Heloyse
— Vou buscar mais um pouco de vinho.
Will se levantou e eu pensei que esse seria o momento perfeito para ir em busca de qualquer lugar longe dele.
Logo à frente, avistei Johnson. Ele me viu e acenou com um sorriso caloroso no rosto. Confesso que a beleza de Johnson era algo encantador, todavia, não se comparava, nem de perto com Will.
Eu não sabia ao certo o motivo pelo qual me sentia assim em relação a ele. Sabia que era normal admirar alguém, mas tinha algo mais profundo, e eu não conseguia decifrar. Desde que vi Will pela primeira vez, ele vinha tomando conta dos meus pensamentos. Na noite anterior, fiquei imaginando como seria beijá-lo, tocar seus cabelos… E então, tivemos aquele beijo. Um beijo desajeitado, mas ainda assim, nosso.
Quando penso nele, me perco naquele rosto. Cada curva, cada traço, era irresistivelmente convidativo. Será que era normal sentir algo assim por alguém que sabia como me tirar do sério?
Eu não sabia a resposta, muito menos o que como nomear aquele sentimento. Talvez eu tivesse deixado sua beleza me fascinar, mesmo quando ele agia como um perfeito idiota.
— Me concede esta dança, Lisy? — a voz de Johnson me tirou dos pensamentos.
— Johnson? Você me assustou…
— Me desculpe… Eu a vi aqui sozinha e pensei que poderíamos fazer companhia um ao outro. Que tal dançarmos?
Eu hesitei, olhei ao redor e vi Will conversando com um casal, enquanto segurava uma garrafa de vinho. Quando ele me viu, sua postura relaxada sumiu e mesmo eu não vendo seu rosto, sei que sua expressão não era a mais simpática.
Eu me levantei e Johnson ofereceu sua mão.
Que mal teria? Era só uma dança, e eu não precisava me incomodar com a opinião de Will. Aceitei a mão de Johnson e deixei que ele me conduzisse até onde as pessoas estavam dançando.
Enquanto a música tocava, Johnson aproximou o rosto do meu e sussurrou:
— Você está radiante, Lisy e, aqui, agora, parece ser o único lugar que eu deveria estar.
Eu sorri, tentando não pensar na declaração um pouco apaixonada que Johnson me deu e mudei de assunto
— Não sei dançar country.
— Não se preocupe, querida, eu sou a pessoa certa para essa missão — ele piscou.
Pacientemente, me ensinou alguns passos, e minutos depois, já estávamos rindo e dançando junto aos outros. O clima leve logo mudou quando a música passou a ser uma mais lenta e os pares se formaram novamente.
— Você se tornou amiga do O’Connor?
— Não! Quer dizer, só o vi algumas vezes.
— Entendi — respondeu Johnson, com um sorriso. — É obvio que vocês não são amigos. Isso seria impossível.
— Por quê?
— Porque ele não gosta da companhia de mulheres.
— O quê? Então ele prefere a companhia de homens? — perguntei, franzindo a testa, lembrando-me do beijo inesperado no banheiro.
— Não, Lisy — Johnson soltou uma risada — eu quero dizer que ele não tem amizade com mulheres. Quando se aproxima de alguma é porque a intenção é outra. Ele tem a fama de usar as mulheres e depois descartá-las como se fossem nada.
O comentário me pegou desprevenida e eu não pude disfarçar meu descontentamento.
— Por que resolveu me contar isso?
— Porque você é linda demais, e tenho certeza de que ele notou isso. As mulheres da cidade se jogam na frente dele, mas quando ele as tem, as descarta sem pensar duas vezes. Minha irmã foi uma delas.
— Eles namoraram?
— Você não entendeu? Ele não é do tipo que namora. Foi só por uma noite e minha irmã nutria uma paixão por ele, mas ele nunca quis nada sério. Eu a vi chorando tantas vezes por causa dele.
— E ela ainda gosta dele?
