Davies
No dia seguinte, após conhecer Wallace, decidi sair e revisitar meu passado. Minha antiga casa, que ficava ao lado dos Mitchell, ainda estava lá, imutável como uma cicatriz que nunca fecha.
Contornei a cerca que separava a rua do quintal e parei na calçada. A placa de "Vende-se" permanecia erguida, enferrujada e inclinada, uma testemunha muda do abandono. Seis anos haviam se passado, e ninguém queria aquela casa. Era como se as paredes carregassem as histórias terríveis que ali aconteceram, afastando qualquer um que ousasse tentar viver nelas. Alguns diziam que era mal-assombrada. Talvez fosse. Afinal, os meus próprios demônios nunca me deixaram realmente sair daquele lugar.
Meu olhar se fixou na porta de entrada. Por um momento, a visão se desfez em lembranças. Eu podia ver minha mãe ali, abrindo-a com um sorriso, a voz doce chamando: "Venha, Davies, o almoço está pronto."
Minhas mãos começaram a tremer, enquanto a memória deslizava como um fantasma pelo presente.
"Até quando isso vai me perseguir?", pensei, enquanto uma sensação sufocante apertava meu peito.
Sentei-me em frente à porta, dobrei as pernas e enterrei o rosto nelas. A necessidade de chorar era desesperadora, mas as lágrimas não vinham. Era como se o luto estivesse preso, enraizado tão fundo que eu já não conseguia libertá-lo.
Foi então que ouvi o som inconfundível. O ronco grave de um motor conhecido que me fez erguer a cabeça de imediato. A velha caminhonete de Wilson parou a poucos metros de mim. Estava ainda mais velha, enferrujada, um reflexo perfeito de seu dono. Ele olhou para mim por um instante, o rosto impassível, antes de dar partida novamente e seguir em direção à estrada de terra que levava ao pasto.
Meu sangue começou a ferver. Ele tinha coragem de aparecer. Depois de anos de silêncio, de dor, e ainda com problemas com a justiça, lá estava ele, agindo como se nada tivesse acontecido.
Levantei-me num ímpeto corri para a casa dos Mitchell e entrei rapidamente na cozinha da Eva. Peguei uma faca, colocando-a na parte de trás da minha calça e cobrindo-a com a camiseta. O cabo frio pressionava contra a minha pele, mas a sensação de controle era reconfortante.
Saí para a rua e comecei a correr. O asfalto deu lugar à terra batida, e a paisagem foi mudando. Pastos altos e amarelados se estendiam dos dois lados da estrada, os campos ressecados pelo calor daquele início de estação.
Eu sabia para onde ele estava indo. Calvin havia mencionado uma vez que, após as discussões, Wilson sempre fugia para aquele lugar. Era um refúgio para ele, mas para mim, seria o palco de algo maior.
Minha corrida diminuiu até que eu andasse em piloto automático. Cada passo me aproximava do meu propósito. Após vários minutos, avistei a caminhonete azul, abandonada ao lado da estrada.
Do outro lado da cerca, o encontrei sentado sob uma árvore. A velha espingarda descansava em suas pernas, e na mão, uma garrafa de uísque quase vazia. A cena era patética. Ele parecia um homem destruído, mas para mim, isso não era suficiente.
Passei por baixo da cerca e me aproximei devagar, parando a poucos metros de distância. Eu sabia que era perigoso. Ele estava armado, e o uísque em suas veias o tornava ainda mais imprevisível. Mas eu não conseguia parar. Algo em mim gritava que era agora.
Ele ergueu os olhos para mim, sem surpresa, como se soubesse que esse momento viria. Bebeu mais um gole longo do uísque antes de se levantar com dificuldade. A espingarda permaneceu em sua mão, enquanto ele mancava alguns passos para o lado, olhando para o horizonte.
— Eu amava sua mãe — ele disse de repente, sem olhar para mim.
O ódio me atingiu como uma onda. Suas palavras eram um insulto, uma mentira nojenta que fazia meu estômago revirar.
— Eu amo você também — ele continuou, sua voz arrastada pelo álcool. — Todo esse tempo... eu fui um monstro pra você. E não posso mudar o que fiz.
As palavras eram veneno, e meu corpo reagia a elas com repulsa. Minha mão instintivamente foi para as costas, apertando o cabo da faca.
"Você não sabe o que é amar, seu miserável!", gritei dentro de mim, o desejo de falar em voz alta sendo contido apenas pela raiva que ameaçava transbordar.
Ele cuspiu no chão e andou mais alguns passos, o peso de seu corpo desequilibrado pelos passos tortos. O chapéu branco e as botas marrons só reforçavam a imagem do homem que ele fingia ser, mas não era. Fisicamente, ele ainda parecia humano. Mas eu? Eu havia deixado de enxergar sua humanidade há muito tempo.
Caminhei alguns passos atrás dele, meu coração batendo como um tambor. A faca em minhas costas parecia mais pesada a cada passo. Quando ele parou novamente, eu também parei.
Era o momento. E ainda assim, algo dentro de mim hesitava, uma faísca de dúvida lutando contra a tempestade de ódio. Eu sabia que, se cruzasse aquele limite, não haveria volta.
Mas ele já tinha cruzado tantos.
— Meu pai também me batia - ele começou, a voz arrastada e baixa, quase engolida pelo som do vento entre os pastos altos. Batia muito. Às vezes, eu me perguntava por que ele não me amava, e ele dizia que era assim que o filho de uma vagabunda devia ser tratado. Ele sempre jogava na minha cara que eu seria um fracassado.
