Heloyse
O vento soprava forte naquela tarde cinzenta, levantando poeira pela fazenda vazia.
Thunder relinchava inquieta perto da cerca, como se sentisse a ausência do dono. Trotava de um lado para o outro, olhando para o horizonte, impaciente. Às vezes, batia as patas no chão, bufando contra o vento, como se quisesse desafiar o próprio destino.
A fazenda nunca parecera tão silenciosa, tão sem vida. O cheiro de feno fresco e couro, que antes se misturavam com a risada rouca de Thom, e o som das rédeas, agora eram apenas uma lembrança distante.
Me aproximei devagar, sentindo um nó apertar minha garganta. Passei a mão sobre sua crina e ela abaixou a cabeça, como se compreendesse a dor que sufocava todos nós.
Thunder deu um passo para trás e relinchou alto, encarando o céu carregado. Talvez, chamasse por Thom. Talvez, em sua essência, soubesse que seu dono não voltaria, mas se recusasse a aceitar.
Ali, diante da nossa dor, desamarrei Thunder, para que fizesse seu passeio habitual. No fim da tarde, ela sempre voltava.
Então, eu fiquei presa na cena dos ventos que cortavam o pasto, no som das patas na terra...
De alguma forma, Thom ainda estava em tudo aquilo ali, pois um homem como Thom, nunca parte completamente. Ele se torna parte do que ama.
***
A essa altura da vida, eu já me considerava a pessoa mais solitária da terra. A família havia partido, um amigo estava morto e um namorado permanecia distante, perdido em seu próprio passado.
Os dias passavam depressa, mas a solidão não parecia diminuir.
Cielo, por sua vez, tentava ser forte. Ela sorria durante o dia, mas à noite, quando achava que ninguém estava vendo, as lágrimas sempre vinham. Eu admirava a maneira como ela conseguia esconder sua dor, mas eu sabia o que estava se passando dentro dela.
Com o passar dos dias, comecei a me preocupar cada vez mais com ela. Cielo estava tão focada em resolver os problemas da fazenda, pagando fornecedores e comprando a ração para as vacas leiteiras, que mal parecia dar atenção ao que estava realmente acontecendo dentro de si.
Estava obcecada em conseguir dinheiro para fazer os reparos necessários, tentando se manter ocupada para não pensar nas coisas que realmente importavam.
Will até tentou ajudar, mas Cielo era teimosa, assim como Thom. Ela preferia manter o orgulho intacto, mesmo quando sabia que precisaria de ajuda.
Em um momento, me ofereci para dormir na casa dos Ferrel, apenas para fazer companhia a ela, mas Cielo sempre dizia que queria ficar sozinha por um tempo. Eu a respeitava, mas, no fundo, sentia que sua solidão estava a consumindo.
Eu então fui até a cidade, onde encontrei o senhor Lee. Ele era dono de um ponto comercial que estava fechado e o conheci no velório de Thom.
O lugar era grande, com janelas enormes, e eu sabia que ali eu poderia criar algo novo. Eu imaginava mesas e balcões espalhados, uma cozinha espaçosa e acolhedora. Seria o lugar perfeito para minha nova cafeteria. O começo de uma nova vida.
***
— Você está me deixando? — Ashley perguntou, a voz carregada de dor.
Eu suspirei, mas as palavras saíam com dificuldade.
— Não, não é isso... — respondi, tentando encontrar uma explicação.
— Como não? Você disse que voltaria, mas agora está morando aí. Está criando raízes, se apaixonando por esse lugar e, de repente, me diz que vai abrir uma cafeteria. E eu? O que acontece comigo? — ela respirou fundo — Fala logo.
Ashley não conseguia esconder a frustração.
Eu me senti como se um peso enorme tivesse caído sobre mim. Não queria magoá-la.
— Talvez eu não consiga dizer porque minha melhor amiga mora em Boston e vou sentir muita falta dela.
— Então você deveria dizer isso a ela. — A voz de Ashley vacilou. — Não me faça esperar mais. Diga logo que você não vai voltar.
— Eu sinto muito, Ashley. Mas assim que tudo se ajeitar por aqui, eu verei você. Prometo. Depois, você pode vir morar aqui, em Clearwater. Vamos montar nosso próprio negócio — Eu disse, tentando, de algum modo, aliviar a tensão.
Ashley riu. Era o som que eu mais amava ouvir, algo que me acalmava nas horas difíceis.
