Eu ajudava meu pai a se locomover até a outra sala, e ao chegarmos no outro cômodo, Sajin ofereceu a bengala que usava para caminhar para meu pai, que aceitou de bom grado. Com a bengala em mãos, meu pai se soltou de mim, tentando dar alguns passos com o auxílio do objeto de madeira na mão esquerda, dando espaços pequenos entre cada passo como se fosse um recém-nascido engatinhando. Eu me sentei de volta na cadeira onde estava antes, e ao me sentar, o som da porta da frente se abrindo era audível da sala de jantar.
- Adivinha com quem eu encontro no caminho de volta?
A voz de Luna ao passar pela porta transmitia uma expectativa razoável, como se já soubéssemos parte da surpresa... O que era verdade. Ethan servia seu pai, então todos nós naquele cômodo viram o momento em que Minashigo passou pela porta principal da casa... Acompanhado e de mãos dadas com Mari. Meu pai dava um sorriso sincero junto de Sajin que também sorria com uma alegria genuína no rosto, mas Ethan e eu tentávamos disfarçar o espanto sobre a possível miragem que estava na nossa frente. Leliel havia dito que Askin tinha feito uma trilha de sangue e que Mari havia sido uma de suas vítimas, então o que estava acontecendo agora? Teria Leliel mentido? Não parecia ser o caso, já que seres como os angélous não precisariam chegar nesse nível para manipular algo ou alguém.
- Eu tinha estranhado que Minashigo tinha vindo com uma garota que não fosse você, Mari! - E em resposta a fala de Sajin, Mari soltou da mão de Minashigo, correndo até o senhor já sentado, o abraçando.
- Que saudades do meu pai "não de sangue"!
- Ela estava andando por aí, fazendo compras! Foi por isso que ela só veio agora! Foi muita maldade da sua parte ter deixado ela sozinha, Minashigo!
- É, foi mal haha! - Minashigo envergonhado coçava a nuca com a mão direita após a dura que recebera de Luna, até que seu rosto vermelho deu lugar a um semblante sério. - Ethan e Erina! Eu posso falar com vocês, lá fora? - Apesar da pergunta, minha atenção foi virada para as janelas cobertas. Eu tentava procurar meu predador que aparecia com as nuvens carregadas, até que Ethan pousou a mão esquerda em meu ombro direito, me fazendo virar em sua direção por instinto.
- Tudo bem! A chuva já passou! - Eu assenti, me levantando e seguindo Ethan, que seguia Minashigo para fora da casa. Ao sairmos, Ethan fechou a porta atrás de nós, cruzando os braços e virando seu olhar atualmente sério, quase bravo, para Minashigo. - O que foi agora? Vai falar que eu estou tentando envenenar meu pai?
- Eu já falei que eu não devia ter dito aquilo, tudo bem? Eu já pedi desculpas!
- Eu sei! Mas esse tipo de coisa não é algo que se esquece de forma fácil! - Eu sabia que se eu não fizesse nada, aquela conversa não iria sair daquele ponto. Nisso, me virei para Minashigo.
- O que você queria falar com a gente?
Com uma expressão relaxada no rosto, Minashigo apontou para duas pessoas vindo em nossa direção. Uma delas era o disfarce humano chamado de Carter que Mavlov usava para circular no meio de nós humanos, mas aquele que o acompanha era alguém completamente novo. Tinha cabelos loiros, médios e cacheados e olhos azuis, e sua vestimenta era quase a mesma da de Carter, com a diferença de que as suas pareciam ser uma versão limpa das roupas do outro, e seu colete estava desabotoado.
- São eles que querem falar com vocês! - Minashigo se virava para ficar ao nosso lado, também encarando os outros dois que haviam se juntado.
- Olá outra vez, Ethan e Erina. Como está o seu pai, Erina?
- Ele vai bem! Apenas com sono e com fome! - Eu me virava na direção do homem junto de Mavlov enquanto falava. - E você seria o tal de Swinton?
- Tem uma perspicácia bem elevada, para uma humana. - A voz de Swinton tinha um tom neutro, mas que parecia ser tão séria quanto a de Carter.
