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Capítulo Oito - Uma direção

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Heloyse
Uma senhora havia me dado carona e quando me perguntou para onde eu iria, eu apenas disse “aonde a senhora for”. Ela me olhou com um simpático sorriso no rosto e voltou a olhar para a estrada.
— Ok! Eu só não poderei levá-la até sua fuga. Meu destino é daqui a uma hora e meia.
— Sem problema!
— Não quer saber para onde estamos indo?
—Não, acho melhor não! Aonde este caminho me levar, está ótimo.
Eu nunca havia saído de Boston, depois que comecei a morar lá. E com vinte e seis anos, eu notei que apenas usei minha vida para trabalhar. Eram poucas as vezes em que saí para me divertir. Eu só trabalhava ou vivia “grudada” em Michael. Agora, percebo que a vida estava indo e eu não tinha aproveitado nada.
Uma hora e meia depois, a senhora que eu nem fiz questão de perguntar o nome, me deixou em uma estrada e se foi acenando e me desejando boa viajem. Retribuí o aceno e comecei a caminhar.
A longa estrada estava iluminada pelo sol do meio-dia. Eu já havia caminhado antes da senhora me dar carona e agora, eu notava que minhas pernas sentiam o cansaço. Eu não tinha costume de fazer caminhadas longas. 
Pelo acostamento da estrada, eu caminhava sem me importar com o tempo ou com as placas de indicação. Meus braços estavam doloridos por causa da mala, então me sentei em um banco de ponto de ônibus e decidi descansar um pouco. Minutos depois, fui até um restaurante de beira de estrada e fiz minha refeição. Após a refeição, caminhei mais um pouco.
Avistei um playground vazio. Me aproximei de um banco e me sentei. Fiquei vendo um pássaro solitário se arrastar pelo céu. Um pássaro tão pequeno em um mundo grande. Eu me sentia assim.
Fiquei lá por horas e horas, observando as pessoas, as crianças... Completos estranhos com suas vidas comuns, estranhas, problemáticas ou exageradamente, boas.
Tirei uma foto dos meus pais ainda jovens, de dentro da minha mochila. Meu irmão estava sorrindo e eu, me escondendo atrás da minha mãe. Me lembrei de Marcus me defendendo na rua, na escola. Senti falta dos abraços do meu pai, dos conselhos da minha mãe, dos beijos de Michael. Eu estava só. Não estava preparada para perder nenhum deles. 
Fazia um bom tempo que eles se foram, mas, ainda doía como se fosse recente. Talvez se Michael não estivesse comigo quando perdi minha família, eu já tinha fugido há muito tempo. 
Enquanto muitos fugiam de casa por não tolerar seus pais, eu teria fugido por não os ter mais. Eu teria atravessado o oceano para ficar longe da dor que senti.
Peguei meu celular, fiquei olhando minhas fotos com Michael e resolvi apagar uma por uma. E a cada foto que eu apagava, um soluço escapava da minha boca. E a última, eu observei por um bom tempo. Era a foto dele dormindo. Aquele dia havia sido nossa primeira vez.
Apaguei também.
A tarde já estava caindo e voltei para a estrada. Andei e andei, até chegar à escuridão. Na estrada, as lágrimas caíam. Eu não sabia o que estava procurando, não sabia o que ia encontrar pela frente. Talvez não encontrasse nada, porém, dentro de mim, eu queria encontrar uma motivação, algo para me distrair, algum lugar que me fizesse bem.
Pensei em me sentar no próximo ponto. O primeiro ônibus que passasse eu subiria.
Lágrimas transbordaram de meus olhos. Pensei que eu tivesse chorado todas, mas eu estava enganada. Toda aquela dor começou a sair de mim como grandes ondas e de repente, eu estava parada no acostamento, soluçando e tentando fazê-las parar de cair. Estava cansada de tanto chorar. Eu havia chegado ao limite.
Chorei "litros", por vários meses.
Se eu pudesse contar todas as lágrimas que derramei, eu nunca chegaria a um resultado. Poderia um oceano competir com elas?
