. Seus olhos intensos cravaram-se nos meus, e por um momento, ele não disse nada. Apenas me observou, como se estivesse tentando entender algo dentro de mim ou talvez dentro dele mesmo.
Eu não sabia o que esperava que ele dissesse, mas sabia o que eu precisava fazer.
— Eu sinto muito — ele murmurou.
O pedido de desculpa saiu baixo, quase contido. Não parecia pesaroso. Não parecia verdadeiro. Era como se fosse uma resposta automática, dita apenas porque ele sabia que deveria dizê-la.
Eu respirei fundo e abaixei o olhar, sentindo a raiva misturada à mágoa crescendo dentro de mim.
— Não parece — respondi, minha voz saindo mais firme do que eu esperava.
Will passou a mão pelos cabelos, como fazia sempre que estava frustrado, e deu um passo à frente. Instintivamente, levantei a mão, criando uma barreira invisível entre nós.
— Por favor, Will, me deixa ir — pedi, minha voz soando como um sussurro. — Aliás, acho que seria bom que parássemos por aqui. Eu quero terminar com isso. O que aconteceu ontem, não irá se repetir.
O maxilar dele se contraiu, e por um momento, pensei que ele não fosse dizer nada. Mas então, um riso curto e seco escapou de seus lábios.
— Terminar o que não temos? — ele disse, gesticulando com as mãos no ar, um misto de ironia e incredulidade em seu tom.
Eu sustentei seu olhar por alguns segundos antes de abaixar a cabeça e assentir lentamente.
— Tem razão, Will. Se o que aconteceu não foi nada... Se ainda não há nada, eu respeito isso.
Ele soltou um longo suspiro e desviou os olhos dos meus.
— Você está certa. Isso deve acabar aqui, seja o que for. Eu realmente sou como Mary disse. Eu não me apego a ninguém. Eu fico com uma mulher por ficar. Apenas sexo, depois, não me interessa mais…
Meu peito apertou.
— Não continue... — interrompi, balançando a cabeça. — Isso é horrível! Você as ilude e depois as trata como se fossem objetos descartáveis. Isso é tão desumano... Você é um canalha que…
— O que você sabe sobre mim? — ele retrucou, seu tom ficando mais áspero. — Você mal me conhece e acha que pode me julgar? Eu sinto informá-la, mas, você não me conhece. Então guarde suas críticas para você mesma.
Eu ri. Mas foi um riso amargo, sem qualquer humor.
— Eu estou te julgando? — perguntei, cruzando os braços. — Você mesmo disse que ilude as mulheres e…
— Eu não disse isso! Que merda! — ele explodiu, seus olhos faiscando com frustração. — Eu disse que não me apego e que é apenas sexo.
— Isso é a mesma coisa.
— Uma ova se é! — Ele passou as mãos no rosto e bufou. — Eu não obrigo nenhuma delas a se deitar em uma cama comigo. Elas sabem o que quero porque deixo isso bem claro e não tenho culpa se alguma se apaixona por mim. Eu não posso controlar os sentimentos dos outros. Quando saio com alguma mulher, eu sou sincero e deixo tudo bem claro.
— Que lindo da sua parte, Will. Você é sincero, isso é bom — ironizei. — Então deveria ter me dito que eu fui uma dessas mulheres com quem você quis apenas sexo. Preferia que tivesse esclarecido isso em vez de me convidar para tomar café com você, como se você quisesse a minha companhia.
Ele abaixou o semblante e ficou em silêncio por alguns segundos, como se estivesse escolhendo suas palavras.
— Eu não pensei apenas em sexo com você. Quer dizer... Não necessariamente.
— Você poderia explicar melhor? — perguntei, minha paciência se esgotando.
— Primeiro, se eu quisesse dispensar você, teria sido após a noite em que ficamos juntos. Não teria tomado café com você, ou tido alguma conversa. Segundo, eu sou homem. É claro que quero estar com uma mulher linda como você, mas, em nenhum momento pensei em te levar para cama e dispensá-la no outro dia.
