Capítulo Cinquenta e Dois - "Você causa dor"

2K 190 46
                                        

William

Ele estava pálido.
Os olhos, que um dia carregavam vida, agora eram grandes demais para o rosto magro. A pele amarelada parecia esticada sobre os ossos, e sua cabeça, antes proporcional, agora se destacava em um corpo que a doença consumia impiedosamente. Cada respiração era um esforço, um som rouco e frágil que cortava o silêncio como uma lâmina cega.
Era assim que Martin se encontrava.
Ele não movia o corpo. Não sentia o toque. Lutava contra uma infecção que consumia seus pulmões, sugando o pouco de força que lhe restava. E, mesmo sem precisar ouvir dos médicos, eu sabia.
Ele estava indo embora.
— Eu vou morrer… — sua voz saiu tão baixa que, por um instante, achei que fosse apenas o som do ar escapando de seus lábios.
Ele sorriu. Fraco. Sem brilho.
— E nem conheci a mãe dos meus filhos.
Ele parou por um instante, o olhar perdido no teto branco. Como se pudesse ver uma vida que nunca existiu.
— Não haverá pequenos Martin correndo por aí.
— Você não vai morrer! — falei, segurando sua mão com força.
Ele não sentia. Não sentia há muito tempo.
E, no fundo, eu sabia que logo ele iria.
— Não minta pra mim, Will. Eu já aceitei meu destino.
— Você fala como se estivesse desistindo. Você tem que lutar, Martin! Seus pais precisam de você, sua irmã… Eu preciso! Você é como um irmão pra mim.
— Eles ficarão bem — ele piscou devagar, como se o simples ato de manter os olhos abertos fosse exaustivo. — Eu sei que você vai cuidar deles por mim. E, por isso, estou tranquilo.
Ele me olhou por um instante.
— E um dia, Will… você também terá sua família. Não se sentirá mais sozinho. Eu vou torcer por você… onde quer que eu esteja.
Meu peito pesou.
— Ainda com essa ideia? Eu não quero casar ou ter filhos. Sou como um pássaro livre, Martin. Não preciso dessas coisas para seguir em frente.
Ele riu, mas foi um riso breve, seco. Quase triste.
— Livre? Você só poderia ser um pássaro livre se voasse. Mas você sempre está machucado.
Ele respirou fundo, a tosse interrompendo sua fala. Eu o observei apertar os olhos, tentando conter a dor.
— Já viu pássaro ferido voar, Will? Ele não voa. Ele fica preso na própria dor… e morre.
Ele virou a cabeça para mim, e seu olhar me perfurou.
— Não há liberdade nenhuma nisso.
Eu desviei o olhar, incapaz de sustentar o peso daquelas palavras.
— Eu só queria poder ajudá-lo. Todos esses anos, e você nunca saiu de dentro do seu passado.
A avó dele morava perto da casa onde cresci. Foi ela quem contou minha história para ele. Desde então, Martin sempre soube. E ele sempre tentava abrir meus olhos para algo que eu me recusava a enxergar.
Eu apertei os punhos.
— Não posso evitar.
— Shakespeare disse que lamentar uma dor passada no presente é criar outra dor e sofrer novamente.
Eu cerrei os dentes.
— Maldito Shakespeare.
Martin tossiu novamente. A enfermeira veio, mediu sua temperatura e confirmou o que eu já sabia: a febre estava voltando.
Ele suspirou.
— Estou tão cansado, Will… Só quero que isso acabe. Não quero ser o sofrimento dos meus pais.
Ele fechou os olhos.
— Eu só quero descansar.
Minha garganta se apertou.
— Sinto muito, Martin… Eu daria qualquer coisa pra te salvar.
Ele abriu um pequeno sorriso.
— Eu sei.
Fez uma pausa, a respiração fraca e entrecortada.
— Agora vá… Preciso dormir. O sono é a única coisa boa que me resta depois daquele acidente.
— Então descanse.
Ele piscou algumas vezes, os olhos pesados, quase fechando. Mas, antes de apagar completamente, ele murmurou:
— Will… haverá um dia…
Sua voz estava fraca, distante.
— Você encontrará alguém. E ela será a cura para todas as suas feridas. Nesse dia…
Ele respirou fundo.
— Você será livre.
E, naquela noite, Martin dormiu.
Ele dormiu mais algumas vezes. E nunca mais acordou.

