Capítulo Dezenove - Até quando?

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Heloyse

Duas semanas haviam se passado desde a última vez que o vi.
Naquele dia, acompanhei Cielo até a cidade para comprarmos pimentas, essenciais para o chili que ela prepararia no jantar.
Enquanto dirigia pela estrada de terra, ao passar pela fazenda de Will, senti meu coração vacilar. Era inevitável desejar vê-lo, mesmo que só de relance. Sacudi a cabeça, tentando afastar a sensação, e continuei dirigindo.
Depois que terminamos as compras, Cielo sugeriu almoçarmos no restaurante de Johnson. O lugar tinha uma decoração rústica que parecia nos convidar à tranquilidade. Apesar de quase cheio, conseguimos uma mesa afastada, num canto que nos oferecia certa privacidade.
Não demorou para que Johnson aparecesse para nos cumprimentar, com seu sorriso caloroso que parecia iluminar o ambiente.
— Que bom vê-la aqui, Lisy. E a senhora também, dona Cielo.
— Eu estava ansiosa para mostrar à Lisy o quanto a comida daqui é deliciosa. Já disse a ela que este é o melhor restaurante da cidade — respondeu Cielo, animada.
Uma pequena covinha se formou na bochecha dele, dando mais charme ao seu sorriso. Sentamos e desfrutamos de um almoço impecável, onde cada detalhe parecia ter sido pensado para nos agradar.
Quando terminamos, Cielo se afastou para conversar com Victoria, a senhora do salão de beleza. Eu a cumprimentei  segui para a caminhonete. Contudo, antes que pudesse entrar, ouvi a voz de Johnson me chamando.
— Lisy!
Virei-me, encontrando-o a poucos passos de distância, caminhando em minha direção.
— Você já tem planos para o próximo fim de semana?
— Espero que não — respondi, sem entusiasmo.
— Ótimo. Gostaria de convidá-la para ir ao cinema comigo.
— Não sei se quero sair — falei, hesitando.
Vi a decepção se desenhar em seu rosto, e por um momento, senti o peso da minha recusa.
— Ok — disse ele, após uma pausa. — Isso tem a ver com o O’Connor? Todo mundo tem comentado sobre vocês desde a festa.
Suspirei, escolhendo as palavras com cuidado.
— Não, Johnson, apenas não quero sair. Além disso, sou uma companhia terrível. E, sobre os boatos, as pessoas acreditam no que querem. Mas nem sempre o que elas acreditam é verdade.
Ele sorriu de forma contida, como se tentando esconder o constrangimento.
— Claro. Desculpe-me . E, só para constar, você está muito bonita hoje.
— Obrigada. E não se desculpe. Só não estou de bom humor.
— Talvez eu possa mudar isso.
— Estou falando sério, Johnson.
— Eu também estou, Lisy. Você se mantém distante, não faz amizades. Isso não faz bem
— Não me importo em fazer amizades.
— Ok, não vou insistir em algo que você não queira, mas gostaria que me permitisse ser, pelo menos, seu amigo.
Por alguns segundos, suas palavras pairaram no ar. Ele tinha razão, e sua gentileza me desarmava.
— Tudo bem. Podemos ser amigos, mas realmente não quero sair.
Um sorriso brotou em seu rosto, sincero e satisfeito.
— É um começo.
Naquele exato momento, Cielo retornou. Johnson se despediu com um leve aceno.
— Até mais, Lisy. Se precisar de companhia, sabe onde me encontrar.
— Sei, sim.
Entrei na caminhonete, fechando a porta, e logo percebi o olhar curioso de Cielo.
— O que foi? — perguntei, desconfiada.
— E você ainda diz que não é bonita. Imagina se fosse…
Revirei os olhos, mas um sorriso escapou. Liguei o motor e seguimos em frente.
Já era noite, e desta vez, recusei o convite de Thom para me juntar ao grupo. A noite sempre foi um refúgio para mim, um esconderijo onde o silêncio permitia que meus pensamentos encontrassem ordem. Caminhar sob o céu escuro era um hábito que me acompanhava desde a minha antiga casa, e naquela estrada de terra, sentia a mesma tranquilidade.
Empurrei o portão e segui pelo caminho, envolta pelo som dos grilos que ecoavam no ar fresco. A escuridão não me intimidava; pelo contrário, a ausência de luzes criava um cenário incrível, como se a estrada fosse apenas minha. Meu olhar vagava pelo céu, e minha mente mergulhava em antigas memórias, até que os contornos iluminados da fazenda O’Connor surgiram à distância.
