Capítulo Sessenta e Um- Continue andando

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Heloyse (dois anos mais tarde)

— Haverá uma feira na próxima semana. Você deveria ir — Ashley disse, estendendo um panfleto para mim. — Tudo o que há de melhor para cafeterias, restaurantes, lanchonetes e bares estará lá.
Peguei o papel com curiosidade, percorrendo os tópicos em negrito.
— Vamos ver… Temperos exóticos, raízes raras, apresentações de pratos típicos de dezessete estados, novos aparelhos para facilitar a vida do empreendedor... Hmm, disso eu gosto. — Apontei para um item específico. — E um teatro contando a história do café, de como o capitão John Smith fez a introdução da bebida pelos colonos de Jamestown.
— John Smith? — Ashley arregalou os olhos. — O mesmo do filme Pocahontas? Ele existiu?
Confirmei com um aceno.
— Foi sim. Como dizem por aí, ela realmente o salvou, convencendo o pai de que a morte de John Smith atrairia a ira dos colonos. Mas não havia nenhum clima entre eles. Pocahontas era apenas uma menina de dez ou onze anos, e Smith já era um homem mais velho, um verdadeiro mentor, que ensinava a língua inglesa e os costumes dos colonos. Ele, na verdade, estava em outra fase da vida.
— Então não foi nada como no desenho? — perguntou Ashley, surpresa.
— Não exatamente. Quando Smith sofreu um acidente, ele foi enviado para a Inglaterra para se tratar, e os colonos disseram a Pocahontas que ele havia morrido. Com apenas dezessete anos, ela foi capturada pelos ingleses durante uma visita e ficou presa por mais de um ano em Jamestown. Foi nesse período que John Rolfe, um comerciante de tabaco inglês, se apaixonou por ela. Como condição para sua libertação, ela foi forçada a se casar com Rolfe, um dos maiores empresários do setor. Durante sua prisão, Pocahontas foi tratada como membro da nobreza. Foi quando o ministro inglês, Alexander Whitaker, a ensinou o cristianismo, aprimorando seu inglês. Após ser batizada, ela escolheu o nome de Rebecca.
— Não pode ser! Meu Deus! E depois disso, ela teve uma vida boa? — Ashley perguntou, incrédula.
— Ela teve um filho, Thomas Rolfe. Mais tarde, soube que John Smith estava vivo, mas não conseguiu encontrá-lo. Smith, por sua vez, mandou uma carta à rainha Ana, pedindo que tratassem Pocahontas com respeito. Ela e alguns membros de sua tribo se tornaram populares entre os nobres da Inglaterra.
— E ela e o “velhote” do Smith nunca mais se viram?
— Eles se reencontraram, sim. Smith escreveu em seus livros que, naquele dia, Pocahontas não disse uma palavra a ele. Quando ficaram sozinhos por horas, ela expressou sua profunda decepção, dizendo que ele havia falhado em ajudar a manter a paz entre sua tribo e os colonos. Meses depois, Rolfe e Pocahontas decidiram retornar à Virgínia, mas ela adoeceu gravemente. Acredita-se que tenha sido de varíola, pneumonia ou tuberculose. O navio que os levava teve que voltar para Grevesend, na Inglaterra, onde ela faleceu.
Ashley suspirou, balançando a cabeça.
Ri da sua expressão desolada e voltei a olhar o panfleto.
— Como você sabe de tudo isso, Lisy?
— Bom, na escola, fizemos um trabalho sobre isso. Era sobre árvores genealógicas e, George W. Bush  é descendente de John Rolfe, que teve outro casamento, depois que ela morreu. E Nancy Reagan , é descendente da Pocahontas. Também sei, porque trabalho com cafés. É importante saber a história daquilo que vendo. Além do mais, o “tio” Google é de grande ajuda.
— Acabou de destruir minha infância. Nunca mais vou assistir a esse filme do mesmo jeito.
Eu dei risada
— O que mais temos aqui? Homenagem à primeira referência escrita sobre o café nos Estados Unidos... Demonstração de como o grão era torrado e moído pelos primeiros colonos... — meus olhos pousaram sobre um termo familiar. — “Cowboy Coffee.”
Minha voz saiu baixa, quase um sussurro.
