Heloyse
Will estava deitado, olhando para o teto, enquanto eu ainda estava sobre ele, abraçada.
— Eu sinto muito, pelo beijo. Eu…
— Sério? — perguntou com ironia.
Levantei-me, e Will segurou meu pulso, fazendo com que eu voltasse a me sentar sobre ele.
— Me diz, por que deixou que ele te beijasse?
— Adiantaria, Will? Você acreditaria? Porque eu não quero você me olhando com desconfiança, como se eu fosse uma vadia. Não foi isso que você me chamou?
— Eu não disse isso... Eu disse... Droga! Eu fiquei louco. Atormentado. Você não sabe o quanto me perturba pensar que você pode ser de outro.
— Eu não saberia como ser de outro, Will. Você me fez esquecer isso.
Ele respirou fundo e me abraçou.
— Eu deixei o Johnson me beijar, e depois que ele me beijou, ele soube que aquilo não me fazia sentir nada. Ele soube que eu nunca o beijaria como beijo você, e que nada faria com que eu o amasse, porque eu te amo. E sinto muito se te magoei também — eu disse, não conseguindo segurar o choro.
— Não, Lisy — ele disse, ainda me abraçando. — Você sempre foi sincera com ele. E eu... Eu a machuquei. Eu disse algo tão feio, e não é a primeira vez. Eu não queria…
— Eu sei. Me perdoa!
— Como pode me pedir perdão?
— Eu quase coloquei tudo a perder com aquele beijo. Eu magoei você e quase o perdi.
Will permaneceu abraçado a mim por vários minutos. Havia medo entre nós, medo de quebrar aquela bolha.
— Ah, Lisy... Como eu fui amá-la? Eu não sei lidar com algo grande assim.
E permanecemos abraçados, até que nossos músculos começaram a doer. Horas depois, preferi ir para casa. O clima ainda estava tenso entre nós.
Will me deu uma camiseta, e eu vesti por cima da minha blusa rasgada. Depois, ele me levou até em casa.
Dei-lhe um beijo breve nos lábios antes de entrar.
Ele dizendo que me amava, eram palavras que não saíam da minha cabeça. Fiquei por horas me lembrando delas.
Com certeza, ele também estava pensando em tudo o que aconteceu, e certamente, aquilo o assustou.
Eu estava em uma confusão de sentimentos. Estava feliz ao extremo por saber que ele me amava, mas logo, me entristecia ao pensar que talvez ele tenha dito aquilo em um momento de luxúria.
Será que era verdade? Será que ele se arrependeria?
Nos dois dias seguintes, não nos vimos nem nos falamos pessoalmente, apenas por telefone. Ele precisou ir até a fábrica de grãos de milho para analisar a contabilidade. Ele me convidou para ir, mas eu preferi ficar.
Fui até a cidade para ver como estava a reforma
Eu precisava resolver a questão da licença e ainda havia uma cozinha para arrumar. Tudo estava indo bem nesse sentido. Porém, a falta que ele me fazia era forte.
Eram apenas dois dias, mas parecia uma eternidade.
Cielo foi ao salão de Victória ver como ela estava, e Patsy passou para dar um "oi". Ainda era estranho, mas com o tempo, eu me acostumaria.
Ela estava em um relacionamento com o senhor Marz, um viúvo de quarenta anos. E apesar dos comentários maldosos, eu não acreditava que ela estivesse com ele pelo dinheiro, já que ela também era rica, talvez até mais do que ele.
Ela sempre estava sorrindo com ele. E convenhamos, o senhor Marz não era um homem de se jogar fora.
Eu me perguntei se as pessoas também não achavam que eu era uma oportunista, namorando Will. Mas, quem ligava? As pessoas sempre arrumariam um motivo para falar dos outros.
No dia seguinte, quando terminei de ver como estavam os reparos, peguei minha bolsa e me virei para trancar a porta da minha futura cafeteria. Já passavam das quinze horas, e naquele horário, Will estaria verificando os maquinários perto dos poços de petróleo.
Fiz planos de passar por lá e ficar até o horário em que ele retornasse para a casa principal.
