Capítulo Trinta e Um - Decepção

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Heloyse

O ronco estrondoso de uma moto me despertou com um sobressalto.
Aos poucos, a realidade veio como um soco no estômago. O cheiro azedo de vômito impregnava minhas roupas, minha pele, meu cabelo. Estava em mim, em todo lugar. Torci o nariz, enojada. A ressaca me envolvia como uma corrente pesada, esmagando meus ossos, minha carne, minha cabeça latejante.
Me movi devagar, sentindo cada músculo protestar. A garganta seca ardia como se eu tivesse engolido areia. Um peso de mil toneladas parecia ter se alojado no meu peito.
Levantei a cabeça e encarei meu reflexo no espelho retrovisor. Olhos inchados, vermelhos, vazios. O cabelo desgrenhado, a pele amassada pela marca do estofado do banco.
"Linda de morrer", pensei, com ironia amarga.
Com esforço, escorreguei para o banco do motorista. Meu corpo inteiro doía, um cansaço profundo me sugava para dentro de mim mesma. Peguei o celular. Dez e vinte e sete da manhã.
O sol estava forte demais, uma lâmina cortante para os meus olhos sensíveis. Abri o porta-luvas às cegas e puxei meus óculos escuros, colocando-os de imediato.
A rua já estava desperta, viva. Pessoas passavam, carros iam e vinham. E eu precisava sair dali.
Um comprimido para aliviar essa maldita dor. Um café, se eu conseguisse engolir alguma coisa. Um banho, pelo amor de Deus, um banho urgente. Sabonete, muito sabonete. Perfume. Qualquer coisa que me fizesse sentir menos... podre.
Soltei um suspiro pesado.
Esperei alguns instantes, acostumando-me à nova onda de desconforto antes de enfiar a chave na ignição e dar partida.
Eu tinha muito o que pensar. Muito o que fazer.
Eu disse que precisa reagir, mas me embriagar não foi uma reação muito adulta.
Segui pela rua, ainda sentindo o peso do mal-estar, quando vi Patsy sair correndo cambaleante de dentro de um hotel. Os sapatos de salto nas mãos, a bolsa pendurada no ombro, o rosto transtornado. Claramente alguém que também estava de ressaca.
Antes que pudesse entender o que acontecia, uma mulher surgiu por trás e puxou seu cabelo com brutalidade, derrubando-a no asfalto.
Pisei no freio com força, o barulho dos pneus ecoando pela rua. Pessoas pararam para olhar, mas ninguém se moveu para intervir. O silêncio de cumplicidade era quase ensurdecedor.
A mulher, tomada pela fúria, desferia tapas e socos contra Patsy, que tentava se defender em vão.
Por que ninguém fazia nada?
Lutei contra a tontura e o enjoo que revirava meu estômago e desci da caminhonete. Meu corpo protestava, mas minha consciência gritava mais alto.
— Você gosta de sair com homens casados, vadia? — a mulher vociferava entre um golpe e outro. — Vamos ver se eles ainda vão te querer depois que eu amassar a sua cara!
Patsy grunhiu de dor, mas a agressora não parou.
— Christian não vai mover um dedo por você! Sabe por quê? Porque você não passou de uma diversão. Ele só queria saber se o que diziam era verdade. E sabe o que diziam? Que você era fácil.
Os punhos continuavam caindo, implacáveis.
— Vagabunda!
Ela a empurrou ao chão, sentando-se sobre seu estômago, imobilizando seus braços com os joelhos. Levantou o punho mais uma vez, pronta para desferir outro golpe, mas segurei sua mão antes que pudesse atingir Patsy novamente.
— Já chega! — minha voz saiu firme, apesar da fraqueza que ainda dominava meu corpo.
Patsy estava irreconhecível. O lábio sangrava, a maquiagem borrada evidenciava que ela já vinha chorando antes mesmo de apanhar.
