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Eu havia ido até a cama em que havia deixado minha mochila e a coloquei mais para o lado, me deitando no colchão e colocando meus fones em meus ouvidos. Não houve conversa depois que eu soltei o frasco de antidepressivos de Minashigo na lixeira, e quando eu olhei em sua direção, ele estava comendo o que eu havia trazido para ele. Fechei os olhos por um instante, deixando o tempo passar com a música reproduzindo nos fones, tempo suficiente para Minashigo terminar a refeição, e também, para que nuvens negras carregadas de água surgissem no céu, obscurecendo completamente o clima. Me sentei na cama, trazendo meus joelhos para mais perto de mim, e os abracei, enquanto observava o céu escurecido através do vidro da janela, ao mesmo tempo em que deixava os fones pendurados pelo arco em minha nuca. Pela visão periférica, pude ver Minashigo se despreguiçando lentamente, enquanto levantava de sua cama.
- Já estou bem melhor! Obrigado mesmo!
- Tudo bem! - Apesar da resposta, meus olhos não desviavam da janela.
- Podemos seguir caminho agora! - Mesmo não olhando, pude ouvir Minashigo tirar sua maleta do chão e vir até mim. - Erina? - Eu olhava a tela de meu celular, que indicava ser onze e meia.
- Certo! Vamos!
Eu me virava para esticar minhas pernas e me levantar da cama, e nisso, eu pegava minha mochila, colocando-a em meu ombro direito. Ao me virar na direção da porta, Minashigo já estava no corredor, com a porta aberta e sua mão direita sobre a maçaneta, me esperando. Passei por ele, dando de ombros, e ele riu em resposta, fechando a porta e trancando-a logo em seguida. Descemos as escadas até chegarmos ao térreo, onde Minashigo iniciou outra conversa com o senhor da recepção, devolvendo as chaves e pagando a nossa estadia, mesmo eu sendo contra, mas não protestando, imaginando que Minashigo usaria o repouso de argumento para agradecer sobre os meus cuidados. Ao terminar, seguimos até a entrada, saindo do hotel e atravessando a rua até a rodoviária do outro lado. Chegando lá, o tráfego de pessoas pelo local aumentou de modo significante, devido ao horário, e bem na extrema ponta do lugar, um ônibus de cores diferentes do habitual chamou a minha atenção. Apontei o dedo em sua direção, e Minashigo pareceu entender o que eu sequer havia perguntado.
- É o ônibus que passa pela fronteira e entra na Finlândia!
- Espero que a cidade mais próxima da fronteira tenha algum hotel decente! - Eu respondia, olhando outra vez as horas no celular.
- Está pensando em fazer outra pausa?
- Agora são onze e trinta e três da manhã! Se levarmos em conta o fuso-horário de seis horas entre a Rússia e o Japão, podemos dizer que já são lá pelas cinco e meia no Japão! Normalmente um ônibus leva em média três horas de uma cidade para a outra, o que nos fará chegar em território finlandês às oito e meia da noite do horário japonês! Não será muito inteligente da nossa parte continuar seguindo caminho a partir desse horário!
- Eu devo admitir! Você realmente estudou cada detalhe desse trajeto!
- Aquela viagem de metrô ajudou bastante também! - Eu me virava para uma das lanchonetes abertas na rodoviária, indo até ela.
- O ônibus é do outro lado!
- Precisamos comprar algo pra comer, nem que seja algo leve! Serão três horas de viagem!
- Mesmo que tenhamos acabado de comer?
- Por isso que eu falei de algo leve! Não é bom ficar acumulando fome e deixar para comer apenas no almoço e jantar!
- Tudo bem! - Minashigo levantou as mãos, se rendendo finalmente sobre a minha sugestão. Fomos até a tal lanchonete onde uma moça nos recebeu, e pela gentileza, acenamos e sorrimos de volta para a mulher, e Minashigo olhava a lista do cardápio em seguida, enquanto eu olhava para a estufa em nossa frente. - Sabe o que vai pedir? - Apontei para alguns enrolados de repolho que estavam dentro da estufa.
- Sabe o que é isso?
- Golubtsis! Normalmente tem arroz, carne e verduras dentro do repolho!
- Peça dois de cada, por favor!
- Chetyre Golubtsa, pozhaluysta! [Quatro Golubtsi, por favor!] - E ao pedido de Minashigo, a moça pegou quatro dos enrolados de repolho, enquanto eu tirava minha mochila das costas, e só então percebi que a mesma estava mais leve. Eu havia esquecido algo no hotel.
- CHE ODIO!!! Como eu pude esquecer a marmita de plástico no hotel? - Eu me preparava para voltar para o hotel, enquanto Minashigo pegava e pagava nosso pedido.
- Espere, Erina! - Segurando a sacola do pedido com a boca, Minashigo deixou a maleta no chão e a abriu, tirando da mesma a bendita marmita de plástico. - Eu não ia deixar você esquecer isso! - Minashigo abriu o plástico, colocando os enrolados no mesmo e me entregando.
- Obrigada! Minha mãe teria me matado se eu tivesse perdido essa coisa! - Enquanto Minashigo gargalhava, eu abria minha mochila, guardando a marmita com o novo lanche já incluso, e percebendo que os sanduíches de atum já não estavam mais dentro do plástico. - Agora sim nós podemos ir!
Minashigo tomou a frente, indo até o ônibus, e eu ia logo em seguida. Ao entrar no veículo, Minashigo falou com o motorista, pedindo pelas nossas passagens, e então foi tomado o procedimento padrão dos outros ônibus: O motorista digitava algo em uma pequena máquina, levava o dispositivo em nossa direção, nós apontávamos a câmera do celular na tela da tal máquina e a mesma fazia um som, indicando que as passagens estavam pagas. Passando pela cabine do motorista, vimos que o ônibus tinha o tal padrão de pares de bancos virados de frente um para o outro, e nisso, fomos para mais a fundo do veículo, chegando nos últimos assentos onde Minashigo se sentou em um dos lugares virados para o fundo do ônibus, colocando sua maleta no banco do lado da janela e se sentando no banco do corredor, enquanto eu fazia o inverso, encostando a cabeça no vidro da janela enquanto apoiava meu rosto sobre minha mão esquerda, ainda observando aquelas nuvens escuras que ainda pairavam sobre o céu.
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Ficción GeneralExplorações, registros, conhecimentos, comentários sobre tais coisas, eram coisas que Erina admirava no homem da sua vida, seu pai. Desde sempre, a garotinha do papai mostrava interesse na profissão do homem que cuidava da família, e em resposta, o...