***

“Sim, eu encontrei… e agora vou deixá-la ir.”
Eu a vi sendo lançada para longe.
Como se o próprio tempo desacelerasse para que eu testemunhasse minha ruína acontecer diante dos meus olhos.
Ela voou no ar antes de atingir o chão com um impacto seco.
Longe. Longe demais de mim.
E eu fui o responsável.
Fiquei imóvel.
O mundo ao meu redor parecia um borrão sem som, até que as vozes começaram a rasgar o silêncio.
— Sua culpa! — Johnson berrou, e eu soube que ele estava certo.
Cielo gritava o nome dela, empurrando pessoas para tentar alcançá-la. Alguém chamou por socorro. O caos se desenrolava ao meu redor, mas tudo o que eu via era ela.
Minha Lisy.
Meu corpo reagiu antes da minha mente.
Corri, empurrando quem estivesse no caminho. Me ajoelhei ao lado dela, o peito se contraindo com tanta força que achei que não conseguiria respirar.
E então, me sentei no chão para olhá-la.  Meu coração se apertou ao vê-la. O nariz sangrando pelo golpe que eu a havia dado e a cabeça com um ferimento exposto. Olhei mais um pouco e vi um de seus dedos, quebrados e me senti tão infeliz. 
Minha culpa.
Uma onda de náusea me atingiu com força. O coração acelerado batia contra minhas costelas como se quisesse me punir.
Eu deveria ter ido embora.
Eu deveria ter ignorado Johnson.
Eu deveria ter segurado meus demônios, mas, em vez disso, os soltei — e ela foi quem pagou o preço.
— Eu vou matá-lo, seu infeliz — Johnson rugiu, tentando avançar, mas foi contido por outras pessoas.
“Infeliz” como a mãe de Kimberley havia me chamado.
Os gritos dele pareciam distantes.
— Você não já teve o suficiente, Johnson? — Cielo rebateu, a voz trêmula.
Eu não me importava. Não com ele. Não com nada.
Apenas com ela.
Minhas mãos tremiam enquanto acariciavam seus cabelos, a pele suada, fria. E então, senti algo escorrer pelo meu rosto.
Tentei inspirar fundo, mas o ar parecia grosso, pesado demais para entrar nos meus pulmões.
Toquei meu próprio rosto, confuso.
Lágrimas.
Fazia tanto tempo… tanto tempo desde a última vez que chorei que nem me lembrava da sensação.
Mas ali, ajoelhado ao lado dela, eu chorei.
E chorei como um maldito covarde.

***

Eu estava na sala de espera quando o médico saiu para dar notícias.
— Ela está sedada.
Aquelas palavras não me traziam alívio. Só pioravam o nó na minha garganta.
Não aceitei ajuda médica.
Depois disso, fui levado até a delegacia para dar explicações sobre o que aconteceu. Johnson me acusou de tê-la agredido de propósito.
Ele não estava completamente errado. Se não fosse por mim, ela não estaria naquele hospital.
Cielo chegou logo depois, acompanhada de Victoria. Ambas deram seus depoimentos, confirmando que tudo não passou de um acidente.
E foi isso que me soltou. Mas não foi o suficiente para me libertar.
Eu não queria que me soltassem. Eu queria ficar preso naquela sensação de culpa. Eu merecia o pior.
Cada minuto longe dela era um tormento, mas eu não podia voltar para o hospital daquele jeito.
Então, fui para a fazenda. Tomei um banho, fiz um curativo improvisado, porque não queria que ninguém me tocasse.
Eu me sentia contaminado.
Meus antebraços estavam com escoriações e começando  um inchaço aparente. Minhas mãos com os nós dos dedos, rasgados devido aos socos que dei em Johnson. Havia um pequeno corte em meus lábios e ainda assim, existia uma dor pior do que a dor física.
Confesso que ver o estado em que se encontrava o rosto de Johnson, em outro momento, poderia ter me dado um certo prazer.
Fiquei sentado ali, na varanda, encarando o nada enquanto tentava encontrar uma saída para o que fiz.
E não havia saída. Porque, no fim, Johnson estava certo.
Era minha culpa.
Eu poderia ter deixado ele falar o que quisesse. Poderia ter saído de perto. Poderia ter sido um homem, mas, em vez disso, fui um animal.
E agora ela estava lá, ferida.
Meu peito doía.
Eu chorei por ela.
Não pelos outros. Não pelas dores que a vida me deu. Por ela.
E se o que tínhamos continuasse… Se ela ainda me quisesse… Quantas vezes mais eu a faria chorar?
Antes, foram minhas palavras e atitudes que a feriram. Agora, eu tinha machucado seu corpo.
“Coitada das mulheres…”
O pensamento veio como um golpe no estômago.
Quantas vezes mais isso aconteceria? E, pior… quantas vezes mais ela me perdoaria?
Eu não conseguia me perdoar.
Por mais que tentasse ser diferente, por mais que lutasse contra isso, estava no meu sangue.
Meu avô.
Meu pai.
Eu.
Eu tentei não ser como eles. Mas, no fim, eu era.
Eu era o que eu mais odiava.