Tudo doía em mim. A sensação de perder o que se ama, o que se tinha. Estava tudo ali em mim, me torturando a cada lembrança.
Na escuridão da estrada, apenas iluminada pelas luzes dos postes, notei que mesmo depois de muito andar, não havia pousadas, hotéis ou ponto de ônibus, apenas asfalto, carros e carretas. Uma grande caminhonete parou próxima a mim e a porta do passageiro se abriu. Avistei o velho motorista sorrir pra mim.
— Hey, moça, para onde vai?
— Vou para algum lugar, aqui perto.
— Sei! Você quer carona?
— Não, obrigada!
Andale , eu não sou nenhum maníaco se é isso que a assusta. Suponho que tenha a idade da minha filha e garanto que eu não descansaria sabendo que ela poderia estar em alguma estrada por aí, correndo o risco de ser assaltada ou coisa pior. Eu não vou fazer nada com você e pra você ver que estou falando a verdade, terá que subir aqui para que eu prove. É só tirar uma foto de mim e enviar o número da placa da minha caminhonete para algum contato no seu telefone. Assim, se você não der notícias, saberão o que houve.
Eu dei um leve sorriso e fiz o que ele sugeriu. Enviei para Ashley, junto com a explicação de que eu estava pegando carona. Então subi na caminhonete.
Meu celular vibrou e a mensagem de Ashley estava lá.
"VOCÊ É LOUCA? PERDEU O JUÍZO? COMO PODE PEGAR CARONA COM UM ESTRANHO? POR QUE NÃO ENTROU EM UM ÔNIBUS? ME DIZ ONDE VOCÊ ESTÁ! DESCE DESSA CAMINHONETE AGORA, HELOYSE!"
Eu enviei outra mensagem tranquilizando-a e deixei bem claro que não responderia a próxima se ela continuasse me repreendendo. Ela enviou mais duas.
Mandei um "fica em paz, te adoro". Ela respondeu com um "eu também e se cuida, maluca". 
Enquanto isso, o senhor olhava atentamente para a estrada. 
Fotos dele e uma senhora estavam sobre o painel. Tinha também, a foto de uma moça que com certeza, era sua filha. Pacotes vazios de batatas fritas e um chaveiro com a forma de um milho pendurado no espelho. 
Seus cabelos brancos iam até seus ombros e eram cobertos por um chapéu. A barba branca um pouco grande, o faziam parecer simpático.
— Então señorita ...?
— Pode me chamar de Heloyse.
— Señorita Heloyse, o que faz por esses lados e sozinha?
— Isso é complicado.
— Por quê? Você matou alguém? Se for isso, por favor, não me conte. Prefiro não saber que estou ajudando uma assassina.
Dei um sorriso fraco e respirei fundo.
— Não, não é isso. Estou indo para qualquer lugar, me afastando de toda a merda que aconteceu na minha vida.
— E como está se saindo?
— Não sei. Comecei hoje. Não tenho ideia de para onde estou indo, só sei que preciso ir — suspirei longamente. — Você acha que fiz errado?
— Você acha que fez errado?
— Ainda não me arrependi.
— Fugir não apaga o que aconteceu. Os problemas sempre encontram um jeito de nos acompanhar. A questão não é para onde você vai, mas como decide lidar com eles. Você poderia ter ficado e enfrentado tudo, ou pode seguir em frente e encarar isso em outro lugar. No fim, não faz tanta diferença. Mas, às vezes, a vida tem um jeito estranho de nos surpreender. Você poderia estar lá e automaticamente a vida te enviar alguma resposta, ou você pode ir e encontrar seu caminho. A questão é que, quando tem que acontecer, acontece, não importa onde você esteja.
— Faz sentido — murmurei.
Por um instante, o silêncio preencheu a caminhonete, e eu senti um peso no peito. A estrada se estendia à nossa frente, como se fosse um reflexo do desconhecido que eu estava prestes a enfrentar.
— Como é o seu nome?
