Heloyse
— Antes de vir para a fazenda, eu morava no Green Park, aqui mesmo, no Texas. Éramos eu, minha mãe e o... — ele franziu o cenho, escolhendo as palavras com cuidado, como se estivesse tentando moldar o passado de uma forma menos dolorosa. — meu pai. Nossa casa ficava do lado da casa dos Mitchell.
Ele parecia carregar um peso invisível em seu tom de voz. Ele respirou fundo, a expressão séria, quase nostálgica. Suas mãos pousaram sobre os joelhos e, por um breve momento, ele fitou um ponto qualquer no tapete da sala, perdido em lembranças.
— Depois que minha mãe morreu, eles tomaram conta de mim.
Meus olhos se estreitaram em curiosidade.
— Eles? Mas e o seu pai?
Will cruzou os braços e me olhou com intensidade, como se estivesse avaliando até que ponto queria compartilhar sua história. Depois de um breve silêncio, respondeu:
— Meu... — Ele repetiu a palavra com um leve tremor na voz e franziu o cenho, como se tivesse dificuldade em se referir àquela figura. — Ele não estava em condições de ficar comigo. E depois de uns anos, ele morreu.
A notícia me pegou desprevenida.
— Oh... Sinto muito.
Ele deu de ombros, como se quisesse minimizar o impacto da revelação.
— Foi há muito tempo.
— Ainda assim, sei que você deve ter sofrido muito.
Will assentiu devagar, seu olhar voltando a vagar pela sala. As cortinas ondulavam suavemente com o vento que entrava pela grande janela, e o som distante dos cavalos no pasto trazia uma melodia melancólica ao ambiente.
— Mas, se Calvin e Eva tomaram conta de você, quando seu avô te procurou?
Ele apertou as mãos, um hábito que percebi surgir sempre que estava prestes a dizer algo importante.
— Wallace O'Connor não era meu avô de verdade. Para falar a verdade, antes de meus pais morrerem, eu nem sabia quem ele era.
Minha testa se franziu em surpresa.
— Não? Mas então...? Então por que você se chama O'Connor? Como herdou tudo dele?
Eu me arrependi assim que fiz a pergunta. Minha curiosidade soou invasiva, e uma pontada de culpa me atravessou.
— Ai, meu Deus, desculpa! Isso não é da minha conta.
Will sorriu levemente, mas sem humor.
— Todos aqui sabem que eu sou o filho adotivo dele.
Ele passou a mão pelo queixo, respirou fundo e continuou:
— Houve um período em que o banco tomou nossa casa e colocou à venda. Eu não conhecia os parentes da minha mãe. Ela não nasceu no Texas. Minha mãe era de Los Angeles. Conheceu o marido dela lá, quando ele viajava por aí, trabalhando em obras. Ele era texano e trouxe minha mãe para viver com ele. Pelo que sei, ela rompeu contato com a família dela.
Will pausou por um instante, apertando os dedos sobre os joelhos antes de prosseguir.
— Meu avô paterno nunca se deu bem com meu pai... O que, no fim, foi um alívio, porque eu não precisei morar com ele. — Sua voz ganhou um tom amargo. — Ele tinha problemas com a justiça.
O silêncio pairou entre nós, carregado por revelações que eu não esperava. Ele esfregou as mãos na calça jeans, demonstrando certo nervosismo.
— E nem ele me queria. Mas, enfim, meu avô biológico morreu também. Fiquei sabendo quando eu já tinha dezesseis anos. Resumindo, eu não tinha mais ninguém que fosse da família para cuidar de mim.
O peso daquelas palavras ficou pairando no ar.
— Quantos anos você tinha quando foi adotado? — perguntei suavemente.
— Quatorze.
— Por que os Mitchell não o adotaram? E como você morava com eles se não eram da sua família?
Ele passou a mão pelos cabelos, afastando algumas mechas do rosto, e me olhou nos olhos antes de responder:
— Eva trabalhava como faxineira na casa do juiz, e ele ajudou conseguindo permissão para que eles ficassem comigo. Assim, não precisei ir para um orfanato.
A expressão dele se suavizou um pouco ao falar de Eva e Calvin, mas logo voltou a ficar séria.
— Nessa época, eu tinha oito anos. Meu pai ainda não tinha morrido, mas a lei não permitiria que eu ficasse com ele. Além do mais, ele estava desaparecido. Então, a condição era que eu ficasse com os Mitchell até que alguém me adotasse.
Will suspirou pesadamente.
— Eles queriam me adotar, mas sempre dão preferência a quem tem mais condições para cuidar de uma criança. A condição financeira deles, na época, não ajudou.
— E então Wallace apareceu?
Ele assentiu.
— Sim. Wallace já era um homem velho, solitário... E decidiu me adotar.