— Não. Isso foi há muito tempo. Hoje, ela mora em Nova York, casada e com dois filhos.
— Que bom! Fico feliz por ela.
Johnson colocou a mão no meu rosto e o acariciou.
— Só quero seu bem, Lisy. As pessoas nem sempre são o que aparentam ser.
Guardei suas palavras na memória.
A música terminou, mas antes que eu dissesse algo, uma voz firme atrás de nós, chamou a atenção.
— Vamos dançar, Heloyse?
— Como você pode ver, ela está dançando comigo.
Will se aproximou, ficando entre nós dois. Ele era mais alto que Johnson e, ao se aproximar, precisou inclinar o rosto para encará-lo.
— Não está mais, Johnson — se virou e ficou em minha frente.
Alguns pares ao nosso redor, pareciam interessados no que estava acontecendo.
— Ela não é obrigada, O’Connor — rebateu Johnson.
Will endureceu o semblante e novamente se voltou para Johnson.
— Ela consegue falar por si só, então, fecha a boca e deixa ela responder.
“O que está acontecendo?”, me perguntei.
— Acho melhor eu procurar a Cielo. Com licença — eu disse, tentando evitar aquele pequeno show.
Eu me preparei para correr, mas Will segurou minha mão e apontou na direção do pátio.
— Eu a levo.
“Por favor, não me toque...”, pensei, sentindo o calor subir pelo meu corpo.
— Quer que eu a leve, Lisy? — ofereceu Johnson.
Will olhou para Johnson e a expressão de desprezo era evidente.
Os rostos ainda estavam virados em nossa direção e eu estava começando a ficar nervosa.
— Johnson, obrigada pela dança e pela preocupação, mas acho melhor nos falarmos em outro momento.
Ele olhou para mim por alguns segundos, depois encarou Will com raiva, antes de se afastar.
Will saiu apressadamente, me levando consigo e em vez de irmos para o outro salão, ele me levou a um pátio.
— Poderia ir mais devagar?
Ele não parou, apenas continuou sem se importar se haviam pessoas ali. Em segundos, estávamos em frente a um portão social. Will me soltou, abriu o portão e fez o gesto para que eu passasse.
— O que você quer, William? Por que me trouxe aqui?
— Confie em mim — ele disse com a voz um pouco baixa.
Olhei para além do portão, ainda dividida entre a razão e a curiosidade. Não preciso dizer qual eu escolhi, correto?
Eu passei pelo portão e percebi que era um jardim isolado, pertencente aos White. A luz suave da Lua filtrava-se pelas folhas das árvores, criando um jogo de sombras e brilhos.
Sob o luar prateado, as árvores altas e esguias lançavam sombras delicadas pelo gramado bem cuidado, como se estivessem dançando ao som do vento. As folhas, banhadas pela luz da lua, brilhavam com um tom suave, como se estivessem pintadas de prata líquida. Entre as árvores, postes de ferro forjado, antigos e românticos lampiões que pareciam saídos de outro século, espalhavam uma luz cálida, amarelada, que competia com o brilho etéreo do céu, iluminavam gentilmente os caminhos de pedras que serpenteavam pelo jardim.
O perfume das flores estava no ar, doce e envolvente. Rosas trepadeiras subiam por arcos de ferro, suas pétalas delicadas parecendo rubis sob a luz das arandelas. Lavandas e jasmins preenchiam o espaço com suas fragrâncias, enquanto lírios brancos pareciam quase luminosos sob a luz.
No coração do espaço, havia um banco, com arabescos delicados e uma almofada macia em tom pastel, convidativo e sereno. Era o tipo de lugar onde as almas se encontravam sem precisar de palavras, cercadas pela quietude quebrada apenas pelo som distante de um riacho e o canto ocasional de um grilo.
Eu andei devagar, ainda impressionada e me sentei no banco, perdida em toda aquela beleza.