— Thomas Thompson.
— Obrigada, Thompson, pelas palavras.
Ele sorriu e voltou a atenção para a estrada.
— Pelo amor de Deus, andar por essas estradas à noite é pedir para se meter em encrenca.
Ele não estava errado. A vergonha me atingiu de leve. Olhei pela janela, observando as luzes das casas ao longe. Elas brilhavam, distantes e indiferentes à minha existência. Dentro de mim, um vazio se instalava. Queria que tudo estivesse bem. Queria voltar no tempo e consertar tudo. Mas também sabia que, um dia, as lembranças dolorosas perderiam a força e não me esmagariam tanto.
A conversa mudou de rumo conforme a noite avançava. Thompson me falou sobre sua família. Contou que seu filho, Martin, havia morrido há três anos.
— Um touro o derrubou — sua voz vacilou — e o pisoteou várias vezes. Ele ficou em coma por meses. Quando acordou, estava paraplégico. Depois, uma infecção nos pulmões o levou...
O silêncio que se seguiu foi pesado.
Ele apontou para o porta-luvas. Quando abri, vi a foto de um jovem, muito parecido com ele.
— Nesta foto, ele estava com vinte oito anos. Há mais uma aí dentro. Pegue.
Eu peguei e meu coração se apertou.
— Ele estava nos seus trinta anos quando ficou assim — ele olhou para estrada, como se sua mente voltasse a algumas memórias. — Era cheio de vida, me ajudava muito. Um filho maravilhoso que tinha o sonho de ter uma família.
— Ele tinha namorada?
— Na época, fazia seis anos que ele tinha rompido seu namoro. A moça não queria casar porque não se via morando numa fazenda. Queria que fossem para uma cidade grande, longe do Texas. Mas ele não quis e ela foi sem ele. E pensando bem, eu preferia que ele tivesse ido. Ele estaria vivo hoje.
— Sinto muito, Thompson.
Ele apenas assentiu, sem tirar os olhos da estrada.
Durante nossa conversa, Thom me contou que ele era filho de mexicanos, mas nascera no Texas.
— Para onde está indo? — perguntei.
— Clearwater. Moro lá. Estive em Boston essa semana resolvendo algumas coisas. Vou parar na casa do meu cunhado antes de seguir viagem para o Texas.
— Então você é do tipo cowboy, com calça jeans coladinha, blusa xadrez de mangas desfiadas e tudo mais?
Ele soltou uma risada.
— Menos mangas desfiadas. Nunca achei que combinassem comigo.
Sorri para ele.
— E conseguiu resolver tudo?
Se sorriso foi diminuindo e soltou um suspiro antes de responder:
— Visitei um dos meus cunhados, agora vou ver o outro. Preciso pagar minhas dívidas.
— Desculpa... Não queria me intrometer.
— Não se preocupe. Antes do acidente de Martin, minha fazenda já estava com problemas. Os reservatórios secaram, os custos aumentaram, e quando ele foi internado, os gastos com o hospital ficaram insustentáveis. Quando ele voltou para casa, precisei de mais dinheiro para os cuidados. E então veio a infecção...
Ele parou por um instante, respirou fundo e continuou:
— Meus cunhados me ajudaram. Agora, estou indo pagar o que devo. Eles foram muito generosos.
— Fico feliz que tenha tido esse apoio.
— Sim, e também contei com Will, um amigo da família. Ele era muito próximo de Martin. Pagou o funeral.
A dor encheu seu rosto novamente.
— Hipotequei a fazenda, mas, quando tentei quitar a dívida, o banco não quis parcelar. Só aceitava o pagamento à vista. Will cobriu tudo. Ele insiste que eu não devo devolver o dinheiro, mas não posso aceitar isso. Era uma quantia alta. Sabendo que eu não aceitaria de graça, me fez prometer que pagaria no meu tempo, do jeito que conseguisse.
— Você tem um grande amigo.
Ele assentiu, um sorriso triste nos lábios.
— O melhor. Ele e Martin eram como irmãos.