A sala, iluminada pela luz suave do entardecer, parecia mais quente e acolhedora enquanto Will mergulhava em suas recordações.
— Ele não tinha filhos? — perguntei.
— Tinha dois. Richard pisou em uma mina quando estava no exército. Era fuzileiro. Ruth morreu queimada em uma plataforma de petróleo.
Minha respiração ficou suspensa por um segundo.
— Meu Deus...
Will continuou:
— Eles viviam e trabalhavam como pessoas simples, mesmo sabendo que tinham uma fortuna para desfrutar. Sempre tiveram Wallace como exemplo. Quando eram pequenos, a mãe morreu de câncer no pulmão. Então, depois de anos sozinho, Wallace decidiu adotar uma criança.
— E então você chegou...
Ele assentiu.
— Nós dois perdemos as pessoas mais importantes de nossas vidas. Ele me entendia. Assim que me adotou, deu emprego para Eva e Calvin e viemos todos morar aqui.
Meus olhos vagaram pela sala, imaginando o jovem Will crescendo naquele lugar imponente, tentando encontrar seu espaço em meio a tantas mudanças.
— Então, se você vê os Mitchell como seus pais, por que os mantém trabalhando?
Ele riu baixo.
— Calvin quis trabalhar aqui. Wallace ofereceu uma casa, um veículo e muitas outras coisas para eles, mas eles não aceitaram. Só aceitariam se trabalhassem. Depois que Wallace morreu, pedi que parassem, mas se recusaram. Eva diz que é a forma dela de cuidar de mim.
Will olhou para a poltrona próxima à lareira, seus olhos ficando um pouco marejados.
— Nenhum dinheiro no mundo pagaria o que eles fizeram por mim e o que meu avô Wallace fez. Às vezes, olho para aquela poltrona e o vejo fumando seu cachimbo, ouvindo músicas em seu rádio de pilha.
Seu tom era carregado de saudade.
Eu me aproximei devagar, colocando minha mão sobre a dele. Will demorou um segundo para notar, mas quando sentiu meu toque, seus olhos se fixaram nos meus.
— Você chama Eva de mãe — comentei.
— Algumas vezes, sim.
— Por que não chama Calvin de pai? Ou mesmo Wallace?
O maxilar dele retesou instantaneamente. Will se levantou rápido, como se eu tivesse tocado em um ponto sensível demais.
— Eu... — Ele passou a mão pelos lábios, claramente desconfortável. — Acho que falei demais.
— Me perdoa...
— Não. Eu que peço perdão. Só não quero falar sobre isso.
Meu coração apertou um pouco.
— Tudo bem, Will. Eu entendo. Eu vou embora...
Mas antes que eu me afastasse, ele segurou meu rosto e me beijou. O beijo começou suave, mas logo se aprofundou, despertando um calor urgente entre nós.
Quando nos afastamos, ofegantes, ele sussurrou:
— Você tem um cheiro bom, raio de sol.
— Por que você me chama assim?
— Porque você é um. Simples assim.
Ele sorriu antes de me beijar novamente.
Will ainda estava com a respiração levemente ofegante quando sussurrou:
— Eu ainda quero te levar para conhecer a fazenda.
Sua voz rouca e profunda soou quase como uma promessa. Eu apenas assenti, sem palavras, enquanto sentia meu coração ainda acelerado pelo que acabara de acontecer entre nós.
A tarde já avançava quando Will me levou até os estábulos. O cheiro de feno fresco misturado ao perfume natural dos cavalos preenchia o ar, trazendo uma sensação de calma e conexão com aquele lugar. O estábulo era espaçoso e bem organizado, com baias impecavelmente limpas. O som suave dos cascos raspando o chão de madeira e o ocasional relinchar dos cavalos criavam uma melodia tranquila.
Will parou diante de um cavalo magnífico de pelagem escura e brilhante, seus músculos definidos reluzindo sob a luz dourada que entrava pelas frestas do estábulo.
— Esse é Diamante — ele disse, enquanto acariciava o pescoço do animal com familiaridade.
O cavalo bufou suavemente e inclinou a cabeça em direção a Will, como se entendesse o que estava acontecendo. Com movimentos ágeis e experientes, ele pegou a sela e a ajustou com precisão, verificando cada fivela e correia antes de me lançar um olhar.
— Pronta?
Eu assenti, e ele se aproximou, segurando minha cintura com firmeza ao me ajudar a montar. O toque de suas mãos enviou um arrepio pela minha espinha, mas logo eu me concentrei na nova experiência de estar sobre um cavalo tão imponente.
Will subiu logo atrás de mim, envolvendo-me com seu corpo. Senti o calor de seu peito contra minhas costas e a firmeza de suas mãos segurando as rédeas ao meu redor. O contato era íntimo e envolvente, como se fôssemos um só naquele momento.
