Davies
— Eu não sou seu filho, senhor Mitchell! — gritei, sentindo um nó apertar minha garganta como se fosse me sufocar. — Nem consigo pronunciar essa maldita palavra.
— Eu sei, Davies — ele respondeu, com aquela calma que sempre me irritava. — E não pretendo forçá-lo a me ver como um pai. Mas quero que saiba que você é amado por mim e pela Eva.
Meu corpo inteiro estava tenso, e as palavras saíram antes que eu pudesse segurá-las:
— Obrigado, mas quando eu crescer, vou embora. E quando for, não vou olhar para trás.
Calvin abaixou a cabeça por um instante, como se mastigasse a dor daquilo, e depois me olhou nos olhos com tristeza.
— Quando você crescer, espero que se torne um bom homem, William. Isso já seria o suficiente para me fazer feliz. Você será um bom homem?
A pergunta ficou no ar por alguns segundos, como uma faca flutuando sobre mim.
— Eu não sei. Não me sinto grande o suficiente para saber se serei bom ou não.
Ele soltou um suspiro pesado e cruzou as mãos, como quem reúne coragem.
— Você age como se já tivesse crescido e se tornado um homem amargurado. Mas você é apenas um garoto, Davies. Um menino que fala pouco, mas que, quando fala, parece carregar o peso de cem anos. Você só tem doze anos. Já se passaram quatro anos desde aquilo, mas, quando olho para você, vejo que revive aquele dia, todos os dias. Isso não é bom. Seu corpo é jovem, mas seu coração envelhece com cada palavra amarga que você guarda. Tente se livrar dessa carga, Davies.
A raiva me dominou, e explodi:
— Não me chame assim! — empurrei sua mão do meu ombro. — Só ela e aquele homem me chamavam assim. E para que todo esse sermão, hein? Tudo isso só porque quebrei o nariz do Charlie?
— Não é apenas por isso, William. É porque você está descontando sua raiva em quem está ao seu redor.
— Não sei se você percebeu, não tenho amigos. Não suporto aquela escola. Meus professores me olham como se eu fosse um cachorro perdido. E as outras crianças? Elas cochicham quando eu passo. Acham que eu não escuto, mas eu escuto.
Minha voz estava embargada, mas continuei:
— E o Charlie... Ele sempre implicou comigo. Hoje ele me acertou com a bola de propósito, e quando eu não fiz nada, ele me chamou de "bastardo, filho da puta". Então eu o derrubei no chão e quebrei o nariz dele com todos os socos que consegui dar.
Minha respiração estava pesada, e meus olhos ardiam. Mas, como sempre, as lágrimas não vieram.
— Minha mãe não era uma puta, Calvin. Nunca vou permitir que ninguém diga isso dela.
Ele ficou em silêncio por alguns instantes, encarando as crianças que brincavam na praça. Talvez estivesse tentando achar as palavras certas.
Parte de mim queria afastá-lo, odiá-lo, mas não conseguia. Ao mesmo tempo que eu me sentia seguro com ele, odiava essa sensação. Queria desaparecer, me trancar em um quarto e ser esquecido. Queria que ele desistisse de mim, mas ele nunca desistia.
— Eu sinto muito que ele tenha dito aquilo — Calvin disse, enfim. — Sinto muito por tudo que você passa. Queria tirá-lo daquela escola, pagar por aulas em casa... Mas não tenho condições.
— Não quero que gaste dinheiro comigo — respondi, seco, como se as palavras fossem pedras. — Eu não quero nada de ninguém. A única coisa que quero é encontrar aquele desgraçado do Wilson e cortar sua garganta.
— Não diga isso, Davies.
— Não me chame assim! — gritei, afastando sua mão do meu ombro novamente.
Ele não se alterou. Apenas suspirou.
— Fazer isso não trará sua mãe de volta.
As palavras dele me atingiram como um soco, mas eu não deixei transparecer. Apenas murmurei:
— Se nada pode trazê-la de volta, então nada do que eu faça ou deixe de fazer faz diferença.
Calvin fechou os olhos por um momento e voltou a abrir, com o rosto cansado.
— Meu Deus... Por que você não pode agir como uma criança, William? Você já tentou gritar, colocar tudo para fora? Fale comigo! Me diga o que está sentindo! Só me diga o que posso fazer. Mas não continue se destruindo desse jeito. Por favor, filho.
Eu queria responder. Queria dizer algo. Mas tudo que consegui foi murmurar, com a voz carregada de desprezo:
— Eu não tenho um pai.
A palavra saiu como veneno, e antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa, levantei e fui embora.
Naquela noite, não desci para o jantar. Não falei com ele nem com a Eva. Apenas deitei na cama, encarando o teto, e me perguntei, mais uma vez, por que eu não chorava.
E a única resposta que minha mente deu foi fria, como uma lâmina:
"Porque você não tem mais um coração."
Então me cobri com o lençol e esperei o dia amanhecer.
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UM PONTO DE PARTIDA
RomanceTragédia e perda deixaram Heloyse à deriva, presa em um vazio onde a dor é sua única companhia. Em busca de um escape, ela se lança ao desconhecido-não para se encontrar, mas para esquecer, nem que seja por um instante. Sua jornada a leva a terras v...
