A água havia esquentado um pouco, e do jeito que ali estava, eu a usei para umedecer a toalha em minhas mãos, torcendo-a para tirar o excesso de água e fazendo com que a mesma ficasse com a temperatura do conteúdo da panela. Com a toalha em mãos, a dobrei algumas vezes, e fui até Minashigo, que estava deitado de lado, de frente para a parede.
- Vira pra cima! - E ele me obedeceu, e nisso, eu coloquei o pano quente em sua testa.
- Uma toalha molhada na água fria ou gelada não seria melhor?
- E arriscar te matar com um choque térmico, ainda mais colocando algo gelado na sua cabeça? Não, obrigada!
Minashigo riu, apesar da minha preocupação, e com isso, eu fui até a outra cama do quarto, onde havia colocado minha mochila. Abri o zíper da mesma, e de dentro dela, retirei a marmita de plástico contendo as duas últimas metades dos sanduíches de atum que ainda restavam, e a deixei do lado, em cima da cama. Ao fechar o zíper da mochila, olhei de relance pela janela, e senti que a minha visão e imaginação estivessem me pregando algum tipo de peça. Olhando o cenário do lado de fora da janela, tive a impressão de ter visto um vulto masculino olhando na direção da janela de nosso quarto. Olhando em nossa direção. O homem usava roupas sociais e parecia ter algo pendurado em suas costas, e ao passar de um ônibus circular, tal figura sumiu instantaneamente.
- (Forse non sto bene neanche io!) [Talvez eu também não esteja tão bem!] - Fechei a janela, deixando apenas o vidro entre os lados de dentro e de fora. Peguei a marmita de plástico e, com ela em mãos, cruzei o quarto até Minashigo outra vez, deixando a marmita e seu conteúdo ao lado de seu travesseiro. - Eu vou sair pra comprar alguma coisa que sustente melhor! Se você acabar tendo fome e eu não tiver voltado ainda, pode comer o resto dos sanduíches de atum!
- Tudo bem! Tenha cuidado!
- Eu terei! E descanse agora!
Minashigo levantou o punho esquerdo, estando fechado, e então levantou o polegar, indicando que havia entendido o recado. Fui até a porta do quarto e a abri, pegando a chave da maçaneta e passando para o corredor, e trancando o quarto do lado de fora. Antes de começar o que pretendia fazer, lembrei de tal figura, e senti um certo desconforto em meu braço ainda enfaixado. Aquilo... Aquilo tinha sido muito estranho.
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Quando Erina saiu do quarto, pude ouvir o som das chaves sendo giradas do lado do corredor, deixando claro que ela havia levado a chave consigo, e fazendo com que eu me arrependesse de não ter pedido uma chave extra na recepção. Coloquei a mão direita sobre a toalha que estava em minha testa e me virei de costas para a parede, e lá estava a marmita de plástico em frente ao meu rosto. Suspirei encarando aquilo, me culpando pelas escolhas recentes que venho tomando, e então me virei outra vez para cima, encarando o teto do quarto, e furtivamente, o sono veio, tomando conta de mim.
(- Você tem alguma ideia de quando irá voltar? - Eu perguntava, enquanto ela arrumava a última mala.
- Não sei direito! Ainda tem tanta coisa que eu quero saber e... Isso me pegou muito de surpresa! Ainda nem acredito que isso tudo vem acontecendo!
- Eu sei que pode não parecer, mas eu estou feliz por você! Eu só... Como eu posso dizer sem parecer alguém mandão?
- Você está preocupado, não é? - E ela se vira para mim, levando ambos os braços até meus ombros e cruzando-os atrás de minha cabeça.
- Falando desse jeito, até parece meio infantil! - Sem graça, levei a mão esquerda, coçando a nuca.
- Eu te entendo, Shigo! Afinal... - Mari então tira seus braços que ainda estavam ao meu redor, e levanta a mão direita bem perto de meu rosto, dando foco na aliança prateada em seu dedo anelar. - Eu não teria aceitado me casar com você, se eu não soubesse que essa sua preocupação é genuína! - Pensei em algo para dizer, mas as palavras não vinham, e o sentimento surgiu em forma de abraço ao trazer Mari para mais perto de mim, e envolvê-la em meus braços, escondendo meu rosto em seu ombro direito.
- Tome cuidado!
- Você também! Eu prometo não demorar! - Mari então pega meu rosto com ambas as mãos, e com nossos olhos fazendo contato, nossos lábios se tocaram.)
Eu levantava minha mão esquerda até o máximo que eu podia, encarando-a, como se eu pudesse alcançar o toque de alguma coisa que não estava visível aos olhos.
- Já fazem cinco meses, não é? - Pensei em levantar e buscar minha maleta que havia ficado ao lado de minha cama, mas então a porta do quarto começou a se abrir, e eu voltei para a minha posição original na cama. Apesar de estar com o rosto para cima, pude ver que era Erina quem entrava.
- Espero não ter demorado! - Erina trazia uma sacola junto de si, cheirando bem.
- Eu acabei pegando no sono, então não sei se você demorou ou não!
- Eu resolvi comer algo na rua mesmo! Peguei uns Shashlyks com cebola e tomate! - Erina se aproximou de mim com a sacola, deixando a mesma na cama. - Trouxe algumas Blinis de carne pra você! Consegue sentar? - Sem responder, tirei a toalha da testa e me sentei na cama, colocando o travesseiro na parede para encostar minhas costas. Nisso, Erina pegou outra vez a sacola e me entregou, colocando outra vez as costas da mão em minha testa. - Esse repouso fez bem pra você! Sua temperatura já melhorou bastante!
- Talvez eu só estivesse precisando de um repouso decente! - Erina riu, e eu acabei rindo por impulso, me sentindo culpado. Erina se levantou, indo até a outra cama do quarto, enquanto eu abria o conteúdo da sacola. - Você parece saber bem desse tipo de coisa!
- Talvez seja por causa da minha mãe! A gente sempre acaba aprendendo esse tipo de coisa! - Talvez percebendo que eu estava cabisbaixo, mas o sorriso de Erina saiu de seu rosto por um momento. - Desculpa! Eu não quis...
- Erina... Me faz um favor! Tem um potinho alaranjado na minha maleta! Pega ele e joga fora, por favor! - Houve uma certa demora, mas Erina se levantou e veio até a minha maleta, abrindo-a e pegando o que eu havia pedido para pegar, e indo até a lixeira da cozinha. - Obrigado!
- Eu sei que isso não é da minha conta, mas já que você quer jogar isso fora, posso saber o que é isso? - Erina sequer se virou ao fazer a pergunta. Seus dedos pareciam que iriam soltar o frasco na lixeira a qualquer momento.
- ... Antidepressivos! Usei sem recomendação médica! Talvez seja isso que tenha me deixado assim, e é por isso que quero me livrar disso! Não quero ficar me afundando em algo que só vai me fazer fugir da realidade! - Ao término da minha frase, o silêncio surgiu, e a única coisa que quebrou isso, foi o som do frasco caindo na lixeira.
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Genel KurguExplorações, registros, conhecimentos, comentários sobre tais coisas, eram coisas que Erina admirava no homem da sua vida, seu pai. Desde sempre, a garotinha do papai mostrava interesse na profissão do homem que cuidava da família, e em resposta, o...