Seguimos em silêncio pelos campos abertos, deixando que a brisa quente da tarde nos envolvesse. O cheiro da terra misturado ao aroma suave da lavanda que se espalhava em algum ponto distante da fazenda criava um perfume natural e relaxante.
Eu me acomodei melhor contra ele, apoiando minha cabeça em seu peito. Parecíamos um casal de namorados, compartilhando um momento simples e cotidiano.
Will nos guiou até um grande pasto onde o gado se espalhava, centenas de bois de diferentes tons de marrom e preto caminhavam pelo campo, enquanto ao longe, oito homens a cavalo os cercavam com precisão e maestria. Os gritos dos vaqueiros se misturavam aos mugidos e ao som dos cascos batendo contra o chão seco.
Um grupo de cães border collie correu animado ao perceber nossa presença. Os animais eram ágeis e disciplinados, movendo-se como se dançassem ao redor do gado, cumprindo suas funções com impressionante inteligência.
Descemos do cavalo.
Sony, o cachorro que havia me assustado perto do celeiro, veio em disparada até Will, abanando o rabo freneticamente.
— Ei, garoto! — Will sorriu, abaixando-se um pouco para fazer carinho no animal.
Eu me inclinei para baixo, estendendo a mão hesitante. Sony cheirou meus dedos antes de lamber minha palma com entusiasmo, e eu ri com a sensação.
Depois de alguns minutos observando os cães em ação, montamos novamente e seguimos para outra parte da propriedade.
Will começou a me contar sobre os torneios em que participou em Dallas, descrevendo com entusiasmo as competições e os prêmios que havia conquistado.
— Diamante e Imperador são os melhores cavalos que já tive. Eles nunca me decepcionaram — disse com orgulho.
Enquanto cavalgávamos, passamos por um pomar repleto de árvores frutíferas, o perfume adocicado das frutas maduras pairando no ar. Mais adiante, a paisagem se abriu para uma vastidão de terras que pareciam se estender até o horizonte.
Um trecho do campo parecia ter sido pintado de lilás.
— É lavanda? — perguntei, maravilhada.
Will sorriu ao ver minha reação.
— Sim. Temos campos de lavanda.
— Você tem uma fazenda ou um pequeno país? — brinquei, ainda absorvendo a imensidão do lugar.
Ele riu.
— Quase isso. São dois mil e noventa e oito quilômetros quadrados e se estendem por quase sete condados.
Minha boca se abriu em choque.
— Você está brincando? Isso é terra para não acabar mais!
Will arqueou a sobrancelha com diversão.
— Então você é um fazendeiro cowboy, podre de rico, que se veste como se não tivesse dinheiro para comprar camisetas que não estão desbotadas?
Ele riu alto, jogando a cabeça para trás.
— Você queria o quê, Heloyse? Que eu colocasse gravata para tocar o gado?
Meu riso se misturou ao dele, mas logo minha atenção voltou para a paisagem e para as informações que ele começou a me fornecer.
— Aqui temos dois complexos principais — apontou para o lado sul. — Sete mil cento e quarenta cabeças de gado.
Meus olhos se arregalaram.
— Sete mil?
— Exato. Além disso, temos centenas de casas, vinte e três alojamentos para cowboys...
Ele apontou para outra direção.
— Armazéns, quinhentos e vinte cavalos quarto de milha, sem contar os cavalos selvagens, appaloosas e paint horses. Catorze mil hectares de área cultivada, mais de mil poços de petróleo...
Cada nova informação me deixava mais impressionada.
— Também temos uma fauna diversificada. Aves aquáticas, cervos, javalis e outros animais vivem por aqui.
Eu continuei ouvindo, tentando absorver a grandiosidade da fazenda.
— Temos plantações de algodão e lavanda, esse rio, lagos, riachos... e hectares ainda não explorados.
Eu me afastei um pouco para olhá-lo melhor.
— Minha nossa! Você me dá um tempo para processar? Estou tentando avaliar quais países caberiam aqui dentro.
Will soltou uma risada e guiou o cavalo de volta para o estábulo.
O dia estava tranquilamente perfeito, e eu esperava que continuasse assim.
Mas, ao chegarmos, percebi uma figura parada próximo à entrada do estábulo, à nossa espera.
Will imediatamente ficou tenso, seus ombros enrijeceram, e sua expressão se fechou.
Senti meu corpo se enrijecer também. Algo me dizia que aquele encontro não seria agradável.
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UM PONTO DE PARTIDA
RomanceTragédia e perda deixaram Heloyse à deriva, presa em um vazio onde a dor é sua única companhia. Em busca de um escape, ela se lança ao desconhecido-não para se encontrar, mas para esquecer, nem que seja por um instante. Sua jornada a leva a terras v...