Depois, comeria algo, já que passei a manhã toda com mal-estar e vomitando o café da manhã.
No momento em que estava indo embora, a chave emperrou e não queria girar. Tentei girar novamente, e nada.
— Merda de chave!
— Acho que quando você tem problemas, é sinal de que vou aparecer.
Revirei os olhos ao ouvir a voz de Johnson. Na verdade, o problema era ele.
— O que você quer?
— Você ainda está zangada comigo?
— Não estou zangada. Só acho que não temos nada para falar.
E a droga da chave continuava emperrada.
— Eu te ajudo.
— Não! Eu não quero. Obrigada.
— Eu só quero ajudar, acredite.
Dei um grito quando vi Johnson ser jogado ao chão, após Will tê-lo empurrado.
— Fica longe dela, Johnson.
Ele se levantou e se aproximou de Will, apontando-lhe o dedo.
— Você acha que ela vai ficar com você o resto da vida com você? Ninguém é louco para isso. Logo mais, ela vai se cansar da falta de atenção que você dá a ela. Eu nunca vi vocês dois por aqui. Não gosta de levar uma garota para sair, O'Connor? Ou você só leva para sair, mulheres vulgares como a Mary?
Ouvir o nome dela me incomodou.
— Vai embora, Johnson. Por favor!
Ele não me ouvia.
Will tinha uma calma falsa que a qualquer momento explodiria.
— Espera! Esse não é seu nome, não é, Lewis? O filho do bêbado Wilson Lewis? Sim, porque esse foi o nome do menino do Green Park que apareceu nos jornais da região. Eu morava perto, e meu tio era o delegado na época. Eu sempre soube que era você.
— Parabéns, Johnson por fazer o dever de casa. Agora cai fora daqui antes que eu quebre a merda dos seus dentes.
— Ouvi meu tio dizer que você era neto de um velho briguento que muitas vezes espancava o próprio filho. E esse filho era seu pai, não é? Ele também te batia. Veja isso, Lisy... Temos um problema aqui. Você conhece essa história? Um velho bêbado que maltratava o filho, que se tornou outro bêbado e repetiu a história. Cuidado! Logo, logo, você pode aparecer com um dente quebrado ou um olho roxo…
Johnson não terminou a frase.
Will desferiu socos e mais socos no rosto dele, tão rápidos e furiosos, que Johnson nem sequer teve tempo de se proteger ou revidar.
As pessoas começaram a sair dos estabelecimentos, enquanto outros corriam para apartar a briga.
Cielo veio correndo em nossa direção.
Em um momento de descuido, Will baixou a guarda por um segundo, tempo suficiente para que Johnson aproveitasse a brecha e desferisse um soco direto contra seu rosto. Will cambaleou ao pisar em destroços do antigo balcão, espelhados pela calçada.
Mal teve tempo de reagir antes que Johnson agarrasse um pedaço de madeira e com os olhos faiscando de raiva, Johnson ergueu a madeira acima da cabeça e a trouxe para baixo com toda a força, mirando o rosto de Will.
Instintivamente, Will ergueu os braços, cruzando-os à frente para se proteger. O golpe ressoou, atingindo com violência seus antebraços, fazendo a dor transparecer em seu rosto, mas não recuou.
Gritei, levando as mãos à boca, torcendo para que alguém os separasse.
Will voltou a batê-lo mais forte do que antes.
Ele estava de costas para mim. Havia se preparado para dar mais um soco em Johnson e quando me aproximei pelas suas costas, para impedir, seu cotovelo bateu tão forte quanto uma rocha em meu rosto.
A dor foi dilacerante e vi minhas vistas embaçarem.
Senti o gosto metálico do meu sangue que escoria do nariz, em minha boca.
Ouvi a voz de Will me chamando. Me desequilibrei e fui para rua. Tudo tão rápido, que eu só vi o momento em que um carro vinha em minha direção.
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UM PONTO DE PARTIDA
RomansaTragédia e perda deixaram Heloyse à deriva, presa em um vazio onde a dor é sua única companhia. Em busca de um escape, ela se lança ao desconhecido-não para se encontrar, mas para esquecer, nem que seja por um instante. Sua jornada a leva a terras v...