— Isso é tentador... mas passei tantos anos aqui. Não me vejo em outro lugar. Quem sabe um dia.
— Tem certeza? — insisti. — Aqui tem tantos lugares maravilhosos, e Houston... Ah, você adoraria Houston. Lá tem a Saint Arnold Brewing Company.
— Oh, droga, adoro essa cerveja! Foi a melhor que já experimentei. — Ela não conseguiu disfarçar o entusiasmo.
— Então vem para cá. Vou comprar várias para você.
— E será que você também me daria um cowboy bonitão?
Eu ri, sabendo que ela estava brincando, mas de alguma forma, a ideia parecia mais atraente a cada palavra.
— Bom, os cowboys daqui já cuidam de tantas vacas, que duvido que precisem de mais uma.
Ashley deu uma gargalhada alta, contagiante.
— Então que as vacas se cuidem. Se eu for para Clearwater, vou precisar de um cowboy que me dê atenção vinte quatro horas por dia.
— Cowboy não falta por aqui. Eles parecem que saíram de um filme.
Ela suspirou, como se estivesse visualizando a cena.
— Bem... espero que pense na minha proposta — eu disse, já me despedindo.
— Vou pensar. Mas me diga quando vai vir.
— Assim que eu inaugurar a cafeteria. Tenho muito o que fazer. Preciso contratar algumas pessoas, comprar móveis, equipamentos...
— Espero que dê tudo certo.
— Eu também. — Respirei fundo.
— Lisy?
— Estou aqui.
— Quero que seja feliz, onde quer que seja. E, se precisar de algo, você sabe que pode contar comigo. Promete que vai me deixar ajudar?
— Prometo.
— Isso é bom. Eu te amo.
— Eu também te amo.
— Mamãe sente sua falta. E tia Ellen pediu para mandar um beijo.
— Diga a ela que mando outro. E fala pra sua mãe que logo vou vê-la.
— Eu vou dizer. E se cuida.
— Você também.
***
O senhor Lee me entregou uma caneta para que eu assinasse a papelada. A caneta estava fria e parecia pesar mais do que deveria, enquanto eu assinava com um misto de alegria e tristeza.
A cafeteria era um novo começo para mim, mas a saudade de Thom estava presente em cada centímetro daquele lugar vazio.
Ele ficaria feliz por mim. Eu queria que ele estivesse aqui.
— Boa sorte, senhorita — o senhor Lee disse, apertando minha mão com gentileza.
— Obrigada. — Eu sorri, mas a tristeza ainda pesava em meu peito.
Ele saiu e eu fiquei ali, sozinha no grande salão vazio. Eu estava começando algo novo, algo que me tirava da dor, mas que, ao mesmo tempo, me lembrava da dor que ainda sentia. A vida de Thom, da minha família, acabara ali. Mas a minha vida seguia, como um livro em branco, pronto para ser preenchido com novas histórias, com novas oportunidades.
Will entrou, trazendo nosso almoço. Ele colocou as sacolas no chão e sentou-se ao meu lado. Almoçamos ali mesmo, conversando sobre os reparos que precisaria fazer na cafeteria, sobre o futuro que agora parecia ao nosso alcance.
Meus olhos se desviaram para o violão encostado na parede e sorri, o coração um pouco mais leve.
— E aonde o senhor foi com esse violão, cowboy? — perguntei, tentando aliviar a tensão. — Não me diga que andou fazendo serenatas por aí. — Eu brinquei.
Ele sorriu.
— Meu avô me deu de presente. Mandei arrumar o braço dele.
— Sei... Eu me pergunto por qual motivo nunca o vi tocar — brinquei.
— Isso é um convite, senhorita? — Ele me perguntou, com um sorriso divertido.
Eu assenti com a cabeça desafiando-o.
Ele se levantou, pegou o violão e se sentou novamente.
Vestia uma camisa xadrez marrom, calça jeans e botas que pareciam feitas sob medida. Seu cabelo estava amarrado, com algumas mechas soltas.
Ele estava tão à vontade, tão confortável ali. Eu não conseguia tirar os olhos dele. Ele parecia, de certa forma, um cowboy perfeito.
— E o que vai cantar para mim, senhor O'Connor? — perguntei, com um sorriso no rosto.
— You Got What I Need, Joshua Radin .
Eu fechei os olhos e escutei, completamente absorvida pela sua voz. E, naquele momento, soube que nunca mais esqueceria a sensação daquela canção, daquele momento...