***

Quando finalmente voltei ao hospital, ela ainda dormia.
O rosto estava inchado. As pálpebras arroxeadas, os lábios partidos. O corte na cabeça coberto por curativos. Seu dedo, imobilizado.
E eu fiquei ali, parado na porta. Porque, pela primeira vez, eu não sabia se tinha o direito de me aproximar.
Eu precisava tomar uma decisão. Precisava colocar as coisas em ordem, o mais rápido possível. Passei intermináveis horas na sala de espera e, quando ela acordou, não consegui me aproximar. Pedi a Cielo que inventasse alguma coisa. Eu era um maldito covarde.
No outro dia, já não podia ignorar o que estava acontecendo e fui visitá-la. Assim que me aproximei da cama, ela sorriu. Beijei seu rosto.
— São para você.
Heloyse levou as flores ao nariz e inalou o perfume.
— Obrigada.
Eu nunca dei flores quando estávamos bem. Agora, ali, naquele quarto de hospital, era a primeira vez.
Sentei-me ao lado dela e esperei que dissesse algo. Ela tinha perguntas, e eu não estava preparado para respondê-las.
— Por que não veio ontem? Eu esperei por você.
— Eu sei. Eu só... não podia.
— Will, você sabe que não tem culpa de nada, não é?
Eu fechei os olhos por um instante.
— Eu olho para o seu rosto cheio de hematomas, seu dedo, esse corte na cabeça... e não consigo pensar como você.
— Eu não devia ter feito aquilo. Eu deveria imaginar que isso aconteceria. Você estava nervoso, e eu não devia ter me aproximado. O erro foi meu.
— Você é a única que não tem culpa.
Ela abaixou o olhar para as flores, tocando distraidamente as pétalas. Respirou fundo antes de falar:
— Eu estou bem, Will. Juro! Não quero que isso estrague as coisas entre nós.
Mas como eu poderia fingir que estava tudo bem? Como ignorar as marcas que eu causei nela?
— Eu preciso resolver algumas coisas em Houston. Problemas com a contabilidade. Vou passar alguns dias fora. Agora que você está bem, irei tranquilo. Vou pedir que levem suas coisas para a fazenda, e a Eva cuidará de você.
— Eu vou para minha casa e vou ficar com a Cielo.
— Na minha casa, você terá mais conforto.
— Na sua casa, vou me sentir como se você estivesse tentando reparar o que fez. Não precisa fazer isso. Além do mais, você não estará lá. Não me interessa ficar lá sem você.
— Eu realmente não vou poder ficar.
Ela assentiu e abaixou a cabeça.
— Will, eu te amo. E você? Você me ama?
“Não faça isso, Heloyse”, implorei mentalmente.
— Por que a pergunta?
— Só me responde.
— Claro — falei, franzindo o cenho.
— Claro — ela repetiu, pensativa.
Me levantei, inclinei a cabeça e beijei sua testa. Ela segurou delicadamente minha mão.
A enfermeira entrou com uma bandeja e alguns remédios. Me cumprimentou antes de colocar a bandeja perto da cama.
— Você parece melhor, querida.
— Obrigada — ela respondeu.
— Logo mais, a doutora virá vê-la. Você fará alguns exames e poderá tirar todas as dúvidas sobre o aborto que sofreu. Sei que agora está sofrendo, mas se acalme, pois eu creio que poderá ser mãe novamente.
Meu coração parou. Meu cérebro entrou em curto.
Aborto.
Gravidez.
Pai?
As palavras giravam dentro da minha cabeça, desordenadas, desconexas, irreais.
Tentei dizer algo, mas não consegui.
A enfermeira continuou falando, mas não ouvi mais nada.
Heloyse ficou visivelmente pálida, e eu tive que me sentar na poltrona.
Depois que a enfermeira saiu, eu murmurei um palavrão e voltei a ficar quieto.
— Aborto? — minha voz saiu arranhada.
— Sim — ela respondeu, abaixando o semblante.
Eu nunca quis uma família. Nunca gostei de imaginar minha vida assim. Mas, por algum motivo, aquelas palavras me acertaram como um soco no peito.
Um filho?
Eu quase tive um filho?