Parecia tão vibrante, tão viva, e mesmo contra minha vontade, me perguntei o que ele estaria fazendo naquele momento. Será que estava sozinho ou na companhia de alguém? Afastei o pensamento rapidamente. Não queria imaginar nada sobre Will, muito menos deixar que ele ocupasse espaço em minhas divagações.
Continuei caminhando, mas o feixe de luz de um farol interrompeu minha paz. Pisquei algumas vezes para ajustar a visão e me afastei para a lateral da estrada. O veículo reduziu a velocidade e, para minha surpresa, parou ao meu lado.
— Heloyse?
Aquela voz... Eu a reconheceria em qualquer lugar, como uma melodia gravada na memória.
— O’Connor? — eu disse com supresa.
—  O que você está fazendo aqui? — ele perguntou.
— Não que isso seja da sua conta, mas estou caminhando. A noite está agradável... ou estava, até o senhor aparecer.
Sim, voltei a tratá-lo como um desconhecido, como ele nos descreveu no jardim.
Will inclinou-se para fora da janela, analisando-me com aquele olhar penetrante que tanto me incomodava.
— Esta região é tranquila, mas não acho prudente que uma mulher ande sozinha por uma estrada deserta à noite. Você teve sorte de ser eu quem apareceu.
Seu tom carregava um misto de advertência e provocação que me irritou profundamente.
— Sim, sim, tenho sorte de ter sido você o meu salvador. William, o herói das garotas de programa.
Ele franziu o cenho, balançando a cabeça como quem não acreditava no que ouvia.
— Ainda o maldito vestido? Você sabe como guardar mágoa, não é?
— Magoa?  Imagina! Você é insignificante demais para que eu gaste meus sentimentos com você.
Antes que pudesse recuar, ele abriu a porta da caminhonete com força, saiu e, em poucos passos, estava diante de mim. Tentei correr, mas ele me alcançou com facilidade, puxando-me contra o peito.
Foi estranho. Ele me abraçava com força, como se quisesse fundir nossos corpos, e por um instante, senti algo diferente. Não parecia o mesmo Will arrogante de sempre. Ele parecia mais com aquele homem que beijou sob a luz da lua, enquanto as flores exalam seus perfumes.
—  Eu sou insignificante, rude e até desprezível. E isso é algo que ninguém pode mudar. Mas deve ser difícil para você, não é? Tentar entender como alguém que considera tão irrelevante consegue bagunçar seu interior, tocar em partes de você que nem mesmo você entende. Deve ser confuso perceber que, por mais que tente ignorar, há algo em mim que provoca cada uma das suas terminações nervosas, algo que você não pode controlar.
Ele inclinou-se e me beijou. Foi um beijo possessivo. Tentei afastá-lo, mas meu corpo parecia traiçoeiro. Em vez disso, envolvi meus braços ao redor de seu pescoço, puxando seus cabelos com força, entregando-me ao momento.
Era como se aquele beijo fosse uma tempestade, e eu, perdida no meio de um deserto. Nada parecia saciar a sede que ele provocava. Era um mar avassalador no qual eu mergulhava sem medo, disposta a me afogar só para sentir tudo aquilo outra vez.
Quando nos afastamos para recuperar o fôlego, ele segurou meu rosto com as duas mãos, sua respiração descompassada misturando-se à minha.
— Não há nada mais excitante do que sentir o seu gosto na minha boca — murmurou, antes de voltar a me beijar.
Suas mãos desceram pelas minhas costas, trazendo-me ainda mais para perto.
— Me pergunto quando minha boca terá o seu gosto por completo — sussurrou, deixando meu coração em descompasso.
Então, de repente, ele me soltou, como se algo dentro dele o tivesse puxado de volta à realidade.
— Eu estava com raiva, Heloyse. Raiva porque todos os olhares estavam voltados para você, cada um desejando você de uma forma que eu não conseguia ignorar. Isso me consumiu por dentro. A simples ideia de outro homem querendo você, tocando você, foi o suficiente para me tirar o controle. — Ele fez uma pausa, como se buscasse a melhor forma de continuar. — Mas é importante que você entenda algo: o que sinto por você é apenas atração. Nada mais. Nada além disso.
Sem esperar por uma resposta, Will deu a volta, entrou na caminhonete e foi embora, deixando-me ali, imóvel, com as palavras dele ecoando em minha mente.
"Até quando você irá colecionar lágrimas, Lisy?"

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