Querida, você tem o que eu preciso
Querida, você é meu raio de sol
Querida, você tem o que eu preciso
Querida, você é meu raio de sol
Se eu pudesse guardar este momento em algum lugar na minha mente, para me recordar até mesmo na eternidade, eu faria. Porque é assim que pessoas apaixonadas agem. Elas se tornam tolas o suficiente para terem pensamentos assim.
Quando eu te vejo, o mundo se torna lindo
Mas quando você vai embora,
te quero nos meus braços
Estou dizendo isso pela última vez.
Querida, você tem o que eu preciso
Querida, você é meu raio de sol
E assim, meu coração se desfazia, derretendo. Não era mais sólido. Will sempre fazia com que eu me tornasse líquida.
Toda noite, percebo que você fica sozinha
Talvez um dia,
Você me deixe amá-la, estou ardendo.
Você não consegue sentir meu desejo?
Eu quero te levar às alturas.
Eu o deixaria me amar. E mesmo que fosse apenas a letra de uma música, eu sabia que ele estava colocando todos os seus sentimentos nela.
É algo tão simples,
E sempre tão difícil de enxergar,
Que eu quero ser
O primeiro e o único a fazer com que você se sinta amada
Oh, querida, eu preciso de amor
É tudo o que tenho sonhado.
"Então me deixe amá-lo," eu pensei.
Passei a mão no meu ventre e sorri. Eu sentia que algo, uma hora ou outra, nos separaria. Talvez nada fosse para sempre. Nem tudo são flores. E nunca saberíamos ao certo quando chegaria o dia de colhê-las.
Minha mãe sempre dizia que no amor, colhemos muitos espinhos também. Mas se os dias espinhosos chegassem e eu não o tivesse mais, eu teria algo dele para amar... o resto da vida.
Talvez este algo fosse a causa de tudo acabar, ou não. De qualquer forma, a sensação da chegada do fim, não ia embora.
Eu ouvi cada palavra que saía da sua boca. E olhando atentamente para seus lábios, senti um desejo imenso de beijá-lo. Um desejo quase animalesco.
Era assim todas as noites que ficávamos juntos.
Era algo tão intenso de descrever. Intenso desde quando começávamos a nos beijar, até a hora em que nossos corpos tremiam, agarrados um ao outro. Eu o amava tanto...
Você é meu raio de sol
Will estava distraído. A boca cantando e a alma em outro lugar. Seu olhar vagava em algum ponto no chão e, quando terminou, focou no meu rosto e respirou fundo.
— É a voz mais linda que já ouvi — eu disse.
Ele sorriu.
Quando ele tirou o violão das suas pernas, eu fui para o seu colo, beijei-o e o abracei com força, como se o meu amor por ele precisasse ser transmitido em cada toque.
Will bateu as costas no chão e não me importei. Continuei em cima dele, beijando-o como se não houvesse mais nada depois disso.
— Vou me lembrar de tocar mais vezes — ele disse, recuperando o fôlego.
— Faça isso e eu jamais o deixarei sair do quarto.
Eu deitei minha cabeça no seu peito. Will acariciou meus cabelos com paciência, como se estivesse tentando me acalmar, mas eu queria mais. Eu queria cada parte dele.
— Quando eu cheguei, achei você tão distante. Você está bem?
— Estou sim — falei, enquanto saía de cima dele para me sentar no chão.
— Eu sei que está sendo difícil. Também sinto falta dele... E de todos que se foram. Eu sei como você se sente. Não devia esconder seus sentimentos de mim. Os meus são iguais.
Eu respirei fundo ao senti-lo tocar em minha mão.
— Está sendo difícil lá na fazenda. A Cielo finge que está tudo bem e eu sei que não está. Isso é tão óbvio. Quando Marcus morreu, minha mãe me sufocava. Ficava vinte e quatro horas em cima de mim, me bajulando ou me proibindo de sair com medo de me perder também. No caso da Cielo, ela parou, sabe? Parou de funcionar! Megan liga todos os dias pra mim. Ela sempre está preocupada porque a Cielo, na maioria das vezes, não atende ao telefone. Quando eu vou vê-la e comento sobre isso, ela diz "eu estava lá fora" ou "não deu tempo, o telefone já havia parado de tocar". Mas, eu sei que é mentira, porque ela sabe quem é. Poderia retornar. E o pior de tudo, é que todos os dias, ela está com os olhos inchados e o nariz vermelho. Ainda me trata como uma estúpida. Ela jura que não sei a diferença de um resfriado e de um choro? Eu me sinto inútil. Eu não soube o que fazer quando meu irmão morreu. Em vez de ficar com minha mãe e ajudá-la a superar, eu me afastei e a perdi. E agora que estou perto e quero ajudar, não sei o que fazer. Isso é tão horrível, Will.
