William (oito meses depois)
— O que Heloyse é para você, Davies?
Dr. Malerman cruzou as pernas, apoiando o bloco de notas sobre o joelho. Seus olhos curiosos me estudavam como se buscassem um segredo escondido sob minha pele.
Fechei as mãos em punho sobre as pernas.
— É realmente necessário me chamar assim? Não gosto desse nome — perguntei, mantendo o olhar fixo no chão.
— Com certeza. Faz parte da sua terapia e você disse que iria colaborar. Agora, responda a minha pergunta.
Respirei fundo, tentando relaxar os dedos.
— Heloyse foi...
— Foi? Não é mais?
Hesitei.
— Prefiro pensá-la no passado. Foi lá que a deixei.
— Continue.
Meus olhos vaguearam até a janela. A luz do fim de tarde desenhava sombras longas no chão.
— Ela foi alguém importante. Tirou de mim coisas que outros nunca conseguiram.
— De uma forma boa?
— Sim.
— Gostaria de voltar e fazer tudo diferente?
Pensei por um instante antes de responder:
— Se eu voltasse ao momento em que a machuquei, ainda assim, a deixaria ir.
— Você não a machucou de propósito.
Suspirei.
— Ainda assim, eu a machuquei. Isso é um fato. Meu instinto violento causou tudo isso.
— Como?
— Eu fui violento com Johnson, e a consequência disso foi uma sucessão de desastres.
Malerman anotou algumas palavras no caderno. Depois, retirou uma carteira de cigarros do bolso do paletó.
— Se importa?
— Não. Só não morra antes de terminar minhas sessões. Eu paguei adiantado, então é melhor cuidar da saúde. Isso mata!
Ele deu uma gargalhada e acendeu um cigarro.
— Assim como guardar sentimentos ruins. Depressão, ódio, tristeza, rancor... Tudo isso mata. Há estudos que dizem que pessoas depressivas e ansiosas têm chances de desenvolver câncer. Sentimentos podem adoecer. A Bíblia menciona isso em Provérbios: “O coração alegre serve de bom remédio, mas o espírito abatido seca os ossos.”
Apertei os lábios.
— Acho que meus ossos secaram a ponto de virarem pó — murmurei. — Na verdade, acho que sou apenas um grão de poeira ambulante. Nada mais.
Malerman soltou uma risada breve, tragando o cigarro antes de dizer:
— E isso é ruim?
— Considerando que grãos de poeira são minúsculos e insignificantes, sim. Acho que são bem parecidos comigo.
Ele arqueou uma sobrancelha.
— Se você se parece com um grão de poeira, então há beleza em você.
Franzi o cenho.
— Não vejo como.
— As partículas de poeira carregam de tudo: pele humana, fios de cabelo, pelos de animais, restos de insetos, até fungos...
— E onde está a beleza nisso?
Ele sorriu de leve, como quem esperava essa pergunta.
— Sem a poeira, você jamais poderia apreciar as nuvens no céu. São as partículas de terra e de sal evaporadas do oceano que formam os núcleos das gotas de chuva. Sem elas, não haveria tempestades ou arco-íris.
Ouvi em silêncio suas palavras.
— E você já reparou na luz em torno das partículas de poeira, Davies?
— Não. Geralmente estou ocupado trabalhando e não observando poeira de unicórnio.
Eu gargalhou outra vez e disse ao se recompor:
— Elas dispersam a luz em ondas diferentes. Durante o dia, parecem amarelas ou esbranquiçadas. Mas, no pôr do sol, quando o céu se acende em tons de laranja e vermelho, são elas que criam aquele espetáculo. Quanto mais poeira há na atmosfera, mais intensas são as cores. Você já percebeu que, nas cidades mais poluídas, o pôr do sol é mais vibrante?
Permaneci calado.
— O que quero dizer é que até as coisas que consideramos feias ou insignificantes podem criar algo belo. A poeira, cheia de fragmentos de coisas que um dia existiram, transforma o céu num quadro de cores vivas. A sua vida, Davies, pode ter dores, falhas e cicatrizes. Mas também houve amor. Houve sua mãe, Calvin, Eva, Thom, Martin... Houve amizade. Houve Heloyse. E, nela, você encontrou mais do que já procurou. Se você é um grão de poeira, Davies... então já um espetáculo de cores existente em você.
Ele me olhou por um instante, jogou as cinzas do cigarro no cinzeiro e voltou a atenção para o seu caderno.
Naquele mesmo dia, eu fiquei sentado em uma das minhas cadeiras, observei o céu até o sol desaparecer, enquanto a luz se derramava pelo horizonte em tons de ouro e carmim.
Eu era apenas uma partícula de pó, tentando se tornar luz.
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UM PONTO DE PARTIDA
RomansaTragédia e perda deixaram Heloyse à deriva, presa em um vazio onde a dor é sua única companhia. Em busca de um escape, ela se lança ao desconhecido-não para se encontrar, mas para esquecer, nem que seja por um instante. Sua jornada a leva a terras v...
