Capítulo Trinta e Nove - As piores semanas

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Heloyse

— E você disse “não”?
— É claro, Cielo! Eu não posso aceitar o que ele quer. Isso é ridículo.
— Bom, eu concordo, querida.
— Mas…?
Cielo suspirou, limpando as mãos no avental antes de cruzá-las sobre o peito.
— Mas, também admito que saber que Will pediu para passar um tempo com alguém… É estranho. Quer dizer, vocês fizeram aquilo — ela disse, corando — e eu queria matá-lo quando fiquei sabendo que ele se foi sem ao menos conversar com você. Ainda assim, eu sempre soube que ele não passava muito tempo com a mesma mulher.
Eu soltei um riso irônico, cruzando os braços enquanto me recostava na cadeira.
— Claro! Ele não “recicla” os encontros com as mulheres que ele trata como lixo.
Cielo me olhou com um misto de compaixão e preocupação.
— Lisy, eu sei que o que Johnson te contou sobre Will é horrível, e a cena com Mary o fez parecer um vilão. Mas Will não é um cara ruim. Ele só está… perdido nessa vida. É um homem que, pelo jeito, gosta muito de sexo — ela corou novamente — mas tem medo de se relacionar. E, apesar de tudo isso, ele é bom.
— Você diz isso porque ele foi o melhor amigo de Martin e os ajudou. Isso é maravilhoso, Cielo, de verdade. Mas só porque alguém faz algo bom, não significa que devo me submeter a uma relação que não quero. Eu também, assim como ele, não quero um relacionamento. E por isso, não estou a fim de ficar me esfregando por aí.
— Lisy, eu não estou dizendo para aceitar o que ele lhe propôs. Isso seria contra meus princípios. Eu só quero que você saiba que ele não é um homem bom só porque nos ajudou ou porque foi amigo do nosso filho. Eu só quero que você enxergue quem ele realmente é.
Cielo parou por um instante, como se ponderasse suas próximas palavras.
— Will precisa de ajuda — continuou, sua voz agora mais suave. — A vida não foi fácil para ele. Ele só tem medo de se apegar e depois terminar sozinho. Eu sei disso.
As palavras dela ficaram pairando no ar, ecoando de uma maneira incômoda dentro de mim.
Medo de terminar sozinho. Eu sei como é isso.
Fechei as mãos sobre meu colo.
— Bom, eu também não quero me apegar — minha voz saiu firme, mas algo dentro de mim hesitou. — Por isso prefiro ficar onde estou. Sem complicações para minha cabeça.
Cielo balançou a cabeça, sorrindo com tristeza.
— Vocês dois são tão iguais. Ambos com medo de terminarem sós, embora ele não assuma isso. Mais um motivo para estarem juntos.
Revirei os olhos, desviando o olhar para a janela enquanto ela colocava a forma de bolo no forno e limpava as mãos no avental.
Depois de um momento, Cielo puxou uma cadeira e se sentou ao meu lado. Sua presença sempre trazia uma sensação de conforto, mas naquele momento, suas palavras mexiam comigo de um jeito que eu não queria admitir.
— Eu ainda não acredito que ele te contou sobre o Wallace — ela disse, observando minha expressão.
Soltei um suspiro pesado.
— Pois é… Mas há algo mais e ele não quis me contar.
Cielo inclinou a cabeça levemente, como se pesasse suas próximas palavras.
— Pode ter certeza de que isso foi um enorme começo — ela disse, segurando minha mão por um breve momento. — Você está mexendo com a cabeça dele, Lisy. Ele não fala sobre a vida dele para ninguém.
Franzi o cenho, tentando decifrar o significado por trás daquelas palavras.
— Do que os pais dele morreram?
Por um momento, um silêncio pesado se instalou entre nós. Cielo abaixou o olhar e respirou fundo. Seus dedos entrelaçaram-se sobre a mesa, como se ela estivesse travando uma batalha interna sobre o que dizer.
Finalmente, seus olhos encontraram os meus.
— Eu já disse que não me sinto no direito de contar alguma coisa — disse, com um tom de pesar. — Mas a questão é que Will sentiu que podia dividir algo com você. Isso não faz com que você se sinta especial?
Meu coração apertou no peito.
Especial?
Eu queria acreditar nisso. Queria pensar que havia algo em mim que o fazia confiar. Mas como eu poderia me sentir especial quando tudo o que ele fez foi me afastar?
Balancei a cabeça, desviando o olhar.
— No momento, a única coisa que sinto… é tristeza.
E, no fundo, eu sabia que essa tristeza vinha do fato de que, apesar de tudo… parte de mim queria ser especial para ele a ponto dele confiar em mim.