- Se "Carter" consegue usar uma aparência humana para andar por aí sem chamar a atenção, então eu já poderia imaginar de que os angélous conseguissem fazer o mesmo!
- Foi Erina quem desvendou sua charada, na porta de seu templo escondido. - E a frase de Carter deixava Swinton surpreso, por mais que isso parecesse ser algo impossível. - Mas não foi por isso que viemos aqui. Como vocês dois já viram, Rosemary acabou de entrar por essa porta sendo que Leliel havia dito que ela estava morta, e isso é verdade, e era por isso que eu precisava da ajuda de Minashigo. Nesse curto período de tempo, Minashigo se sacrificou para que pudéssemos trazer de volta aqueles que foram mortos por Leliel e Askin.
- Espera um pouco! Vocês literalmente trouxeram os mortos de volta a vida? - E Carter concordou com a cabeça, respondendo a pergunta de Ethan.
- Foram ao todo vinte e seis pessoas que formaram o rastro de sangue de Askin, então precisávamos criar vinte e sete corpos novos para aqueles que seriam trazidos de volta, contando com Swinton que havia sido despertado de seu sono. Minashigo nos ofereceu seus dedos, braços, pernas e orelhas para criar esses corpos, ao mesmo tempo em que recriávamos seu corpo a partir da sua própria pele, como se fosse um réptil, e o poder de Swinton o ajudou a suportar tudo isso. - Ethan e eu olhamos para Minashigo, tentando sentir o desconforto que deve ter sido passar por todos esses acontecimentos. - Todos os vinte e sete corpos eram idênticos, até que cada alma colocada dentro modelou o corpo conforme sua real aparência anterior. - E com o fim da explicação, Ethan se dirigiu a Carter.
- E o que vocês irão fazer agora?
- Manteremos exílio até que outro angélous desperte. Esperamos não precisar da ajuda de vocês outra vez, mas se acabar sendo o caso, espero contar com o seu apoio. - E com a resposta de Swinton, Ethan parecia estar satisfeito. E de repente, Carter chegou ainda mais perto de Ethan e eu.
- Eu sei que não preciso falar isso para vocês dois, mas eu peço para não contar sobre isso para ninguém. Especialmente para Sajin. - A mão esquerda de Carter pousou sobre o ombro esquerdo de Ethan. - Eu temo em perder o respeito que seu pai tem por mim, por eu estar quebrando o ciclo de vida e morte. - Com o aviso dado, Carter se afastou, pousando a mesma mão de antes agora sobre Swinton. - Até algum outro dia no futuro, quem sabe. - E do nada, ambos sumiram para sabe-se lá onde.
- O criador de tudo tem medo de perder o respeito que meu pai tem por ele! Agora eu vi de tudo! - Apesar do deboche em sua fala, a voz de Ethan parecia ter uma surpresa genuína.
- Se me dão licença, eu vou entrar! O cheiro daquele risoto já tá chegando aqui fora!
- Era só o que... - E sem esperar a conclusão da fala, Minashigo adentrava na casa, deixando apenas Ethan e eu do lado de fora. Instintivamente, olhei para Ethan com um sorriso, o que levou uma expressão de surpresa para seu rosto. - O que foi?
- Só estava pensando no que seu pai poderia ter feito pra Carter temer tanto em perder o respeito dele, além de ajudá-lo a recuperar seu corpo! - Eu dei de ombros, e entrei novamente na casa, a tempo de ouvir Ethan entrando também, fechando a porta atrás de si.
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- Senhor Mavlov. Pude perceber lá no templo, enquanto eu dividia o corpo de Minashigo, que você se surpreendeu com as palavras de desespero de Erina.
- Aquela garota... Ela me lembrou de quando conheci alguém tão honrado quanto Sajin. - Eu me virei para a Terra, e percebi que Swinton também fazia o mesmo. - É a questão de honra que faz alguém honorável!
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Ficção GeralExplorações, registros, conhecimentos, comentários sobre tais coisas, eram coisas que Erina admirava no homem da sua vida, seu pai. Desde sempre, a garotinha do papai mostrava interesse na profissão do homem que cuidava da família, e em resposta, o...
