Heloyse
De manhã, os raios de sol entraram pela janela aquecendo meu rosto. Uma sensação boa percorreu todo meu corpo e o cheiro de ar puro entrou pelas minhas narinas. Nunca me senti tão bem assim. Olhei para o relógio de parede que já marcava oito e trinta e dois. Escovei meus dentes, escovei meus cabelos e fui para cozinha tomar café.
— Bom dia, Lisy. Sente-se e tome seu café. Espero que goste de bolo. Tem café nesta garrafa, leite ali e chá nesta outra. Fiz pães e panquecas. Se quiser mais alguma coisa, é só me falar.
— Está tudo perfeito. Obrigada! Onde está Thom e Megan?
— Thom foi até a casa de Will, acertar um pagamento e Megan foi à fazenda dos White, visitar uma amiga. Ela queria que você fosse, só que eu não deixei. Preferi que você ficasse descansando.
— Eu realmente estava muito cansada.
— E eu não sei? Agora coma tudo e se quiser mais alguma coisa, é só me falar.
Eu lhe dei um sorriso iluminado e agradeci.
— Queria dar uma volta pela fazenda. Eu posso?
— Oh, isso seria ótimo.
Depois do café da manhã, lavei a louça. Cielo foi lavar roupa e saí para poder conhecer o lugar.
A construção, embora antiga, tinha uma rusticidade encantadora. Dentro do celeiro, o cheiro de madeira e palha recém-cortada permeava o ar. Lá dentro, a caminhonete cinza de Thom, seu caminhão e uma caminhonete vermelha, que se destacava pelo contraste vibrante. As ferramentas pendiam organizadamente das paredes, cada uma contando histórias de longas jornadas no campo, enquanto sacos de ração se alinhavam metodicamente ao lado.
No pasto, vacas robustas e seus novilhos relaxavam sob o sol, cuja luz dourada acariciava a paisagem com um toque de calor suave. Sob a sombra generosa de uma árvore frondosa, dois cavalos descansavam, suas crinas balançando suavemente ao ritmo do vento. O velho moinho de vento, testemunha silenciosa de muitos verões, projetava uma sombra alongada, onde galinhas e pintinhos ciscavam, explorando o solo em busca de pequenos vermes.
Ao longe, as montanhas se erguiam majestosas, pintando o horizonte com tons de azul e verde, como se o céu e a terra se encontrassem numa dança eterna. A cena era digna de um quadro, uma obra de arte viva que capturava a essência do lugar.
Movendo-me para os fundos da casa, meus olhos se fixaram em Cielo, que com movimentos suaves e graciosos estendia as roupas no varal, o tecido balançando como bandeiras ao vento. Sentando na varanda, em uma cadeira de madeira desgastada pelo tempo, deixei-me envolver pela atmosfera serena. O ar úmido e quente trazia uma sensação de conforto, e mesmo com o calor, a beleza do lugar era inegável. Estava levemente feliz por estar ali, em meio àquele pedaço do paraíso texano, onde o tempo parecia fluir em um ritmo próprio, mais lento, mais simples, e, de alguma forma, mais verdadeiro.
— Temos um rio aqui perto, querida. Você iria adorar. Fica na propriedade dos O'Connor.
— Thom me disse que a cidade foi fundada por eles.
— Isso mesmo. E William O'Connor tem uma fazenda que acho que é um milhão de vezes maior que a nossa.
— Vocês gostam muito desse senhor.
— Sim, gostamos muito. Ele nos ajudou em nossos negócios e somos muito gratos a ele. Além do mais, ele é um homem sozinho e tem um gênio difícil. Não gosta muito de se relacionar com o restante das pessoas. É muito reservado. Mas, nossas famílias sempre foram amigas.
— Então é podre de rico?
— Os O'Connor construíram sua reputação ao longo de gerações com a criação de gado de raça de alta qualidade. Fizeram o cruzamento de duas linhagens e desenvolveram uma raça exclusiva, reconhecida pela robustez e adaptação ao clima texano. Eles criaram um gado premium, altamente valorizado e comercializado tanto no mercado interno quanto em países estrangeiros, consolidando a posição das empresas O’Connor como um dos principais fornecedores do setor. — Cielo parou e pegou o cesto no chão, vindo de encontro comigo.
Sentou ao meu lado e enxugou uma pequena gota de suor do rosto.
