Heloyse
Em casa, eu ainda estava atordoada com o que aconteceu.
De alguma forma, aquilo mexeu comigo de um jeito inesperado. Tomei um banho, tentando apagar os pensamentos que me assombravam, mas era inútil. À noite, quando fui para a casa dos Ferrel, decidi que não falaria sobre ele. A verdade é que eu queria esquecer, mas, infelizmente, não conseguia.
Havia algo em mim, algo estranho, uma inquietação que eu não sabia explicar. A cada minuto, me pegava pensando nele. Quem era ele? Qual seria o seu nome? E aqueles olhos…? Aqueles lábios? Por que simplesmente não saíam da minha cabeça?
— Você está bem, chava? — Thom colocou sua xícara na mesa e me olhou com preocupação, o cenho franzido.
— Estou. Só uma dor de cabeça. Acho que fiquei muito tempo no sol.
— Lisy foi nadar no rio da fazenda O’Connor — Cielo comentou casualmente, sem saber o impacto que aquelas palavras teriam em mim.
Thom ergueu as sobrancelhas e se inclinou para frente.
— Eu prometi a Cielo que a levaria, mas, infelizmente, estive ocupado. Como foi recebida na fazenda?
Eu não tinha intenção alguma de contar o que aconteceu. Não era algo que eu conseguia compartilhar. Então, escolhi uma mentira simples e segura.
— Eu não cheguei a entrar na fazenda. Segui pela estrada e fiquei no ponto onde as pessoas costumam nadar.
— É uma pena. O rio da fazenda do Will é um dos lugares mais bonitos. Tem sombras boas, pedras perfeitas para descansar. O lugar é um pedaço do paraíso. Aposto que você viu.
— Acho que vi o bastante.
— Garanto que não. E amanhã bem cedo, eu preciso ir até lá. Quero que você vá comigo.
— Acho melhor não. Planejo ajudar Cielo a fazer tortas.
— Que besteira! Eu consigo fazê-las sozinha. Quero que você saia um pouco dessa fazenda. Nós já vimos tudo por aqui; você não. Vai conhecer o lugar.
Dei um grande gole no café, escondendo o desconforto em meu sorriso.
Será que eu o veria novamente?
E foi então que percebi algo curioso e alarmante: eu não havia pensado em Michael nem por um segundo sequer. Ele era apenas um nome perdido em minha mente. Porque, agora, tudo o que ocupava meu ser era a imagem do homem de olhos verdes.
***
Na manhã seguinte, acordei ansiosa, como se algo grande estivesse prestes a acontecer. A expectativa pulsava em mim, tornando até o café da manhã impossível de engolir.
Escolhi uma camisa branca, um jeans escuro e calcei minhas botas. Thom já havia me dito que eu poderia montar Thunder quando quisesse, então coloquei a sela na égua e fui ao seu encontro. Ele estava à espera, montado em Cometa, parecendo tão tranquilo, ao contrário de mim.
Seguimos para a fazenda O’Connor. O sol mal havia nascido, e o frescor da manhã ainda pairava no ar. O portão grande surgiu no horizonte, imponente e convidativo, cercado por belas árvores. Um senhor saiu da guarita, baixinho, com um bigode grosso e um chapéu desgastado.
— Bom dia, Thom.
— Bom dia, Joseph! O Will está?
— Está, sim. Vou abrir o portão.
— Obrigado!
Minha mente estava a mil. O homem de olhos verdes sabia meu nome. Provavelmente, Thom já devia ter falado de mim para algum dos empregados ou até mesmo para o próprio Will. Tentei me convencer de que o senhor O’Connor não se incomodaria com a minha pequena “invasão”.
O portão abriu, revelando um cenário que parecia saído de um quadro. A estrada de terra ladeada por palmeiras levava a uma casa que se erguia à distância, majestosa em sua estética rústica.
Depois que entregamos os cavalos a um empregado que os levou para tomar água, fomos recebidos por uma senhora de cabelos grisalhos, gentil e calorosa.
— Bom dia, senhorita. Thom. Podem entrar.
— Bom dia, senhora — cumprimentei com um sorriso.
— Pode me chamar de Eva — disse, nos levando para o interior da casa. — A senhorita pode se sentar. Will está no pátio e logo estará aqui. Desejam algo para beber?
— Não, estou bem, e você Lisy?
— Não! Obrigada — falei.
— Bom, se quiserem algo, é só chamar.
— Calvin está por aqui? — Perguntou Thom a ela.
— Ele deve estar no celeiro. Quer que eu mande alguém procurá-lo?