Olhei para Will, a luz do luar beijava sua pele, realçando suas feições, enquanto o vento brincava com seus cabelos. Ele se aproximou em silêncio, seus passos abafados pelo tapete macio de grama.
Meu coração batia forte, enquanto sua expressão era serena, como se aquele momento fosse algo que ele soubesse que aconteceria desde sempre.
Quando ele parou a minha frente, levantei o olhar, surpreendida, mas sem medo. Ele se curvou aproximando-se, sua mão alcançando meu rosto com um gesto tão delicado que parecia temer me machucar. Tão diferente do nosso encontro no banheiro. Seus dedos roçaram a pele da minha bochecha, e o mundo ao redor foi silenciado, como se a própria natureza estivesse prendendo a respiração.
— Você consegue brilhar mais que a própria lua — ele murmurou, sua voz baixa, carregada de admiração e ternura.
Eu dei um sorriso tímido.
De repente, aquela conexão foi quebrada, quando aos poucos fui me lembrando de suas duras palavras.
Me levantei e passei por ele, mas Will me segurou.
— Fique!
— Não sou uma garota de programa.
— Eu sei.
— E quando mudou de opinião se ainda estou usando o mesmo vestido vulgar? — Eu perguntei, arqueando a sobrancelha.
— Eu não devia ter dito aquilo. Eu realmente não queria dizer aquilo. Eu sei que não justifica, mas eu realmente não sei porque agi daquele jeito. Mas se quer a verdade, você é a mulher mais linda dessa festa. Não há nada de errado com seu vestido. A única coisa errada aqui, é fato de que você ainda está vestida nele.
Eu arregalei meus olhos.
— O quê?
Ele me puxou para mais perto dele, a respiração quente tocando minha orelha, enquanto suas palavras sussurravam como uma brisa suave:
— Eu quero tirar seu vestido — ele murmurou, a voz baixa e carregada de desejo.
O olhar dele se fixou em meus lábios, quase como se estivesse recordando o gosto deles.
Ele deslizou a mão pela minha cintura, indo até o decote em minhas costas, sentindo a textura da minha pele contra seus dedos.
Eu estava com a respiração um pouco acelerada com uma mistura de surpresa e antecipação.
— Quero deitar você sobre a grama —, continuou, sua voz quase um roçar —, sentir a maciez da sua pele enquanto nos perdemos um no outro.
A imagem de nossos corpos juntos, despidos e entrelaçados, dançando na liberdade da noite, me envolveu.
Ele me convidava a me entregar àquele momento, onde o mundo ao redor desapareceria e tudo o que restaria seria a eletricidade entre nós.
Seus olhos brilhavam com um misto de desejo e sinceridade, e eu me senti instantaneamente atraída, mesmo que eu quisesse manter a distância.
Eu respirei fundo, lutando contra a expectativa crescente em meu interior.
— Não sei se é uma boa ideia… — murmurei, mas minha voz trazia um deslize de entusiasmo, um convite disfarçado.
Em um movimento suave, passou a mão pelo meu cabelo, me fazendo sentir um arrepio súbito.
— Às vezes, as melhores ideias são aquelas que não planejamos.
Ele inclinou-se, os lábios quase tocando os meus, e a minha hesitação evaporou, como uma gota de chuva em um dia quente.
Então, em um impulso que parecia inevitável, ele me beijou. Foi um beijo intenso, carregado de emoção e desejo reprimido. Nossos lábios se encontraram com uma urgência que parecia ter sido contida por tempo demais. Eu senti o calor se espalhar por meu corpo, as barreiras que eu havia tentado erguer desmoronando diante da força daquele momento.
A minha resistência se desfez como fumaça, e, em meio ao beijo agarrei suavemente a nuca dele, como se estivesse tentando me ancorar naquele momento. O beijo se aprofundou, carregado de paixão e quando finalmente nos afastamos, meus olhos ainda estavam fechados, porque eu ainda queria prolongar aquela sensação.