A mulher olhou para mim com os olhos carregados de ódio.
— Me solta, ou você será a próxima.
— Que seja — sustentei seu olhar. — Me bater vai fazer seu marido ser fiel a você? Vai apagar a traição que sofreu? Se for, então vá em frente.
Ela congelou, os punhos tremendo de raiva. Soltou um suspiro pesado e então, em um último ato de despeito, acertou mais um soco no rosto de Patsy antes de se levantar.
Patsy virou o rosto para o lado, sem forças para reagir.
A mulher me encarou com os olhos marejados.
— Nada pode apagar a dor de uma traição — sua voz saiu trêmula. — Por culpa dela e daquele filho da puta — apontou para Patsy —, eu estou aqui, destruída. Patsy não foi a única apanhar. Também queimei todas as roupas dele — ela respirou fundo. — Estou grávida. E agora vamos nos divorciar, porque eu nunca mais poderei confiar em alguém que destruiu minha confiança.
Ela balançou a cabeça, como se tentasse organizar os pensamentos
— Eu entendo murmurei. Sinto muito por você. Mas essa criança não tem culpa. Você precisa se cuidar, precisa se preocupar com sua gravidez. O estresse pode colocar tudo a perder, e sei que você não quer isso.
Ela me olhou com amargura antes de baixar a cabeça.
— Não consigo deixar de sentir ódio.
— Ninguém poderia julgá-la. Você tem todo o direito de sentir raiva. Mas precisa decidir o que é mais importante agora.
Ela ficou em silêncio por alguns segundos, respirando fundo, absorvendo minhas palavras.
— Você tem razão.
Seus olhos percorreram as pessoas ao redor. Seu rosto ainda carregava lágrimas e mágoa, mas agora também havia algo mais: exaustão. Como se, de repente, não tivesse mais forças para lutar.
Sem dizer mais nada, virou-se e seguiu seu caminho, dobrando a rua à esquerda.
Voltei meu olhar para Patsy. Ela ainda estava no chão, imóvel, fitando o céu. As lágrimas escorriam silenciosas, misturando-se ao sangue que marcava seu rosto.
Ela apoiou as mãos no asfalto, tentando se erguer. Abaixei-me  para ajudá-la, mas ela se afastou bruscamente.
— Não!
— Me deixa ajudar.
Ela sorriu, mas foi um sorriso torto, carregado de ironia e dor. Um filete de sangue escorreu do canto de sua boca.
— Não! Não me humilhe. Não aceito piedade de ninguém.
— Não é piedade. Qualquer um faria isso.
— Tem certeza? — ela apontou para as pessoas que ainda nos observavam. — Sabe por que ninguém me ajudou? Porque eu sou a vagabunda de Clearwater. A White mimada. A que ri dos outros, a que dorme com os maridos dessas idiotas mal-amadas. Quando a traída, a humilhada era eu, nenhuma dessas pessoas me levantaram do chão. Por que faria isso agora, quando eu dei motivos para estar aqui?
Ela soluçou, cobrindo o rosto com as mãos.
Abaixei-me novamente, tocando seu ombro.
— Me deixa! ela se afastou, erguendo-se com dificuldade.
— Eu te levo para casa.
— Meus dedos não estão quebrados. Meus pés ainda funcionam. Sei muito bem dirigir.
Cuspiu uma mistura de saliva e sangue no chão, fitando-me com desprezo e algo mais profundo: uma dor que ela nunca admitiria sentir.
— Maldita hora que você veio para Clearwater, Heloyse.
Pegou os sapatos e a bolsa do chão, fez sua caminhada da vergonha até o carro, deu partida e sumiu.
As pessoas, satisfeitas com o espetáculo, voltaram às suas rotinas.
Eu, por outro lado, permaneci ali por alguns segundos, absorvendo tudo. Sentindo um peso terrível no peito.
A esposa de Christian soube, naquela manhã, o que era a decepção. E ela só se decepcionou porque confiava nele. Porque ele não era seu inimigo.

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