Heloyse
— Estou cansada. Cansada de tudo.
Minha voz saiu fraca, como um fio prestes a se romper.
Cielo continuou acariciando meus cabelos, seu toque tão suave quanto o vento antes da tempestade. Eu mantinha a cabeça em seu colo, sentindo o calor de sua presença, mas não conseguia afastar o frio que me habitava por dentro.
— Às vezes, a vida toma rumos que não entendemos, nem queremos seguir — ela disse, seu tom carregado de lembranças. — Isso aconteceu com meus pais. Meu pai viveu um tempo em Clearwater, minha mãe no Green Park. Eram separados. Brigavam o tempo todo. Mas, depois de anos longe um do outro, aprenderam que um era o que faltava no outro. A vida nos leva por caminhos estranhos... Mas, de qualquer forma, mantenha-se forte, querida. Não viva como se estivesse desistindo.
Fechei os olhos, absorvendo suas palavras, mas dentro de mim, algo já havia se quebrado.
— Eu queria ser assim — murmurei. — Mas não sou forte. Tudo parece desmoronar ao meu redor, e, ainda assim, não estou surpresa. No fundo, sempre soube que Will não era algo que duraria para sempre. Como se ele fosse um pequeno pedaço do paraíso, uma amostra do que eu jamais poderia ter. Agora que conheci esse paraíso, não quero mais voltar. Mas sempre soube… o paraíso nesta terra é inalcançável.
Minha alma estava nublada. Então, deixei chover.
E, mais uma vez, me vi na tempestade.
Ele sabia o quanto eu estava triste?
Sabia que eu o amaria para sempre?
Homens sábios dizem que só os tolos se apaixonam.
Eu era uma tola.
Horas depois, coloquei a última mala na caminhonete.
— Eu vou sentir sua falta, querida — Cielo disse, segurando minhas mãos com firmeza.
— Eu venho visitá-la. Prometo.
Ela me envolveu em um abraço apertado, e senti seu corpo estremecer quando enxugou as lágrimas.
— Aquela casinha ainda é sua.
— Eu sei. Obrigada.
— Quero que fique com a caminhonete. Thom teria querido isso.
Assenti, sentindo um nó na garganta.
— Eu realmente agradeço por tudo.
Na noite anterior, despedi-me de Megan.
— Megan vai sentir sua falta. Você é como uma irmã para ela. E, minha querida, você é como uma filha para mim.
— Oh, Cielo...
Fiquei ali, presa naquele abraço. Eu não queria partir, mas nada me faria mudar de ideia.
— Vai dar tudo certo.
Sorri, mesmo sem acreditar, e acenei antes de partir.
Desisti de tudo. De todos os planos que projetei em Clearwater.
Saí de Boston para esquecer Michael. Agora, estava voltando para esquecer Will.
Era um ciclo vicioso, um labirinto sem saída.
Ao cruzar os portões da fazenda, soltei uma longa respiração, tentando aliviar a sensação sufocante que se formava em minha garganta.
Foi então que o vi.
A cerca, o pasto, as árvores... Nada existia quando ele estava por perto.
Quis parar. Quis correr até ele.
Quis dizer “isso não acabou”.
Mas teria sido mentira. Não havia volta.
Ele estava sublime em cima de seu preto tão imponente quanto o dono. Ambos majestosos.
Seu olhar estava preso em mim.
Meu coração bateu forte quando parei a caminhonete para observá-lo.
Will desmontou, caminhou alguns passos à frente... e parou.
Esperei. Esperei que ele viesse.
Ele não veio.
O vento soprou, mas mal fez as folhas das árvores se moverem.
Meus olhos vaguearam pela cerca de madeira, pelo pasto, pelo mato alto salpicado de pequenas flores amarelas. O tempo parecia suspenso.
E lá ainda estava ele.
Vestia uma calça jeans preta e uma blusa xadrez marrom, aberta, revelando o abdome firme. Os cabelos soltos caíam sob o chapéu da mesma cor da blusa.
As lágrimas caíram antes que eu pudesse contê-las.
Apressei-me em enxugá-las, embora soubesse que ele não as veria.
Então, Will ergueu a mão até o chapéu e o inclinou levemente, num aceno silencioso.
Virou-se, subiu no cavalo e se foi, cavalgando em um galope rápido, sem olhar para trás.
Fiquei ali, assistindo cada movimento seu até que desaparecesse na imensidão do pasto.
Gravei cada detalhe na minha memória.
Aquele foi o último dia em que vi William O’Connor.
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UM PONTO DE PARTIDA
RomanceTragédia e perda deixaram Heloyse à deriva, presa em um vazio onde a dor é sua única companhia. Em busca de um escape, ela se lança ao desconhecido-não para se encontrar, mas para esquecer, nem que seja por um instante. Sua jornada a leva a terras v...