Ao abri-los, encontrei seu olhar fixo no meu, uma intensidade que me fez corar.
De repente, seu olhar mudou, como se ele tivesse retornando ao mundo de lucidez.
— Eu não deveria ter me precipitado… — ele começou, mas eu o interrompi.
— Não se desculpe. Eu… também queria isso — minha voz era baixa, tímida, quase um sussurro, mas havia uma firmeza nela que não podia ser ignorada.
— Não… eu não deveria ter dito aquelas coisas no banheiro e eu não deveria ter trazido você e dizer essas coisas.
Eu pisquei, surpresa e então, o empurrei.
— Você me ofendeu, depois me tratou como se eu fosse algo precioso que você deseja e agora, se arrepende de ter me beijado. O que você queria? Provar algo para você? Provar que você estava certo quando me comparou a uma mulher vulgar? É isso, William?
— Não! — ele disse com firmeza e depois desviou o olhar, se afastando de mim.
— Talvez devêssemos voltar. Daqui a pouco as pessoas vão notar que sumimos e vão começar a me comparar com as inúmeras mulheres que você descarta.
— O que você quer dizer com isso?
Eu não respondi e comecei caminhar, mas sua voz me parou.
— Se eu quisesse descartá-la, eu teria continuado. Teria tirado sua roupa devagar, explorado cada parte de você, enquanto seus olhos me encarassem entre a hesitação e o desejo. Teria deitado você no chão e, acredite, eu enterraria fundo em você que cada toque meu ficaria marcado em sua pele e na sua memória. Eu ouviria seus gemidos tímidos no começo e faria questão de transformá-los em gritos, entregando a você cada pedaço de prazer que poderia arrancar de nós dois — ele passou as mãos no cabelo — mas quando tudo terminasse, você iria para casa, sozinha, com o corpo cansado e a mente confusa, porque, no fundo, saberia que não seria mais do que isso. Que no dia seguinte, a gente seguiria como estranhos, porque até então, é isso que somos. Dois estranhos que se atraem. E em nenhum momento, eu teria permitido nada além do que essa noite. É isso que você quer? Algo vazio que terminaria tão rápido quanto começou?
Eu senti o corpo inteiro estremecer, como se cada palavra dele fosse um sopro quente em minha pele. Minha respiração ficou presa, os olhos arregalados cravados nele, enquanto o peso do que ele dizia caía como uma onda avassaladora. O jeito como ele falou, a intensidade de sua voz rouca, a forma como seus olhos queimavam nos meus... era quase insuportável.
Eu mordi o lábio, desviei o olhar, tentando recobrar o controle sobre mim mesma. Mas não adiantava. A presença dele mexia comigo de uma forma que eu não sabia como lidar.
— Eu... preciso ir — murmurei, a voz baixa, quase inaudível.
— Em alguma coisa estamos concordando aqui.
Ele me encarou por um instante, medindo as palavras dele talvez, antes de finalmente dizer:
— Isso foi um erro.
A noite já não era mais tão bonita e todo aquele brilho e cores sob a luz da lua, se foram, enquanto eu me apressava cortando o jardim e entrando no pátio.
Algumas pessoas conversavam do outro lado e não perceberam nossa presença.
Will que vinha atrás de mim, tocou em meu braço e logo após falou:
— Heloyse…
Sua fala foi interrompida quando Thom se aproximou.
— Vocês estão aí.
Thom nos olhou por um instante, com o cenho franzido.
— Algumas pessoas comentaram que houve um desentendimento entre o Johnson e o Will. O que houve? — Thom perguntou.
— Johnson é um imbecil! — disse Will, enquanto colocava as mãos nos bolsos.
Eu revirei meus olhos.
Thom balançou a cabeça de forma negativa para Will, depois, me apresentou Simon White, pai de Patsy. E após as apresentações, o senhor White tentou me convencer a continuar ali.