— Não precisa, Eva, eu vou até lá. Você me espera aqui, Lisy? Ou se quiser, pode dar uma volta pela fazenda. Creio que Will não se importará.
— Eu vou ficar bem.
Thom deu um sorriso e em seguida saiu. A senhora pediu licença avisando que logo seu patrão iria à procura de Thom e Calvin, mas que eu ficasse à vontade. Eu sorri e agradeci.
A sala tinha uma decoração rústica. A madeira dos moveis era escura e grosseira, esteticamente harmoniosa. Alguns itens eram feitos de palhas trançadas e troncos de árvores. Era tudo tão lindo. Só faltava apenas um toque feminino. Eu nunca havia estado em um ambiente tão aconchegante como aquela casa.
Resolvi seguir o conselho de Thom e saí para andar pela fazenda.
Decidi seguir o conselho e caminhei pelos arredores. Cada canto da fazenda parecia carregado de história e vida. Vi uma senhora estendendo roupas no varal, um rapaz e uma moça rindo juntos enquanto regavam a horta. Tudo ali parecia tão tranquilo e harmonioso, tão diferente do turbilhão dentro de mim.
Alguns minutos depois, um pouco afastada da casa, pude ouvir o barulho do rio. Continuei andando alguns um pouco mais até chegar próximo à beirada. Olhei para trás e já não avistava mais a casa devido à pequena descida que se formava no percurso. Eu me encontrava um pouco distante do local onde estive no dia anterior.
Ali, tinha um balanço feito de pneu amarrado a uma árvore, um banco de madeira perto do balanço e algumas pedras formando um círculo. Tudo indicava que alguém havia feito uma fogueira.
À minha esquerda, um pouco mais adiante, uma estreita trilha seguia caminho acima. Caminhei em passos lentos para ver se de onde eu estava conseguia ver alguma coisa, mas foi sem sucesso. Comecei a caminhar pela trilha até avistar mais a frente, um celeiro, onde um rapaz acabava de sair e seguir para a casa principal. Alguns passos depois e eu já estava na frente do celeiro. Havia sacos e mais sacos empilhados.
Neste momento, algo passou atrás de mim, fazendo com que eu me assustasse. Eu me virei e contornei o celeiro a fim de descobrir o que havia causado o meu susto e para minha surpresa, me deparei com um cachorro de pelos pretos. O animal procurava alguma coisa em um arbusto, até que se virou e começou a rosnar para mim.
— Calma, amigão! Calminha, ok? Vou deixar você caçar o seu almoço — eu disse com nervosismo.
O cachorro rosnava e caminhava lentamente e, a cada passo que ele dava, eu dava um para trás. Quando pensei em correr, uma voz atrás de mim o chamou a atenção. Não só a dele.
— Sony!
O animal olhou para mim, abanou o rabo e correu animadamente de encontro ao dono da voz.
Quando me virei, me deparei com os olhos verdes, parado atrás de mim. Ele sorriu para o animal, fez um carinho em sua cabeça e disse "vai". O animal atendeu ao homem sem pensar duas vezes.
— É um lindo animal. Qual a raça?
Ele já não estava mais sorrindo. Colocou as mãos nos bolsos da calça e com o que parecia um tremendo desgosto, me respondeu.
— Kelpie Australiano — o tom cortante, sem traços de simpatia e o sotaque texano bem evidente.
Eu assenti me sentindo desconfortável e quando pensei em formular mais alguma coisa para dizer, ele tirou o chapéu e secou o suor da testa.
Como um gesto podia ser tão sensual assim?
Parei para observar sua calça jeans surrada, a bota empoeirada e a velha camiseta preta que ele vestia. Os cabelos estavam amarrados e havia alguns fios soltos e molhados de suor.
— Acredito que não tenha vindo aqui só para saber a raça do cachorro — disse enquanto colocava o chapéu, novamente —, assim como não acredito que tenha passado por baixo da cerca como da última vez.
— Eu vim com o Thom. Ele queria ver o senhor O'Connor.
— O senhor O'Connor?
Eu notei um leve sorriso em seus lábios e foi tão breve, que eu me perguntei se alguém já teria visto aquele homem sorrir. Quem viu, certamente não esqueceria.
— Sim. Ele é seu patrão?
— Não, ele não é meu patrão.
— Então você é amigo dele?
— Por que a curiosidade?