— Além do gado, ele tem uma criação de cavalos de excelência. Will mantém uma criação de cavalos selvagens, para manter a linhagem e o símbolo que define o espírito do Oeste. Em outra parte do rancho, tem os cavalos quarto de milha, conhecidos por sua velocidade e força, atraindo a atenção de competidores e criadores. No lado oeste da fazenda, há mais duas outras raças que são manejadas de cordo com suas características. Veja, a fazenda de Will é bem diversificada. Will soube manter a tradição, mesmo trazendo a inovação e isso faz com que tudo ali seja um verdadeiro império da pecuária e equinocultura.
Eu fiquei uns segundos sem dizer nada, então, cheguei a uma conclusão:
— Bom, se me permite, quero me corrigir: Ele não é rico, é milionário. — eu disse sorrindo.
— Oh, sim, mas Will gosta de trabalhar, de ter contato com tudo que é feito na sua fazenda. Ele é um ótimo patrão. Veja, São mais de cento e poucos funcionários que moram com suas famílias. É semelhante a um bairro. Durante o dia, Will se junta a eles para cuidar do gado, dos cavalos e dos afazeres da fazenda. E além de tudo isso, ele também tem plantação de algodão, lavanda, fora os poços de petróleo. Já em Houston, ele tem uma empresa responsável pela produção de grão de milho. O homem não para um minuto.
— Ele deve ser um senhor bem interessante.
— Como eu disse, ele tem um gênio difícil. Extremamente difícil. Apesar de que, com Martin era diferente. Eram muito amigos.
Eu vi tristeza no rosto de Cielo e então retornei ao foco do assunto.
— Eu queria ir a este rio, mas, não sei se o senhor O'Connor gostaria de me ver rondando pela sua propriedade.
— Você está conosco. Ele não se importará. Se você não estiver à vontade, pode ir para o lado onde o rio sai da sua propriedade, ou você pode esperar e ir com a Megan.
— Uma hora dessas, quem sabe? — eu disse.
À tarde, minhas coisas estavam devidamente acomodadas na pequena e acolhedora casa de madeira, que outrora servira de moradia para um dos funcionários de Thom. Localizada a uma distância moderada da casa principal, mas ainda dentro dos limites da fazenda, a casinha oferecia tranquilidade. À frente, um portão de madeira, ligeiramente afastado, marcava o acesso à estrada.
Thom não escondeu seu desagrado com minha mudança, mas eu o tranquilizei, garantindo que o avisaria caso precisasse de algo. Com relutância, ele deixou sua caminhonete vermelha à minha disposição, um gesto que demonstrava tanto cuidado quanto preocupação.
A casa, embora modesta, era aconchegante. Composta por um quarto, uma sala integrada à cozinha e um banheiro, oferecia tudo o que eu precisava. Surpreendentemente, mesmo após ter ficado fechada por algum tempo, não havia o odor típico de poeira acumulada, como se o espaço tivesse se mantido pronto para acolher um novo hóspede.
Não precisei comprar suprimentos, pois Thom insistiu em que eu levasse alimentos de sua casa. Além disso, trouxe uma televisão que não era mais utilizada e algumas roupas de Megan, que após perder peso na faculdade, já não as vestia. Apesar das minhas tentativas de explicar que minha estadia seria breve, Thom e Megan pareceram ignorar minhas palavras, oferecendo-me tudo com generosidade e hospitalidade que aqueciam o coração.
Depois de tudo em seu lugar, Megan e Cielo apareceram com alguns biscoitos, pães e uma garrafa de café quente, forro de cama e duas mantas.
— Tem certeza de que quer ficar aqui? Lá em casa você poderá desfrutar minha companhia. Tem coisa melhor?
— Eu não posso negar.
Megan piscou olhos e deu uma risada.
Na manhã seguinte, eu fiz meu café da manhã, arrumei a casa e saí em direção à casa de Thom. O dia estava quente.
Observei a estrada do outro lado da cerca e avistei dois senhores em cima de seus cavalos numa conversa calma. Quando me viram, ambos tiraram o chapéu como um cumprimento. Eu sorri e lancei um "bom dia" para eles.
Do outro lado da cerca, um gado, que não era o de Thom, pastava tranquilamente. Eu nunca tinha vistos bovinos tão grandes e bem cuidados como aqueles.
Ao longe, alguém observava o pasto de cima de um cavalo.
Esse pasto era tão grande que eu não conseguia ver o fim. A visão da cerca acabava sendo ocultada por fileiras de árvores.