— Teremos muitas outras atrações, Heloyse. Se você for agora, vai perder o melhor da festa.
Ele era baixinho, com uma barriga ampla, uma barba misturada com fios brancos que compensava a falta de cabelos na cabeça. Não era um homem que poderíamos chamar de “bonito”, no entanto, era muito simpático.
— Eu agradeço e eu adorei conhecê-los. Sua fazenda é muito linda e tudo estava de muito bom gosto, mas eu realmente gostaria de ir.
O senhor White compreendeu e educadamente, se retirou. Thom pediu para que eu esperasse por ele.
— Thom, não quero estragar a noite de vocês. Eu darei um jeito de ir para casa.
— Não tem problema algum. Eu a levo e depois, retorno — Thom rebateu.
— Eu levo Heloyse em casa. Eu já estava indo mesmo — Will se ofereceu.
Eu não queria estragar a noite dos Ferrel, então concordei e insisti para quem Thom ficasse. Ele aceitou se retirou, me desejando uma boa noite.
— Vamos? — perguntou Will.
Eu apenas comecei a andar no piloto automático em direção ao salão. Me despedi de Cielo, Jeremy e Megan e fiz elogios sobre a festa, para a mãe de Patsy.
Respirei fundo e fui até a mesa, pegar a minha bolsa e quando me virei, Will pegou em minha mão.
Como pode o toque de uma mão ser tão mais profundo que muitos outros gestos?
— O que está fazendo? — questionei.
— Me deve uma dança.
— Eu posso muito bem soltá-lo e ir embora.
— Ou pode dançar comigo e provar para si mesma que eu não a afeto — ele disse, colando os lábios no meu ouvido.
— Você não me afeta.
— Prove! — ele disse e sorriu desafiador.
Não havia uma maldita maneira de responder. Não quando ele falava perto e com o corpo junto ao meu.
Dançamos quietos, apenas sentindo o corpo um do outro. A dança era lenta, fora do ritmo da música e em algum momento, eu estava com a cabeça apoiada nele de forma tão íntima, que pude ouvir seu coração. Batia controlado, enquanto o meu, parecia bater descompassado.
"Eu sou um cara mau" , dizia a letra da música.
Ele levantou uma das mãos e acariciou o meu rosto. Os olhos pareciam querer olhar no fundo da minha alma. Ele estava com os lábios um pouco separados, como se quisesse falar alguma coisa, mas ao invés de falar, ele me puxou para mais perto e me abraçou forte. Não estávamos mais dançando... Estávamos apenas ali, parados e abraçados, como se dependêssemos disso.
Quando a música acabou, suas mãos me deixaram. Ele olhou em meus olhos e deu um pequeno sorriso.
— Vou levá-la para casa.
Eu balancei minha cabeça e observei como algumas pessoas nos olhavam e tentavam disfarçar. Parabéns. Demos nosso segundo show.
Ainda segurando a minha mão, me levou até o estacionamento.
Depois de um tempo, Will soltou minha mão e abriu a porta da caminhonete para que eu entrasse.
Eu entrei, ele fechou e rapidamente, abri o vidro. Quando Will ia dar a volta pela caminhonete, a voz de Patsy, chamou nossa atenção. Ela tinha um copo de vinho em uma das mãos e andava um pouco desalinhada.
— Você já vai? — a voz um pouco alta.
— Sim — ele respondeu.
— Que pena. A noite nem acabou, William. Algumas mulheres querem dançar com você.
Era evidente a embriaguez em sua voz.
Ele suspirou, parando com relutância, como se calculasse o peso de uma conversa inevitável.
— Você está bêbada. Deveria descansar — ele responde firme, cruzando os braços como quem tenta impor uma barreira.
Eu observei a cena pelo retrovisor e um incômodo foi tomando conta de mim. A noite precisava acabar rápido.
Como se sentisse a minha presença. Patsy olhou para mim, inclinando a cabeça com um sorriso enviesado.
