Capítulo Quarenta e Seis - Um ponto de partida

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Heloyse 

Cielo repousava a cabeça sobre minhas pernas, num cochilo leve que mal mascarava o esgotamento que a consumia. O hospital nos envolvia com sua luz fria e o cheiro estéril, enquanto a madrugada se arrastava, interminável.
A dor parecia se entranhar no ar, impregnando nossos corpos com um peso invisível.
Cielo havia chorado até não restar mais nada dentro dela, e eu a acolhi em meus braços, segurando-a como se assim pudesse impedir que ela se partisse. Quando o sono finalmente a venceu, continuei a afagar seus cabelos, meus dedos deslizando entre os fios com uma ternura que tentava, em vão, acalmar a ansiedade dentro de mim.
Will nos cobriu com mantas, tentando afastar o frio que se instalava ao nosso redor, mas não havia tecido capaz de dissipar o gelo crescendo dentro de mim. Ele havia ido à fazenda e voltado com café e comida, enquanto Eva, lutando contra o cansaço, trouxe roupas para Cielo e, depois, para mim.
Coley estava certo. Thom enfartou. O coração dele, que sempre fora um alicerce inabalável, falhou. E agora, tudo parecia um desmoronamento sem conserto.
— Você deveria voltar para a fazenda e descansar, Will. Eu fico aqui com ela. Se precisarmos de algo, eu ligo.
— Não, raio de sol. Não vou deixá-las — disse com firmeza.
— Tudo bem, obrigada — murmurei, mas meu agradecimento saiu sem força, carregado pelo mesmo peso que me esmagava o peito.
Will balançou a cabeça levemente e encheu um copo com café. Seus olhos estavam tão cansados quanto os meus, mesmo que ele tentasse esconder. Os cabelos presos de qualquer jeito, a camisa branca e as calças jeans limpas pareciam deslocadas nele, como se a poeira do Texas fosse parte de sua essência e a ausência dela deixasse algo incompleto. Para qualquer um que olhasse, ele era apenas um homem de classe. Mas eu sabia a verdade. Sabia que Will carregava cicatrizes invisíveis, moldadas pela perda, pela dor e pela necessidade de ser forte quando tudo ao seu redor desmoronava.
A voz de Megan cortou meus pensamentos.
— Jeremy fará o possível para vir. Ele quer pagar todas as despesas do hospital.
— Thom não vai gostar — comentou Will.
— Eu sei, Will. Nem eu me sinto confortável. Mas precisamos disso. O dinheiro que temos era para os reparos da fazenda, os fornecedores de ração e para pagar você. Teríamos que completar. E quando papai souber que mexemos nesse dinheiro, ele vai surtar e se sentir culpado. Quando os credores chegarem, ele ficará nervoso. Tenho medo de que passe mal de novo. Não sei o que fazer. Não sei…
— Eu não quero esse dinheiro. Thom é teimoso, e se quer saber, não vou aceitar um centavo mais.
— Papai não vai gostar disso.
— Ele não tem escolha. Pegue o dinheiro que seria meu e use na fazenda. Eu já decidi pagar as despesas do hospital. Sei que Thom não gosta de depender de ninguém, mas se tem alguém que ele toleraria aceitar a ajuda, esse alguém sou eu. Eu sei que Jeremy  faria isso de coração, mas Thom não se sentiria confortável .
— Sim... Eu sei. Obrigada, Will.
Megan se levantou e o abraçou.
— O que seria de nós sem você? Martin sempre dizia que você era como um irmão. Eu te vejo assim. Obrigada... Obrigada por cuidar de nós.
Meu coração se aqueceu. Will era aquele tipo raro de homem cuja bondade permanecia inabalável, mesmo quando tudo ao redor ruía.
Cielo se levantou, servindo-se de café. Seu olhar estava distante, marcado pelo cansaço.
— Thom o vê como um filho. Você realmente é especial, como ele sempre disse. — Ela tocou seu ombro com leveza. — Que Deus lhe pague e o encha de bençãos por tudo o que fez e faz por nós.
Will sorriu, mas o sorriso era triste. Ele se afastou, carregando seu próprio fardo de dor.
— Quanto a você, Lisy — Cielo disse, voltando-se para mim —, quero que vá com Will.
— Eu não vou a lugar nenhum.
— Vai, querida, vai! Você precisa descansar. Volte amanhã.
— Mas Cie…
— Sem mais! Megan e eu ficaremos bem. Jeremy virá e se ficarmos cansadas, há um hotel próximo.
Era inútil discutir.
Quando entramos na caminhonete, a exaustão me dominou por completo, mas Will parecia imune. Eu sabia que não era verdade. Ele apenas escondia bem.
— Vamos dormir em casa.