— Já é a segunda vez que o vejo aqui. Ontem você me advertiu sobre não invadir mais a propriedade e creio que você não é só um visitante. Além do mais, só um empregado se vestiria assim — eu disse apontando em sua direção. — E você é muito jovem para administrar algo tão grande.
Eu estava me sentindo uma idiota.
— Minha roupa não te agrada, senhorita?
— Você não está aqui para me agradar. Mas se você se veste como um empregado, então deve ser um.
Depois de me avaliar por alguns segundos, ele passou por mim e foi até o celeiro. Eu o segui. Ele puxou um saco de cima de uma das pilhas e colocou sobre um carrinho de mão.
— Eu não quis ofendê-lo. Eu só quis dizer que, você está vestido como alguém que está trabalhando, por isso deduzi que trabalha aqui. E estou certa, não é?
— Bem... Estou trabalhando, não estou? Além do mais, não me ofendeu em nada. Ser um empregado, não tem nada de vergonhoso, desde que o trabalho seja digno.
— Eu penso o mesmo e insisto que eu não quis ofender. Mas, não entendo por qual motivo você disse que ele não é seu patrão, se acabou de confirmar que é um empregado.
Ele colocou o segundo saco em cima do carrinho, bateu as mãos nas laterais da calça e me olhou por alguns segundos.
— Vai mudar alguma coisa na sua vida se eu trabalhar aqui ou não?
— Não... É que...
— É que você é muito curiosa. Sua mãe nunca lhe disse que a curiosidade matou o gato?
— Se ela disse, eu nunca prestei atenção.
Ele me olhou e depois, deu um passo à frente. Eu recuei.
Conforme ele caminhava, eu recuava mais ainda, até que senti a parede fria do celeiro em minhas costas. O homem apoiou uma mão em cada lado da parede, na altura do meu rosto, me cercando.
Meu coração palpitava tão rápido, que pensei que podia ouvi-lo. O medo se instalou em mim, mas eu não conseguia correr. Não quando aqueles olhos me fitavam e seus lábios estavam tão perto.
— Sabe, Heloyse? Eu odeio pessoas curiosas, odeio pessoas que atrapalham meu serviço. Odeio gente que eu não conheço e acha que me conhece e odeio mais ainda, o fato de que você está aqui, sendo curiosa, atrapalhando meu serviço. Uma estranha achando que me conhece só pelas roupas que visto.
Ele falava com sua voz grave e ameaçadoramente baixa.
Totalmente sem graça, eu coloquei a mãos sobre seu abdome e tentei empurrá-lo. Eu adorei aquilo, não nego.
— Não vou mais atrapalhá-lo.
— Será? — ele perguntou.
— Sim.
— Sabe o que mais me irrita desde que a vi, Heloyse?
— O quê?
Eu me arrependi de ter perguntado. Não era normal eu agir como adolescente boba.
— Saber que uma hora ou outra, íamos acabar nos vendo. E se quer saber, isso não é bom pra nenhum dos dois.
Eu o empurrei novamente e ele nem sequer saiu do lugar. Então, fiz a pergunta mais idiota que veio a minha cabeça.
— Qual o seu nome?
E então uma voz chamou nossa atenção.
— Lisy!
O homem se afastou permitindo que eu saísse.
Quando Thom me viu saindo do celeiro, deu um sorriso e colocou a mão na cintura.
—Chava! Pensei que tinha se perdido pela fazenda. Disseram-me que a viram no rio e quando cheguei, você não estava.
— Eu estava conversando com o...
— Thom, como vai?
Ele saiu do celeiro e com a mão estendida, foi até Thom e o cumprimentou.
— Então é aí que você está? Eu estou bem. Procurava por você. De qualquer maneira, Calvin já resolveu meu problema — Thom relatou.
O homem fez um breve gesto com a cabeça.
— Vamos, Lisy?
Eu concordei e me posicionei do lado de Thom e antes de seguirmos caminho, algo então aconteceu:
— Até mais. E Will, Cielo pediu que fosse a qualquer hora comer uma de suas tortas.
"Will"?
Eu abri a boca para falar algo, mas, não tinha ideia do que dizer. Parecia que as palavras se perderam.
— Diga a ela que irei.
Ele colocou a mão no chapéu, como um cumprimento, deu as costas e voltou para o celeiro.
Aquele era William O'Connor.
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UM PONTO DE PARTIDA
RomanceTragédia e perda deixaram Heloyse à deriva, presa em um vazio onde a dor é sua única companhia. Em busca de um escape, ela se lança ao desconhecido-não para se encontrar, mas para esquecer, nem que seja por um instante. Sua jornada a leva a terras v...
