Heloyse
Havia um calendário em minha mente, marcando meu sofrimento diário.
“Até quando?”
Mesmo tendo visto seu lado sombrio, não conseguia evitar pensar nele. Sabia que Will não era alguém para se querer por perto; ele era o tipo de homem que sabia como arruinar uma mulher. Desejá-lo era como um suicídio, uma queda longa e lenta. Não deveria permitir que meus pensamentos fossem dominados por ele.
Sentia que estava desmoronando. Pensar nele me quebrava. O que estava acontecendo comigo?
— Por que ele é assim, Cielo?
— Will foi moldado pelas circunstâncias do passado. Ele carrega uma vida assombrada, e só de pensar nisso, meu coração se aperta. Na época, minha falecida mãezinha morava no Green Park, o mesmo bairro onde Will e Calvin viviam.
— E o que aconteceu lá?
Cielo abaixou o olhar, respirou fundo e, após um longo momento, me encarou.
— Não posso dizer, querida. Aqui, as pessoas não sabem o que ocorreu. Mas lá onde tudo aconteceu, ninguém toca no assunto, mesmo após tantos anos. Os mais velhos lembram bem. O fato é que, em todos esses anos, Will nunca falou sobre sua vida com ninguém. Não me sinto no direito de expor isso.
— É tão sério assim?
— É triste. Triste como Will.
Ela serviu mais um pouco de café em minha xícara, mas minha mente estava a mil por hora.
— Ele tem um grande vazio no peito. E um coração assim não pode ser habitado. Já está ocupado por um imenso vazio.
***
Era quase meia-noite quando desliguei a televisão. Não porque estivesse cansada, mas porque nada na TV me interessava.
Abri a geladeira e bebi um pouco de água. Depois, coloquei o copo sobre a mesinha e me levantei para apagar a luz. Deitei-me na cama, olhando para o teto escuro.
Estava terrivelmente entediada.
“O que ele estaria fazendo agora?”
Mas por que eu queria saber? Ele era um coração indomável, um homem que sabia usar as palavras para ferir. Como poderia ocupar minha mente pensando em alguém que até agora só havia mostrado seu lado obscuro?
Bufei de frustração e me virei na cama, tentando encontrar uma posição confortável. Nenhuma delas parecia boa o suficiente para mim.
Após horas de insônia, adormeci pensando nele.
Depois daquele dia em que o vi, não nos falamos mais. E assim permanecemos por quatro meses.
Às vezes, eu o via no pasto, montado em seu cavalo. Outras vezes, nossas caminhonetes se cruzaram, e ele nem olhou para mim. Certo dia, vi uma mulher saindo de sua fazenda e isso me incomodou profundamente. Em outras ocasiões, quando ele vinha ajudar Thom em alguma tarefa, eu simplesmente dava meia volta e retornava para casa. Mas a verdade é que eu sempre ficava observando-o escondida.
Confesso que fiquei decepcionada. Esperava que ele viesse me ver, que falasse comigo e se desculpasse por aquele dia. Mas isso nunca aconteceu.
Também não houve beijos, nem discussões.
“Melhor assim”, pensava.
O tempo passou mais rápido do que eu poderia imaginar. Não sabia se voltava para Boston ou se ficava aqui por um ano. Não fazia ideia de como deveria proceder.
Durante esses meses, eu ajudava Cielo com a comida e no trabalho da fazenda, mas nada que me deixasse cansada.
A cada dia que passava, sentia que eles se tornavam mais próximos de mim, quase como meus pais.
Um dia, fui ao cinema com Johnson. Comemos pipoca e conversamos sobre negócios. Falei sobre minha cafeteria e ele, sobre seu restaurante. No final, quando cada um seguia seu caminho, Johnson segurou minha mão e se despediu com um beijo próximo aos meus lábios. Não disse que gostei, mas também não me opus.
Durante esse tempo, ele mostrou-se um bom rapaz. Sua beleza talvez não fosse tão surreal quanto a de Will, mas ele também era um belo pedaço.
Observei-o entrar no carro e ir embora. Quando atravessei a rua e abri a porta da minha caminhonete, o vi.
Will estava parado em frente a uma loja de ferramentas, olhando para mim. Permaneci ali, parada, enquanto ele me encarava. Em seguida, uma mulher loira, a mesma que vi saindo de sua fazenda, saiu da loja e envolveu seu braço no dele. Ela não me notou.
Will caminhou e, antes de entrar na caminhonete com ela, se virou para me olhar.
Naquele dia, imaginar que eles poderiam transar, me consumiu por dentro de uma tal forma, que chorei.
O que sentia era uma dor que sufocava meu peito. Recusava-me a pensar que poderia estar apaixonada por ele, embora fosse estranho saber que, durante todo esse tempo em que estávamos afastados, não houve um dia em que não me pegasse pensando nele.
Queria correr até aquela fazenda, procurar por ele, me jogar em seus braços e saborear seus lábios, apagando a última cena que tivemos. Queria refazer Will, tirar a essência daquele homem vazio, sua mente perigosa, e colocar algo bom dentro dele. Quando esses pensamentos surgiam, imaginava que era uma atração muito forte que sentia por ele, menos amor. Recusava-me a acreditar que era amor.
Will jamais desejaria algo comigo. Aquela mulher era perfeita, mesmo com toda a sua vulgaridade. Eu não chegava nem aos pés dela.
E eu era uma tremenda imbecil. Como pude acreditar que ele viria atrás de mim e se desculparia
Depois daquela noite, decidi não pensar mais nele. Se consegui deixar de lado Michael, que esteve comigo por tantos anos, então seria fácil não pensar em Will, que era apenas uma atração.
Desta vez, não fugiria. Enfrentaria meus sentimentos e eu queria muito acreditar nisso.
***
— Cielo, estive pensando em algo e gostaria de saber sua opinião.
— Claro, querida. Sente-se e me conte.
— Acho que vou morar aqui em Clearwater... por um tempo.
Seus olhos se arregalaram e sua mão foi ao peito. Depois, um grande sorriso iluminou seu rosto.
— Meu Deus! Não brinque comigo.
Era a dramatização em pessoa.
— Não é brincadeira. Sinto falta de ter uma família e encontrei isso em vocês. Se eu for embora agora, vai doer tanto. Me apeguei demais.
— Não me faça chorar, Lisy! Estou tão feliz. Me conte seus planos. Enquanto isso, vou assar uma torta de pêssego para comemorar.
Eu ri e fui ajudá-la.
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UM PONTO DE PARTIDA
RomanceTragédia e perda deixaram Heloyse à deriva, presa em um vazio onde a dor é sua única companhia. Em busca de um escape, ela se lança ao desconhecido-não para se encontrar, mas para esquecer, nem que seja por um instante. Sua jornada a leva a terras v...