— Ah, agora entendi… — ela diz arrastando as palavras, os olhos fixos em mim. — Vocês estão transando? — ela riu, novamente. — Seu rostinho de santa nunca me convenceu, Heloyse.
— Não é da sua conta, Patsy — a voz dele agora soa mais cortante, mais controlada, como se quisesse evitar chamar mais atenção. — Você precisa ir.
— Eu não quero. Eu quero me embebedar e esquecer que você é um desgraçado.
Will ficou quieto por uns segundo e depois lhe deu as costas. Patsy jogou longe a taça com vinho e agarrou o braço dele, forçando-o a olhar para ela.
— Ela vai ser mais um brinquedo seu, porque no final das contas, é isso o que você faz com todas.
— Se você sabe disso, por que corre atrás de mim, Patsy? Já tentou se valorizar ao menos um pouco?
— Eu odeio você. Odeio a forma como me despreza.
— Eu nunca prometi nada a você. Eu já disse alguma palavra que a fizesse pensar que eu queria algo a mais?
Ela permaneceu calada por alguns segundo, os resquícios de amargura transparecendo em seus olhos.
— Entra agora, antes que eu chame alguém para te levar.
Ela deu uma passo para trás, cambaleando, enxugou os olhos e se afastou, seguindo para o salão.
Era visível o quanto ele estava tenso. Entrou na caminhonete, mas não disse uma palavra sequer. O silêncio que se seguiu, era quase tão doloroso quanto a cena que vi lá fora.
A caminhonete estacionou em frente à pequena casa de madeira em meio ao silêncio desconfortável que tomava conta do veículo. O motor ainda roncava baixinho, ecoando a tensão que pairava entre nós. Eu olhava para minhas mãos no colo, tentando evitar o contato visual.
O acontecimento do jardim ainda parecia pairar no ar, misturado com a cena que presenciei entre ele e Patsy.
— Obrigada pela carona — eu disse, em seguida, abrindo a porta e descendo da caminhonete.
— Nem todo erro é motivo de arrependimento — ele disse, finalmente, com a voz firme, mas não desprovida de uma suavidade intencional. — Alguns... alguns a gente quer repetir.
Eu o encarei por um breve instante, os olhos piscando rápido, como se tentasse processar o peso daquelas palavras. Meu coração batia acelerado, mas eu não conseguia decifrar se era por raiva, vergonha ou algo que não queria admitir. Sem responder, eu fui embora, sem olhar para trás.
Ele permaneceu lá, imóvel enquanto eu abria a porta de casa.
Assim que entrei e fechei a porta, eu me encostei contra a madeira, respirando fundo. A frase dele ecoava em minha mente, uma mistura de provocação e confissão. Então, pelo vidro da janela ao lado, vi as luzes traseiras da caminhonete desaparecerem na estrada, acompanhadas pelo som do motor que lentamente se apagava na distância.
Com a casa mergulhada no silêncio, uma lembrança súbita surgiu:
"Eu sou um cara mau", dizia a música.
Naquela noite, deitada na cama, as emoções ainda dançavam confusas em minha cabeça. Ele era um problema, uma confusão. Mas, de alguma forma, eu dormi com um sorriso tímido nos lábios, pensando no quanto ele era bonito.
Free Fallin: Escrita por Tom Petty e Jeff Lynne em 1989 e reproduzida em 2008 por John Mayer, que a deixou entre as 100 músicas mais tocadas nos EUA no mesmo ano.
John Mayer: Cantor, guitarrista, compositor e produtor musical norte-americano.
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UM PONTO DE PARTIDA
RomanceTragédia e perda deixaram Heloyse à deriva, presa em um vazio onde a dor é sua única companhia. Em busca de um escape, ela se lança ao desconhecido-não para se encontrar, mas para esquecer, nem que seja por um instante. Sua jornada a leva a terras v...