Meu coração bateu mais forte.
— E por que não?
Ele respirou fundo.
— Eu não sei.
— Como não sabe?
— Eu apenas achei que podíamos passar um tempo, juntos, mas sem compromisso.
Eu soltei um riso incrédulo.
— Você é porra de um cara confuso.
— É, eu sou! — ele exclamou, exasperado. — E mulher nenhuma gostaria de ter minha companhia por um longo tempo. A questão, é que não vou forçá-la a fazer nada que não queira. De qualquer forma, eu gostaria que pudéssemos nos conhecer. Eu achei que poderíamos passar um tempo juntos, enquanto você não volta para a sua vida em Boston. Quando a vi hoje, eu tinha a intenção de conversar com você sobre isso. Seria algo prazeroso para nós dois.
— E Mary? Já não é prazeroso com ela? Porque pelo jeito que ela se comportou, vocês têm algo a mais.
— Não temos nada, Lisy. E ela nunca se comportou assim. É justamente por isso que eu continuava saindo com ela. Ela nunca se importou com o que faço e nunca me questionou com quem saio. Nunca demonstrou ciúmes ou ficou no meu pé. Ela nem sequer já entrou na minha casa, ou tomou café comigo. Ela não tem um lugar importante em minha vida.
— Pelo jeito as coisas estão mudando entre vocês.
— Não há nada entre mim e ela. Entenda isso, merda!
— O que eu entendo, Will, é que eu saí de um relacionamento onde o cara que eu mais amava me deixou e isso me fez perder o chão. Estaríamos criando uma bomba-relógio. Você não se apega e eu, sim. Michael tomou meu coração e o devolveu em pedaços — eu respirei fundo e continuei. — Eu já não tenho mais um coração inteiro para dar a alguém. Quero preservar os cacos que estou lutando para juntar. E eu também não posso me envolver com alguém, mesmo sem compromisso. Isso é um absurdo.
— É só o que posso oferecer. Queria te dar algo a mais, só que não posso.
Ele me olhou com tanta sinceridade que por um momento, quase desejei que suas palavras fossem diferentes. Mas a dor que crescia em meu peito não me deixava esquecer o que eu já sabia.
— Eu entendo. Infelizmente, não sou do tipo que não se importa. Quando estou com alguém, é porque esse alguém me preenche. E o que você propõe é solitário. Eu já me sinto sozinha demais, para me aprofundar em algo que não faz sentido na minha vida. Na verdade, eu não deveria nem pensar em estar com alguém. Paramos por aqui.
— O tempo todo eu disse que o que eu tinha a oferecer era algo vazio e superficial. Nada mais.
Isso me fez lembrar de suas palavras no jardim dos White.
— Eu tenho que ir.
Will me olhou por um longo tempo antes de finalmente assentir.
Eu dei as costas e saí andando sem dar tempo de ouvir o que ele diria.
Eu tinha tomado uma decisão: Eu não o deixaria se aproximar.
Não olhei para trás e nem ouvi seus passos atrás de mim. Isso era bom. Ele tinha entendido.
Mas, se isso era bom, por que eu sentia uma dor em meu peito, a ponto de lágrimas correrem em meu rosto? Minha mente me acusava e questionava:
"Novamente sofrendo, Lisy? Quando vai aprender?"
Mas tudo bem. Eu superei Michael e vou superar isto também.
Eu vou superar.
Com certeza.
Eu vou superar!
Eu vou superar!
Repeti essas palavras várias vezes, tentando enganar meu coração.
VOCÊ ESTÁ LENDO
UM PONTO DE PARTIDA
RomanceTragédia e perda deixaram Heloyse à deriva, presa em um vazio onde a dor é sua única companhia. Em busca de um escape, ela se lança ao desconhecido-não para se encontrar, mas para esquecer, nem que seja por um instante. Sua jornada a leva a terras v...