— Prefiro a minha, por favor.
— Está bem. Dormirei com você.
Não era um pedido. E eu não me importava. Estar com ele era o suficiente.
No quarto, após seu banho, Will puxou as cortinas para barrar a luz e deitou ao meu lado, puxando o lençol sobre nós.
— No hospital, você estava assustada — ele disse, me puxando para mais perto.
— Eu só... Não sou boa com isso.
— Eu sei. Sei muito bem, raio de sol. Eu também não sei lidar com a perda. Mas o problema é que as pessoas que amamos podem ir embora a qualquer momento, e não há nada que possamos fazer.
— Eu sei. Mas meu cérebro se recusa a aceitar isso
— O de todos nós.
Ficamos em silêncio por um momento. Então, sem conseguir conter, falei o que me consumia desde o hospital.
— Thom insistiu para que eu viesse a Clearwater. Se estou aqui, se estamos juntos, é graças a ele. Ele foi meu ponto de partida. O começo de tudo que me trouxe até você. Sempre serei grata a ele.
Will sorriu, acariciando meu rosto com ternura.
— Eu também serei. Ele me trouxe meu pequeno grande raio de sol.
Sorri junto com ele, sentindo o peso da noite finalmente se dissolver um pouco.
Ficamos nos olhando por alguns instantes, até que eu finalmente continuei:
— Will... Sobre o que eu disse, enquanto estávamos no cavalo... Sobre as pessoas que perdi…
— Esqueça isso.
— Não... Não! Eu só quero dizer que eu não quis dizer aquilo. Ou melhor... Eu quis... mas não naquele sentido.
Respirei fundo.
— Eu quis dizer que perdi meus pais, meu irmão, e ia dizer que perdi Michael. Mas não como se lamentasse não estar com ele. Eu quis dizer que, na época, não tê-lo comigo foi doloroso. Ele era tudo o que eu tinha. E quando tudo acabou, era como se eu tivesse passado por outra perda.
Meus olhos encontraram os de Will, temendo o que ele veria ali. Mas tudo o que encontrei foi compreensão.
— Eu sei. Está tudo bem.
— Tem certeza?
— Sim, eu tenho.
O alívio foi imediato.
— Obrigada por entender.
Will fez um breve movimento com a cabeça e depois beijou minha testa.
O cansaço pesava sobre ele como um fardo invisível, sugando o verde vibrante de seus olhos e deixando em seu lugar um tom opaco, esmaecido. Mas nem mesmo o desgaste daquelas horas intermináveis apagava sua beleza austera.
Observei as linhas do seu rosto, a expressão endurecida por anos de luta e renúncias. Seus olhos se fechavam e abriam lentamente, como se estivessem cedendo a uma batalha contra a exaustão. Sua barba crescida dava a ele um ar ainda mais primitivo, mais bruto. Passei os dedos sobre aquela textura áspera, sentindo a realidade concreta de sua presença.
Ele estava ali. Comigo. Apesar de tudo.
Will me olhava com os olhos pesadamente semicerrados. Não disse nada. Não precisava.
Em segundos, a respiração dele desacelerou, profunda, rendida ao sono.
Inclinei-me e encostei meus lábios nos dele, selando um instante que parecia flutuar entre tudo o que tínhamos perdido e tudo o que ainda nos restava. Então me aninhei contra seu peito, deixando que o calor de seu corpo acalmasse os tremores invisíveis dentro de mim. Minutos depois, adormeci.
Três dias depois, Thom se foi.
O hospital parecia respirar luto. O cheiro estéril das paredes, o silêncio carregado de murmúrios distantes, as cadeiras frias onde havíamos esperado durante horas, tudo se tornou um peso sobre nós.
Cielo chorava em silêncio, com os olhos vermelhos, segurando com força a mão de Megan.
Will ficou ao meu lado, sem dizer nada. O mundo parecia ter desacelerado, como se segurasse a respiração para absorver a ausência.
No fundo da minha mente, a voz de Thom ecoava, trazendo consigo o que ele me dissera no dia em que nos conhecemos:
"A morte é só um ponto de partida em que você diz adeus agora, para dizer olá, futuramente. Um dia, eu verei meu filho. Nesse dia, já não haverá mais dor."
Aquelas palavras agora ganhavam um peso diferente. Eu entendia. O ponto de partida não era o fim. Era a travessia. Era o que nos fazia seguir, apesar do vazio deixado para trás.
E era isso que Thom nos deixava. Não apenas um adeus, mas um caminho. Um ponto de partida para continuar. Para encontrar significado na dor. Para seguir em frente, ainda que com o coração marcado pela ausência.

UM PONTO DE PARTIDAHistórias para pegar e não largar. Descubra agora