Cheguei à casa dos Ferrel. Era esse o nome que estampava a entrada da casa de Thom. Cielo estava indo em direção ao galinheiro e sorriu quando me viu usando as botas e uma camisa xadrez que faziam parte das roupas da Megan. Eu avaliei meu jeans rasgado e sorri também.
— Vejo que está entrando na moda.
— Acho que sim. Você aprova?
— É claro! Está linda. Agora venha, vou pegar alguns ovos.
Ajudei Cielo a fazer duas formas de torta. Ela ficou encantada quando eu disse que aquela era uma das minhas especialidades.
Eu tinha feito planos de sair e acabei desistindo. Preferi ter aulas básicas com Thom, de como montar em um cavalo. Encantei-me com Thunder, uma égua marrom e um pouco teimosa. Três dias depois, consegui montar tranquilamente na égua.
Sim! Três dias depois e a vontade de ir embora, não vinha.
— Ganhei Thunder de Will. Sailor, meu cavalo, morreu de velhice e Will me presenteou com esta égua, em seguida.
— Sailor?
— Si. Ele era todo branco. Foi o único nome que me veio na cabeça.
— Boa escolha.
— Martin o adorava. Montou nele por várias vezes. — Seu tom de voz foi sumindo junto com seu sorriso.
— Thom — eu parei meus passos e coloquei a mão no braço dele —, eu sinto muito por sua perda. Eu queria que você não tivesse passado por isso. Vocês não mereciam. São pessoas tão boas e eu entendo sua dor. Deveria ser proibido pessoas boas passarem por algo assim.
— Deveria si. Mas sabe? Um dia todo mundo tem que ir. E todo mundo está ciente disso, mas ninguém aceita quando chega a hora. Infelizmente, ela vem. Se pudéssemos entender que isso é inevitável, talvez, não sofrêssemos tanto. Acho que isso se dá ao fato de que fomos feitos para sermos eternos e com isso, rejeitamos a morte.
Enquanto Thom escovava os pelos de Thunder, eu observava como ele era paciente. Era um homem calmo e que escondia a dor que sentia quando falava do filho falecido. Martin havia morrido há alguns anos e, eu sabia que os anos podiam passar, a lembrança da dor estaria ali.
— Vamos ver o que Cielo preparou.
***
Já havia passado uma semana.
“Para onde foi a vontade de sair sem rumo”? Eu me perguntava mentalmente.
— Espero não incomodar.
— Não é incomodo nenhum, Cielo. Eu acho que estou começando a não querer ficar sozinha. A companhia de vocês me faz muito bem.
— Isso me alegra, querida — disse, seguindo de um amplo sorriso.
— Vamos tomar chá? — eu perguntei.
— Vim por este motivo. Você sabe que eu adoro um chá. Apesar de que, eu não tinha costume de tomar todos os dias e depois que você chegou aqui, eu até que estou gostando.
— Boston tem sua história com chás. Eu gosto de café, mas chá, me encanta.
Ela sorriu, contudo, não deixei de notar o semblante abatido.
— Você não está muito bem, não é?
— É que desde que Megan foi pra faculdade, estou desse jeito. Ela vem para cá uma vez no mês. Desta vez ela veio passar alguns dias e amanhã ela retorna. Próximo ano será o seu último na faculdade. Estou sofrendo em todos esses anos. Quando ela está lá, eu fico tão preocupada. Tem esse noivo dela, o Jeremy. Parece ser um rapaz bom. Ele é muito educado. É que eu tenho medo de que as coisas não deem certo. A família dele tem muito dinheiro. Meu medo é que a tratem como se ela fosse inferior a eles.
— O que Thom acha disso?
— Ele gostou muito do Jeremy. O rapaz veio até nossa casa e confesso que aparenta ser humilde. Porque você sabe, humildade não tem nada a ver com seu status financeiro. Então, Thom disse a Megan que ela já é adulta, faz suas próprias escolhas e que nós sempre estaremos aqui se por acaso as coisas não derem certo.
E nesse momento, lembrei-me que Thom tinha muito do meu pai. E a falta que eu tinha dele, veio à tona.
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UM PONTO DE PARTIDA
RomanceTragédia e perda deixaram Heloyse à deriva, presa em um vazio onde a dor é sua única companhia. Em busca de um escape, ela se lança ao desconhecido-não para se encontrar, mas para esquecer, nem que seja por um instante. Sua jornada a leva a terras v...