— Eu sei — falou, apertando minha mão. — Quando eu fiquei sozinho, eu fui morar com os Mitchell. Eu não queria falar com ninguém, estar com alguém. E ao mesmo tempo, eu queria que estivessem comigo. Você entende? Eu queria me afastar, torcendo que continuassem ao meu lado. Por mais confuso que fosse. E mesmo quando eu não falava, era reconfortante ouvir a voz da Eva falando comigo. Ou quando Calvin dava meia volta e dizia "e aí garoto", bagunçando todo o meu cabelo. Nessas horas, não queremos nada e tudo. Não queremos ninguém por perto e não queremos estar sozinhos. E você, mais do que ninguém, sabe o que é isso. Então, não gaste saliva com Cielo. Não diga que você sente muito, porque ela sabe. Apenas a deixe saber que no dia em que ela quiser chorar na sua frente, você vai estar lá. E no dia em que ela desabafar com você, aí sim, você estará lá para dizer o quanto você sente. Então, deixe-a decidir qual será o melhor momento.
— Oh, Will...
Eu me aproximei e o abracei.
Will acariciou minha cabeça e depois depositou um terno beijo em minha testa.
À noite, dormimos juntos, em seu quarto.
No dia seguinte, Cielo pediu ajuda para empacotar as coisas de Thom. Ela havia tomado a decisão de doar as roupas, calçados e algumas coisas a mais.
Era cedo ainda e ela preparava nosso café. Mais tarde, começamos a embalar as coisas.
— Essa camisa, Thom usou no batismo da Megan. Ele a comprou para ser usada apenas naquela ocasião. Depois, não usou mais. Tem o colete que ele usava para pescar com Martin, enfim... Tantas coisas, tantas lembranças.
— Você tem certeza de que quer doar todas elas?
— Ah, sim. Absoluta! Eu sei que Thom não está mais aqui, só que suas coisas fazem com que eu me esqueça de que ele se foi. E aí, quando lembro, é pior. Acaba sendo mais doloroso. E isso vem me fazendo chorar todas as noites. Principalmente depois que eu coloquei um pouco do seu perfume, só para sentir o cheiro dele. Foi a pior coisa que eu fiz. Eu acordava com o maldito perfume no meu nariz e o cheiro dos seus cabelos ainda estavam no travesseiro. Quando eu sentia o cheiro, eu chamava por ele porque achava que ele poderia estar no banheiro. Eu me esquecia de que ele havia ido embora, Lisy. Eu me esqueço, às vezes... E eu choro toda a noite e todas as manhãs — disse, com a voz embargada.
Eu peguei em sua mão.
— Naquele dia, ele foi tomar um banho para ir ao médico. Quando já estava arrumado, ele me abraçou e disse que ficaria tudo bem, não importa o que acontecesse. Disse que me amava e então... então...
Cielo deixou uma lágrima cair, enquanto se recordava da última vez que teve um diálogo com Thom.
— Eu queria poder fazer algo por você.
— Você já faz tanto. Além do mais, você estar aqui é tão importante. Eu não conseguiria fazer isto aqui, sozinha. Seria uma tarefa difícil.
— Obrigada por me chamar.
Cielo concordou com a cabeça e depois fitou o chão. Quando olhou para mim, seus olhos pareciam duas taças transbordando. Então, eu a abracei enquanto ela chorava em meu ombro.
— Eu sinto muito, Katherine! Eu sinto muito! Eu sinto tanto... Que machuca.
"E no dia que ela desabafar com você, aí sim, você estará lá para dizer o quanto você sente."
"Você estava certo, Will!" Eu disse mentalmente.
Saint Arnold Brewing Company: Companhia de cerveja artesanal, localizada em Houston, Texas.
Joshua Radin: Joshua Radin é um cantor e compositor americano. Ele gravou sete álbuns de estúdio e suas músicas foram usadas em vários filmes e séries de TV.
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UM PONTO DE PARTIDA
RomantizmTragédia e perda deixaram Heloyse à deriva, presa em um vazio onde a dor é sua única companhia. Em busca de um escape, ela se lança ao desconhecido-não para se encontrar, mas para esquecer, nem que seja por um instante. Sua jornada a leva a terras v...
