Heloyse
— Eu vou embora por um tempo.
Margot continuou lavando a louça, alheia às palavras que acabavam de sair da minha boca. Ashley, sentada à mesa, me encarava como se eu tivesse dito que planejava me jogar de um penhasco.
— O quê?
— Você não é surda, Ashley. Eu disse que vou embora. E não sei por que essa cara. Vai ser só por um tempo.
— Você fala isso como se estivesse indo dar uma volta no quarteirão! Você enlouqueceu? Para onde vai?
— Não sei. Só sei que preciso ir.
— Você não tem nem ideia de para onde vai?
— Nenhuma. Talvez eu jogue uma moeda para decidir ou suba no primeiro ônibus que aparecer.
— Meu Deus! Desde quando a Heloyse engraçadinha voltou?
— Desculpa — suspirei, passando as mãos no rosto. — Eu só estou cansada, Ashley. Se eu continuar aqui, vou enlouquecer. É sufocante. Cada canto dessa cidade me lembra ele. Eu preciso sair, ver além de Boston, além do Michael. Você entende?
Ela ficou em silêncio por um instante, então segurou minhas mãos, como se dissesse que sim, que entendia.
Margot desligou a torneira, secou as mãos e puxou uma cadeira. Sentou-se ao meu lado com um olhar que parecia atravessar minha alma.
— Você está certa — disse, e sua voz ecoou no ambiente.
— Ótimo! Mais uma louca na sala! — resmungou Ashley.
Margot ignorou.
— Heloyse, nove anos é muito tempo. Foi praticamente um casamento. Você ainda o ama, e não importa o quanto tente fingir que superou, isso está te consumindo. Não sei como você aguenta viver aqui, sabendo que pode cruzar com ele a qualquer momento, vê-lo com a nova família... Você pode até não perceber, mas eu vejo. Se continuar assim, isso vai te arrastar para um buraco cada vez mais fundo. Talvez você já esteja nele. Não quero que saia sem rumo, mas também não quero que apodreça dentro dessa casa. Precisa distrair sua cabeça. Quem sabe você conhece alguém e...
— Não! — minha voz saiu firme, cortando o ar como uma lâmina. — Eu não quero conhecer outra pessoa. Não quero mais me apegar a ninguém, porque um dia esse alguém vai embora. Mas concordo com tudo o que você disse. Eu preciso ocupar minha mente com qualquer coisa que não tenha o nome dele.
Ashley suspirou e cruzou os braços, me estudando com aquele olhar que sempre tinha quando queria argumentar.
— Tudo bem! Mas, como a Margot disse, você não pode simplesmente sair sem rumo. Se quiser, tenho parentes que podem...
— Não, Ashley! — fechei os olhos por um segundo, tentando conter a impaciência. — Eu não quero ir para casa de ninguém. Quero pegar uma mochila e sair por aí. Quero o silêncio. Quero entender tudo o que aconteceu sem ter que olhar para trás o tempo todo. Aqui, cada canto me lembra ele. E toda vez que penso nele, tudo o que faço é me esconder atrás de alguma coisa para vigiá-lo. Depois, eu o espero. Mas esperar o quê? Que ele volte? Que ele perceba o que perdeu? Eu estou presa a uma ilusão. E isso está me deixando louca. Se eu continuar aqui, vou me afundar até não sobrar mais nada de mim.
O nó na minha garganta apertou, e minhas últimas palavras saíram mais baixas, quase um sussurro:
— Eu estou perdida. E o pior é que não sei se quero me encontrar.
Ashley não disse nada. Margot também não. O silêncio preencheu a sala como um espectro invisível.
Então, Ashley sorriu. Um sorriso pequeno, compreensivo. Ela pousou a mão sobre a minha, um gesto simples, mas que dizia tudo.
Ela finalmente havia entendido.
Na manhã seguinte, eu estava na estação.
O cheiro de café, o som abafado de vozes e anúncios soavam como um eco distante, enquanto eu mastigava mecanicamente uma porção de batatas fritas frias. O refrigerante sem gás estava esquecido ao meu lado.
O relógio marcava quase oito da manhã.
Terminei de comer e fiquei ali, sentada. Observando as pessoas passando, indo e vindo com destinos certos, propósitos claros.
E eu? Para onde iria?
De repente, senti uma urgência inexplicável, um aperto no peito que me empurrou para frente. Eu precisava sair dali. Não importava para onde.
Eu só precisava ir.
Levantei-me, ajustei a mochila nos ombros e, sem olhar para trás, segui em direção à estrada.
Sem planos.
Sem destino.
Sem medo.
VOCÊ ESTÁ LENDO
UM PONTO DE PARTIDA
RomantiekTragédia e perda deixaram Heloyse à deriva, presa em um vazio onde a dor é sua única companhia. Em busca de um escape, ela se lança ao desconhecido-não para se encontrar, mas para esquecer, nem que seja por um instante. Sua jornada a leva a terras v...