Fiquei imóvel, ouvindo suas palavras, sentindo o ódio crescer em mim.
— Eu não tinha culpa se minha mãe o traiu. Porra! Eu era filho dele! ele disse, com uma risada amarga que soava mais como um soluço. Depois que ela foi embora, ele começou a me agredir. Eu guardei mágoa dele por muito tempo. Ainda guardo. E sei que nos veremos um dia, no inferno.
Ele tossiu e cuspiu no chão, um gesto que só aumentava meu nojo. "Deplorável" era pouco para descrevê-lo.
— Então eu cresci e fui viver minha vida. Saí de casa sem olhar para trás. Não tinha um dia que eu não sentisse a dor dos ferimentos no meu corpo... na minha alma. E pra esquecer, eu bebia. Bebia pra não lembrar o rosto dele, pra não lembrar que eu era filho daquele maldito desgraçado.
Ele respirou fundo, como se as palavras custassem a sair.
— Parei de beber quando conheci Angelini. E a amei mais do que a mim mesmo quando ela me deu você. Éramos uma família...
Minha garganta apertou. "Que você destruiu!", gritei dentro de mim.
Wilson olhou de canto, tentando perceber se eu ainda o ouvia.
— Depois que perdi o emprego por causa da perna, fui até meu pai, pedir dinheiro emprestado. Engoli meu orgulho... Achei que os anos tinham mudado aquele verme. Mas me enganei. Ouvi as piores coisas que um filho podia ouvir. Ele me amaldiçoou, me bateu, e, mesmo sendo um homem adulto, não consegui levantar a mão contra ele.
Ele cuspiu novamente, como se tentasse se livrar de um gosto amargo que nunca ia embora.
— Saí de lá e entrei no primeiro bar que vi. Bebi até não lembrar meu nome. Quando voltei pra casa, eu te odiei por tudo. Por eu ter caído daquele telhado, por eu ter me humilhado... Eu te odiei. Odiei sua mãe por ter me dado você.
Eu cerrei os punhos, a faca fria nas minhas costas parecia queimar.
— Por que você subiu naquele telhado, Davies? — ele gritou, a voz carregada de dor. - Eu perdi tudo! O emprego, a dignidade. Por que você subiu naquele telhado?
Sua voz quebrou, e então ele chorou. Como uma criança. Um som que deveria despertar piedade, mas só me afundava mais no desprezo.
Dei mais alguns passos, puxando a faca com mãos trêmulas. Ele ficou de costas, sua cabeça pendendo como se estivesse carregando todo o peso do mundo.
— Você nunca teve culpa, não é? ele murmurou, sua voz agora baixa, quase um sussurro. É tão inocente quanto sua mãe. Mas eu... Eu queria entender o que meu pai sentia quando me batia. E quando eu batia em vocês, eu sabia. É... É a sensação de descarregar tudo, toda a raiva. Quem apanha vira um alvo. E eu era um monstro...
Ele respirou fundo, a voz carregada de vergonha.
— Depois que minha bebedeira passava, eu sentava aqui e me sentia um lixo. Como meu pai. Eu tentei parar, Davies. Deus sabe que tentei. Mas o vício... é mais forte.
Minha garganta estava seca. Minha mente gritava para ele parar, mas eu não conseguia dizer nada.
— O ódio destrói. Não quero que você me ame, filho. Só... não me odeie. Esse ódio vai acabar com você. Ele acabou comigo.
Wilson se virou lentamente, os olhos cansados, as lágrimas marcando o rosto.
— Prometa-me, Davies. Não se torne como eu.
Minha voz saiu trêmula, mas carregada de um rancor que eu nunca pensei ser capaz de sentir.
— Filho? Eu não tenho pai. E preferia que você tivesse morrido no lugar dela. Você matou todos nós, Wilson. Por que você não morre?
Ele deixou as lágrimas caírem, mas não disse mais nada. Apenas voltou a ficar de costas. Eu avancei com a faca em mãos, determinado. Mas quando ele murmurou, quase como uma prece, "Eu queria morrer. Deus sabe que queria", minhas pernas cederam.
O tremor nas mãos, a respiração ofegante, a sensação sufocante... Tudo veio de uma vez. Deixei a faca cair no chão em cima de algumas pedras, o som metálico ressoando no silêncio.
Eu me virei, desesperado para fugir.
— Eu te amo, Davies ele disse, a voz quebrada.
Tapei os ouvidos, tentando bloquear aquelas palavras. Elas me atingiram como um soco. Era tarde demais para ouvi-las. Era tarde demais para qualquer coisa.
Continuei andando, a caminhonete ficando para trás. Mas então, ouvi. O som seco de um tiro cortou o silêncio, e meu corpo congelou.
Abri a boca para gritar, mas não havia voz. Só vazio. E naquele dia, não havia raio de sol. Nem um raio de luz. Talvez ele estivesse longe, muito além da estrada, fazendo com que o mundo parecesse tão escuro quanto meu coração.
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UM PONTO DE PARTIDA
RomanceTragédia e perda deixaram Heloyse à deriva, presa em um vazio onde a dor é sua única companhia. Em busca de um escape, ela se lança ao desconhecido-não para se encontrar, mas para esquecer, nem que seja por um instante. Sua jornada a leva a terras v...