A palavra me soava estranha. Assustadora. Como alguém como eu poderia ser pai?
Eu odiava a palavra “pai”.
— Por que não me contou? Você disse que estava se prevenindo.
— Eu sei o que eu disse.
— Por que mentiu?
— Eu só... — sua voz embargou e isso me incomodou. — Eu tinha esquecido alguns dias antes de irmos para o chalé. Mas eu não me importei, mesmo sabendo que poderia engravidar. E se quer saber... eu queria essa gravidez.
Ela enxugou as primeiras lágrimas que caíram.
— Você deveria ter falado a verdade quando perguntei se estava se prevenindo, Heloyse. Eu teria comprado a porra de uma pílula...
— Você é surdo, droga? Eu disse que queria.
— Eu não queria, inferno! — gritei, me levantando.
Ela soluçou.
Naquele instante, me odiei mais do que nunca.
Puxei o ar, passando as mãos no rosto. Me aproximei para tocá-la, mas ela afastou meu toque.
Voltei para a poltrona, apoiando os cotovelos nas pernas. Escondi o rosto nas mãos.
— Foi por isso que eu não contei. Eu sabia que você não ia querer.
— E você acha que eu não perceberia?
— Quando esse dia chegasse e você não me quisesse, eu teria algo seu. Porque, Will, eu te amo tanto que ter um filho seu não era nenhum tormento pra mim.
As palavras dela me dilaceraram.
— Lisy, eu jamais rejeitaria um filho. Estou bravo porque você não me contou. Estou bravo porque, se eu soubesse, teria cuidado de você. Merda! Você não entende que perdeu esse filho por minha culpa? Se eu soubesse... — minha voz falhou.
Engoli em seco.
— Eu não queria porque eu não sei lidar com isso. Você não imagina o pavor que sinto quando penso em ter uma família. Eu já tive uma, Lisy, e foi um inferno — minha voz ficou mais grave, mais densa. — Eu não sei se seria um bom pai. Só de ouvir essa palavra, eu sinto um desespero na alma que nunca consegui explicar. É como uma fobia. Minhas mãos tremem. Meu peito aperta. E se eu fosse um pai distante? Se eu não soubesse amar? Se eu o machucasse? Você viu o que eu fiz com você...
— Não foi sua culpa.
— Eu machuquei assim mesmo. Mesmo eu não querendo parece que está em meu sangue machucar alguém. Se você ainda estivesse grávida, eu jamais o rejeitaria, mas, eu seria um bom pai? Você consegue me responder com toda a certeza? Porque, merda, eu estou confuso.
— Consigo, sim. Eu acredito nisso. Você é bom, Will. Olha o que fez pela família do Martin. Olha como trata seus empregados. Você é bom com os Mitchell... Impossível ser um péssimo pai.
— Lisy, você entende que por causa do golpe que eu te dei, você foi atropelada? Que poderia ter morrido? Entende que por causa de tudo isso, perdeu um filho? Será que você não enxerga que eu o matei? E esse você estivesse com a gravidez bem mais avançada? Consegue imaginar? Oh, meu Deus, isso é horrível... Eu sou horrível!
Não consegui manter a voz firme. Eu teria um filho se tudo aquilo não tivesse acontecido. Eu não queria ser pai, então por que eu estava mortalmente triste? Doía dentro do meu peito. Doía tanto!
— Você está chorando, Will.
Havia surpresa na voz dela.
— Eu chorei por você. Quando eu a vi no chão, eu chorei por você. Mas eu vou fazer de tudo para não haver outras vezes.
Saí do quarto. Encostei as costas na porta, soltando todo o ar dos pulmões.
Ouvi o choro dela, abafado, do outro lado.
Eu causava dor.
Eu machucava.
Agora, eu novamente causei morte.
Se eu não tivesse desmaiado quando criança, minha mãe não teria pensado o pior. Não teria tirado a própria vida, achando que eu estava morto.
E agora, eu matei de novo.
Uma vez, meu pai disse: “Você é desprezível, Davies. Você causa dor.”
E ele estava certo.
Eu causava dor.
E sim... eu era desprezível.

UM PONTO DE PARTIDAHistórias para pegar e não largar. Descubra agora