Um silêncio carregado de memórias caiu entre nós.
— Você está bem?
Ele não respondeu de imediato. Seus dedos apertaram levemente o volante, e ele suspirou antes de finalmente dizer:
— Algumas dores nunca passam. A gente só aprende a carregá-las.
— Eu entendo.
— Eu aceitei a dor como uma parte inevitável da vida, mas não superei a ausência.
Ele fez um breve silêncio antes de continuar.
— A morte é só um ponto de partida em que você diz adeus agora, para dizer olá, futuramente. Um dia eu verei meu filho. Nesse dia, já não haverá mais dor.
Eu acenei com a cabeça. Eu o compreendia.
— Clearwater é um nome bonito. Por que tem esse nome? 
— Clearwater foi fundada pela família de Will há muitos anos. Eles são os O'Connor. Terence O'Connor comprou terras naquela área em busca de petróleo. Ele era o mais velho de cinco irmãos. Depois que comprou as terras, ele trouxe para morar com ele, sua esposa e seus filhos. Terence começou a vender terrenos, comprar mais terras e foi investindo na cidade. Ele chamou a cidade de Clearwater, porque há várias nascentes, lagos, rios... Todos de água cristalina.
— Deve ser lindo.
— Você adoraria, chava .
— Quem sabe? Bom, e até onde você vai me levar?          
— Eu estava pensando... Por que não vem comigo para Clearwater? Katherine adoraria você, e Megan poderia ser uma amiga. Não temos luxo, mas Katherine cozinha muito bem...
— Eu agradeço, mas não quero ser um estorvo...
— Você não é. Ficaria feliz se aceitasse. Não vou ficar tranquilo sabendo que está por aí, sem rumo. O mundo aqui fora é perigoso. Se tudo o que precisa é um tempo, venha comigo. Se não gostar, eu a colocarei no primeiro ônibus que aparecer. E se quiser privacidade, temos a casa do nosso ex-funcionário. Ela tem tudo de que precisa.
— E o que vai dizer a Katherine quando ela souber que você levou uma desconhecida para casa?
— A verdade! Vou dizer a verdade.
— Simples assim?
— Si .
Eu sorri.
— Acho melhor a señorita dormir. Teremos horas de estrada. Chegaremos por volta das três da madrugada na casa do meu cunhado. É bom descansar.
— Eu não disse que vou para o Texas. Talvez eu fique em outro lugar e pegue um ônibus.
— Eu a levo até a casa do meu cunhado, dormimos lá e, durante o dia, você decide, ok?
— Tudo bem.
— Fique tranquila. Nossa família de psicopatas só mata com hora marcada.
— Estou com medo de que isso seja verdade.
— Tenha medo. Muito medo. Posso até vê-los atacando a señorita com uma xícara de café e creme de leite.
Ri e me virei para tentar cochilar.
— Thompson?
— Si?
— Me chame de Lisy.
— Pode me chamar de Thom. É um prazer conhecê-la, Lisy.

***

Chegamos à casa de seu cunhado às três e quinze da madrugada. Fomos bem recebidos.
Pela manhã, por volta das nove horas, tomamos café. Sim, café com creme de leite.
Meu corpo estava dolorido. Thom me ofereceu um comprimido para dor.
Eu temi que seus parentes interpretassem mal minha presença ao lado dele. Estranhamente, ninguém fez perguntas. Eles pareciam confiar nele sem precisar de explicações. Thom apenas mencionou que eu passaria uns dias com sua família.
Almoçamos por lá, ele visitou alguns amigos e, por volta das quatro da tarde, pegamos a estrada novamente, rumo a Clearwater.
Sim, decidi ir até lá. Talvez ficasse um ou dois dias antes de partir.
Observei Thom ligar o rádio e sorrir para mim.
Havia esperança brotando no meu coração.

Andale: Vamos
Chava: Menina

Andale: Vamos
Chava: Menina

UM PONTO DE PARTIDAHistórias para pegar e não largar. Descubra agora