Por um instante, não vi mais a feira, nem Ashley, nem o papel em minhas mãos. Vi apenas a pequena casa no Texas, a brisa cortante da manhã misturada ao calor. Vi Will, debruçado sobre a cerca de madeira envelhecida,  o olhar perdido no horizonte.
Meu peito apertou.
— Oh, Lisy... Ele ainda mexe com você, não é?
Assenti lentamente, soltando o ar com força.
— Achei que, com o tempo, lembrar fosse mais fácil... Mas não é.
Ashley hesitou antes de falar, escolhendo as palavras com cuidado.
— Eu sei que você nunca quer conversar sobre isso, mas é tão nítido o quanto você ainda o ama.
Engoli em seco.
— Acho que isso se transformou em uma grande mágoa. Sofri por muito tempo... Achei que ele me procuraria. No fundo, acho que ele nunca me amou. Eu estava tão convencida de que eu tinha seu coração, mas com o passar do tempo, não parece real.
— Mas ele teve algo sério com você. Você foi a primeira a quebrar as barreiras dele, Lisy.
— E ainda assim, ele desistiu.
— Porque ele estava quebrado. O que ele passou com o pai... A infância inteira vendo a mãe sofrer... Você acha que ele não tinha medo de fazer o mesmo com você?
Não respondi.
— Depois veio aquele acidente — ela continuou, com a voz mais suave. — Ele se sentiu culpado por tudo. Você sabe disso.
A lembrança foi um soco no estômago. A briga, o golpe não intencional, meu corpo caindo... Depois, o carro. O impacto. A dor.
— Ele não podia simplesmente jogar tudo fora por isso — murmurei, embora minha voz não soasse tão firme quanto eu gostaria.
— Na cabeça dele, podia. Ele te machucou, mesmo sem querer. Depois, veio o acidente... Você perdeu um filho, Lisy. Você consegue imaginar como isso o consumiu? Ele não conseguiu lidar com isso.
Baixei os olhos para a mesa, apertando os dedos contra a madeira.
— Sim, eu sei. Ele achou que me deixar seria melhor.
— Ele achou que estava protegendo você. Mas, no fim das contas, ele machucou vocês dois.
Ashley apertou minha mão antes de se levantar, indo até o balcão para pegar uma xícara de café.
Eu a observei se afastar, sentindo o peso da conversa se assentar no peito.
Ashley agora era minha sócia. Ela cuidava da unidade no centro da cidade, enquanto eu ficava nesta, perto da faculdade. Fiz muitas mudanças nesses dois anos. Fechei a pequena cafeteria da minha casa e a transformei em um escritório. Mantive a mente ocupada. Trabalhei, segui a rotina, continuei vivendo.
“Continue andando”, eu dizia a mim mesma todas as manhãs.
E de alguma forma, eu continuei.
Mas havia noites... noites em que eu não conseguia dormir, em que seu nome escapava dos meus lábios em meio a um sonho. Noites em que eu me pegava olhando para o teto escuro, perguntando se ele também pensava em mim.
Noites em que eu encarava meu próprio reflexo no espelho do banheiro, vendo um rosto que não era mais o mesmo de antes.
Houve um tempo em que achei que esqueceria. Mas, mesmo após esses dois anos, esquecer Will... era como esquecer como respirar.
Eu e Cielo, nos falávamos todas as semanas. Ela nunca falou sobre ele e eu nunca perguntei. Ainda doía pronunciar seu nome.
No final de dezembro, Cielo me ligou arrasada. Uma nevasca matou vários animais. A tempestade de neve havia chegado sem previsão e muitos criadores de gado não tiveram tempo para colocar o gado no celeiro. 
Algumas vacas leiteiras dos Ferrel morreram, assim como bezerros e novilhos. Ao todo, mais de trinta mil vacas morreram em toda região.
Cielo disse que, tanto em sua fazenda, quanto nas fazendas vizinhas, houve uma grande quantidade de animais mortos. Estavam todos discutindo como eliminar a carcaça, já que se fossem enterradas, poderiam afetar a qualidade da água e do solo. Sem contar, que as vacas sobreviventes, produziriam menos leite.
Houve um momento em que ela disse “a sorte é que eu e alguns fazendeiros conseguimos abrigar o restante dos animais, na fazenda do...” e então, se calou. Depois, ela pediu desculpa e continuou falando sobre os estragos. 
Foi a única vez que ela quase falou dele.

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