Capítulo 58

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Olhei para o teto sentindo meus olhos arderem, como se vários grãos de areia habitassem neles. Tentei engolir o bolo de emoções que se formava em minha garganta, me impedindo de respirar corretamente. Levei a mão até o pescoço, não conseguindo encontrar ar.

- Ei, se acalme- Ouvi uma voz distante e uma mão pousar sobre minhas costas quando me inclinei desesperada, sentindo falta de ar e ardência em meus pulmões. Por um momento não reconheci a voz e procurei com os olhos arregalados a origem de onde tinha vindo.

Daniel.

Olhei no fundo de seus olhos, que transmitiam preocupação e uma mensagem clara: Estou aqui por você. Aos poucos meu coração se acalmou, e o ar foi entrando dolorosamente em meus pulmões, minha pulsação ficando cada vez mais lenta. Fechei meus olhos por um momento, desejando que nada daquilo estivesse acontecendo.

- Tudo bem?- Daniel sentou na beira da cama, me ajudando a deitar novamente.

Após ele me tirar do Instituto, vim todo o caminho para casa chorando e gemendo no banco de trás, até cair em um sono profundo. Lembrei-me da minha discussão com Jacob, como gritei que o odiava, quando na verdade deveria ter dito que o amava incondicionalmente.

- Você sabia, não é?- Murmurei, tentando segurar as lágrimas. Daniel nem se quer tentou fingir não saber do que se tratava. Ele respirou fundo, me dando a confirmação antes mesmo de abrir a boca.

- Ele me contou quando quase o soquei por ter te traído com Linda.- Passou a mão em meus cabelos, fazendo um carinho ali. Sua voz calorosa era mansa e baixa.- Me perdoe por não ter te contado antes, mas ele me implorou para que eu não fizesse. Jacob realmente achava que seria melhor assim, e eu não pude opinar, uma vez que já estava feito.

- Você iria me contar quando ele fosse para a guerra?- Procurei seu rosto, não sabendo qual seria sua resposta, uma vez que era leal a Jacob tanto quanto era a mim.

Ele negou com a cabeça.

- Não. Não era o que Jacob queria.

Assimilei sua resposta convicta. Então, se não fosse por Linda, eu nunca saberia. Jacob iria morrer como um traidor desonrado, porque era assim que queria. Em minha memória, ele sempre seria meu primeiro amor sem caráter. Era horrível pensar desta forma.

Pensei em como, assim como Jacob, Daniel também não se importava com minha opinião, meu querer ou meus desejos, e senti a raiva começar a surgir em meu coração.

- Saia, por favor.- Pedi, sem forças para falar qualquer coisa mais.

- Clary...

-Por favor, Daniel- Supliquei, me virando para o outro lado, não conseguindo o encarar.

Pude sentir seu olhar sobre mim por alguns minutos, até finalmente ouvir a porta abrir e fechar logo em seguida.

Olhei para o relógio, que marcava 10 horas da manha, e a única coisa em que conseguia pensar era em Jacob. A esta hora ele já estava dentro de um avião, indo para a base militar perto de Aslan. O que estaria se passando em sua cabeça?

Estaria pensando em mim?

Não.

Provavelmente pensava em si mesmo e em sua morte.

Rolei para fora da cama me sentindo podre por dentro. Entrei de baixo da água fria do chuveiro, não me importando com o frio que fazia em Nova York. Eu precisava esfriar a cabeça, decifrar meus sentimentos e colocar as ideias no lugar.

Jacob na verdade não havia me traído.

Jacob na verdade me amava como ninguém havia feito antes.

Jacob estava indo para a guerra.

Jacob iria morrer.

Estas quatro frases me atormentaram até o anoitecer e até a metade da noite. Passei o dia na cama, não levantando nem para comer. Meus cabelos estavam ensopados, mas não liguei quando minha garganta começou a doer.

Meu despertador tocou as 6, como sempre, e rolei na cama, continuando a pensar em Jack, e em como seria horrível não poder mais o ver entrando no refeitório com seu jeito arrogante, ou apreciar seu sorriso sarcástico. Nunca mais ouviria sua voz, ou sentiria o cheiro de lavanda com limão que tanto agradava meu olfato.

Antes que as lágrimas pudessem cair, me levantei e comecei a me arrumar. Como no dia anterior, saí porta a fora sem esperar a carona de Daniel.

Eu não queria o culpar, mas parecia inevitável. Eu o amava, mas ele sabia de toda a verdade e não havia me contado. Balancei a cabeça, tentando me ver livre dos pensamentos que me dilacerava aos poucos. Sinceramente, eu só queria um culpado para tudo o que estava acontecendo, e esse não era o papel do Dani. 

Tirei a neve do cabelo enquanto seguia até o elevador do prédio da saúde e assim que cheguei na sala, vi Victória sentada em seu lugar de sempre. Ela veio ao meu encontro e me abraçou forte, tentando me consolar. Me segurei para não chorar, para não gritar, e ignorei todos os meus sentimentos como vinha fazendo.

- Como você está?- Se afastou de mim, mas não soltou minhas mãos. Seus olhos carregavam tanta compaixão, tanto amor.

- Tentando lidar com tudo- Sorri fraco, dando de ombros.

Nós nos sentamos e ficamos em silêncio, esperando o professor entrar para começar a aula. A tensão não estava somente entre nós duas, mas entorno de todos na sala, e arriscava dizer que por todos os corredores do Instituto. Ninguém sabia o que dizer, ou fazer, naquelas circunstâncias. E realmente não importava, pois nada que fizéssemos iria melhorar a situação.

Neste momento milhares de soldados estavam dando suas vidas por nosso país. Sofrendo fisicamente, com frio, fome, bombas e armas, e psicologicamente, matando pessoas inocentes e vendo seus parceiros morrerem em combate.

Raiva tomou conta de mim.

Eles estavam sofrendo as consequências de uma decisão que nao havia sido tomada por eles, mas sim por velhos políticos, que não chegariam nem perto da linha de frente, e assistiriam tudo de longe. Eu sabia o que estava sendo proposto para enfrentar ao me inscrever no Instituto, tinha consciência do porque ele havia sido criado e seu propósito. Eu estava disposta a ir para a guerra, não por "meu país", e sim pelas tropas, para ajuda-los. Eles precisavam de nós, os enfermeiros e os médicos, e eu estava mais do que a fim de ser útil para alguém.

Me peguei por um momento me lamentando por não poder ir para a guerra e ajudar de alguma forma. Anos de estudos me separavam da linha de frente, onde os especialistas da área da saúde ficavam. Contudo, como os noticiários estavam notificando, as coisas realmente pareciam feias entre os países. Essa guerra poderia durar meses, ou anos.

Olhei para Victória ao meu lado. Meu namorado já estava na batalha, e mais 3 semestres separavam o seu do mesmo destino.

Minhas entranhas se contorceram dentro de mim ao imaginar Daniel indo embora, como a maioria faria.

*                                  *                               *  

Coitada não só da Clary, mas de todos em si :(

Comentem o que estão achando e o que acham que vai acontecer daqui pra frente, e não esqueçam de votar.

Até segunda!

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