Heloyse
Uma dor latejante cortava minha cabeça como lâminas afiadas quando abri os olhos. A claridade me atingiu com força, obrigando-me a fechá-los novamente. Meu corpo inteiro pulsava em dor, e minha garganta parecia em chamas.
— Água...
Uma mão segurou a minha com firmeza.
— Oh, meu Deus! Você acordou, querida. Vou chamar o médico.
— Água... por favor...
Minha voz saiu rouca, quase um sussurro. Cielo apressou-se a pegar um copo e me ajudou a beber em pequenos goles. O líquido fresco deslizou pela minha garganta, aliviando a sensação de ardência.
— O que aconteceu? — perguntei, com esforço.
Cielo hesitou.
— Você não se lembra, querida?
Tentei puxar as imagens dispersas na minha mente.
— Mais ou menos... lembro da briga... do meu nariz... Will? Onde ele está?
— Calma! Não fale tanto. Vou chamar o doutor.
Quando o médico chegou, me examinou com atenção, sua expressão séria.
Mesmo depois da medicação, a dor continuava insuportável. Meu corpo inteiro latejava, e uma cólica aguda apertava meu ventre, me fazendo querer encolher.
— É normal sentir dores — ele disse, fazendo algumas anotações na prancheta. — Você sofreu um trauma considerável. O impacto causou um corte na cabeça, que precisou de seis pontos. Também fraturou o dedo anelar da mão esquerda, por isso está imobilizado. Seu nariz sofreu uma contusão e algumas veias se romperam, o que causou o sangramento. Você precisará manter as gazes por pelo menos 48 horas para conter o inchaço. Além disso, há hematomas pelo corpo, e a recuperação levará alguns dias.
Ele fez uma pausa antes de continuar.
— Também quero que fique atenta a qualquer sintoma como tontura intensa, vômitos ou visão turva. Qualquer sinal de piora precisa ser comunicado imediatamente. E, por fim, sugiro repouso absoluto.
Então, ele olhou para Cielo.
— Gostaria de falar com ela a sós.
Cielo me lançou um olhar preocupado antes de sair do quarto.
Assim que a porta se fechou, o médico abaixou a prancheta e me encarou.
— A senhorita sabia que estava grávida?
O ar pareceu sumir dos meus pulmões.
Minha mente girou.
Eu tinha suspeitado... mas, com tudo o que aconteceu, eu esqueci.
— Eu... — minha voz falhou. — Eu tinha desconfiado... mas... aconteceu alguma coisa?
O médico suspirou, adotando um tom mais cuidadoso.
— Sua gravidez era muito recente. Ainda não daria para ser confirmada por ultrassom, mas apareceu nos seus exames de sangue.
Meu coração acelerou.
— Como assim, “era”?
Um silêncio pesado se instalou antes que ele respondesse.
— O susto, o impacto do acidente e o estresse extremo contribuíram para a interrupção da gestação. Seu corpo começou um processo natural de expulsão. Ainda vamos monitorar, mas é provável que não seja necessário um procedimento de curetagem.
E enquanto o médico explicava todos os procedimentos, exames e cuidados, suas palavras se tornavam um ruído distante, abafado pela dor que se espalhava pelo meu peito. Eu só conseguia pensar no quanto eu queria aquele filho. No quanto, sem nem perceber, ele já fazia parte de mim.
Ele era um pedaço dele em mim. Algo nosso.
Se um dia tudo acabasse, se o destino nos separasse, eu ainda teria esse laço inquebrável, essa lembrança viva que me faria senti-lo perto, mesmo na distância. Mas agora... agora eu não tinha mais nada.
Eu perdi antes mesmo de ter.
E dei adeus a alguém que eu nunca conheci, mas que já amava mais do que qualquer coisa no mundo.
As palavras dele soavam como trovões ensurdecedores.
Meu peito estava apertado.
Eu perdi meu bebê.
Eu nem sequer tive tempo de imaginar seu rostinho, de sentir sua presença crescer dentro de mim. Não tive
tempo de desejar, de planejar, de amar mais do que já amava.
Eu o perdi antes mesmo de tê-lo.
Uma dor fria, devastadora, tomou conta de mim.
— Por favor... — minha voz saiu em um sussurro quebrado. — Não quero que ninguém saiba. Não agora.
O médico assentiu, respeitando meu pedido.
Pouco depois, chamou Cielo de volta e explicou sobre meu repouso, omitindo a parte que dilacerava minha alma.
— Como você se sente, querida? — ela perguntou, segurando minha mão com carinho.
— Como se um carro tivesse me atropelado — murmurei.
Ela deu um sorriso triste.
— Fico feliz em ouvir você falar. Você nos deu um susto enorme.
Me esforcei para sorrir, mas não consegui.
— Cielo... onde está Will?
— Na fazenda.
— Você pode avisá-lo que acordei?
— Já avisei.
— E... quando ele vem?
Cielo apertou minha mão e sorriu.
— Logo.
Fiquei sozinha depois que ela saiu.
E foi então que tudo desabou.
As lágrimas vieram sem controle.
Chorei em silêncio. Chorei de dor, de tristeza, de um vazio que parecia que nunca seria preenchido.
Minha mão deslizou até minha barriga.
E ali, só havia o nada.
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UM PONTO DE PARTIDA
RomanceTragédia e perda deixaram Heloyse à deriva, presa em um vazio onde a dor é sua única companhia. Em busca de um escape, ela se lança ao desconhecido-não para se encontrar, mas para esquecer, nem que seja por um instante. Sua jornada a leva a terras v...