***

Duas semanas se passaram, e até meus ossos pareciam doer. Me chamem de dramática, se quiserem, mas era como se a saudade tivesse se entranhado na minha pele, pesando sobre mim como um fardo impossível de ignorar.
Eu o queria a cada dia mais.
As noites eram as piores. Deitava na cama, fechava os olhos e tentava recriar a sensação das mãos dele deslizando sobre minha pele, os dedos fortes, a maneira como ele me segurava como se tivesse medo de me soltar. Mas tudo o que restava era o vazio. E esse vazio doía.
Havia noites em que eu ficava sob a água quente do banho até meus dedos enrugarem, deixando as lágrimas descerem junto com a água, lavando um sofrimento que teimava em se agarrar à minha alma. Mas eu não podia ceder.
Não podia cometer o mesmo erro que cometi com Michael.
Eu não iria até sua porta implorar amor.
Eu estava cansada. Cansada de ser sozinha. Cansada de amar em vão.
O tempo estava passando, e por mais que eu tentasse, não conseguia enxergar felicidade no fim da estrada. Não conseguia vê-lo lá.
Suspirei, encarando o teto. Talvez sair um pouco me ajudasse.
Levantei-me e fui pegar um calçado debaixo da cama, mas, ao tatear o chão, meus dedos tocaram algo frio. Franzi o cenho e puxei o objeto.
Meu coração parou por um instante.
Era um medalhão de ouro, pendurado em um cordão preto.
A letra "A" estava gravada nele.
O cordão que ele sempre usava.
Engoli em seco. Lembrei-me da noite em que ele o tirou junto com as roupas molhadas e o deixou sobre a mesinha antes de se deitar ao meu lado.
Droga.
Recordar aquela noite era como um soco no peito.
Olhei para o medalhão, os dedos traçando as bordas lisas e frias. O que significava aquele "A"?
Seria o nome de alguém que ele amou?
Will já amou alguém nesta vida?
O pensamento me incomodou mais do que deveria. Fechei a mão em torno do cordão por um momento, depois o guardei na gaveta, como se esconder aquilo pudesse enterrar também os sentimentos que estavam borbulhando dentro de mim.
Um barulho do lado de fora chamou minha atenção.
Meu coração disparou.
Corri até a porta e vi a caminhonete parada diante da casa.
Ele desceu do veículo devagar, os olhos fixos em mim, como se estivesse reunindo coragem para dizer algo.
Meu peito apertou.
Cada passo dele em minha direção fazia meu coração bater mais forte, como se soubesse que estava prestes a se perder completamente.
— Como vai? — sua voz saiu rouca.
Eu queria mentir. Dizer que estava bem. Que aquelas semanas tinham sido fáceis. Mas a verdade escorregou por entre os lábios antes que eu pudesse impedi-la.
— Eu estava indo bem… — minha voz falhou um pouco. — E você?
Ele deu mais um passo, ficando tão perto que eu podia sentir seu cheiro.
— Que bom que você estava… porque eu tenho estado em um inferno desde que você saiu daquela fazenda.
Sua mão tocou meu rosto, quente contra minha pele fria.
— Senti sua falta — ele disse.
Fechei os olhos por um instante, tentando controlar a avalanche de emoções que suas palavras provocaram dentro de mim.
— Demorou duas semanas para sentir minha falta? — perguntei, a voz carregada de mágoa.
Ele soltou um suspiro pesado, os dedos deslizando para minha nuca.
— Não. Demorou duas semanas para que eu parasse de me torturar, perdesse a sanidade, o controle e viesse atrás de você.
Sua confissão me atingiu como uma onda, levando consigo qualquer resquício de resistência que eu ainda tentava manter.
— Foram as piores semanas que já tive — ele murmurou.
E então, sem aviso, ele me puxou para si e me beijou.
E naquele momento, toda a dor, toda a saudade e toda a negação se dissolveram.
Porque, apesar de tudo… Eu o queria.

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