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- Erina? - Um som de algo caindo vinha do quarto na parte de cima de dentro da casa, enquanto eu estava na cozinha. Fui até as escadas, subindo até cômodo e ao chegar, o que eu já devia ter imaginado estava na minha frente. O som que eu havia ouvido provavelmente era de Erina caindo sobre o colchão da cama, já que a mesma estava aos roncos e até mesmo babando em cima da fronha do travesseiro. - Em um frio desses e sequer se preocupou em se cobrir!

As cobertas estavam dobradas de forma que só precisavam ser puxadas para cobrir perfeitamente quem quer que estivesse deitado na cama, e os pés de Erina estavam pousados sobre. Com cuidado, peguei seus tornozelos, fazendo seus joelhos se flexionarem e dobrando suas pernas para tirar seus pés das cobertas. Quando os soltei, Erina parecia acordar de repente.

- Não, mãe! Tudo menos salto alto!

- Fala enquanto dorme, não é? Ao menos agora eu entendo o porquê das botas!

Com as cobertas em mãos, as levei até que Erina ficasse coberta até o pescoço, e a mesma se aninhou ainda mais, soltando alguns grunhidos. Soltando as cobertas, voltei para a escada onde havia deixado minha maleta, a colocando sobre a cama restante no lado oposto do quarto, abrindo-a e tirando uma peça de roupa íntima. Desci as escadas, indo até o banheiro, onde me despia enquanto enchia a banheira de água que era aquecida por gás. Na banheira, a luz da tarde entrava pela janela e momentaneamente eu lembrava da luz que o sol fazia no dia que Mari foi atrás de seus pais, sem ter a ideia de que aquele era o último sol que eu veria com a sua presença. O banho foi demorado, e ao sair, me sequei com uma das toalhas presentes no banheiro e me vesti em seguida, subindo outra vez as escadas e olhando para Erina, que sequer havia se mexido nesse tempo. Indo até minha cama, coloquei a peça de roupa íntima usada na maleta ainda aberta e tirei da mesma uma blusa de frio, a vestindo e colocando a maleta no chão em seguida. Me deitei no colchão, já me esticando até meus pés para puxar as cobertas, e antes de fechar os olhos, dei uma última olhada na direção de Erina.

(- Cara, acho que se não fosse pelos meus pais, eu diria que chefiar esse lugar seria bem mais difícil!

- Conversa! Isso está praticamente no seu sangue! - Ríamos, até perceber que, do outro lado da chamada, ele tentava tirar algum pigarro da garganta!

- Esse enfraquecimento do meu velho nos pegou muito de surpresa! Pra nossa sorte ele é duro na queda! Mas mudando de assunto, como vai seu trabalho como intérprete?

- Tem um senhor alemão aqui no Japão que eu terei de auxiliá-lo até a Rússia, onde ele tem entendimento da língua! Depois disso as minhas férias de trinta dias vão começar, finalmente!

- Venha aqui, algum dia desses! Já faz um tempo que a gente não se vê direito! - Fiquei em silêncio por um tempo, mas a minha respiração me denunciava. - Minashigo?

- Eu queria levá-la aí, sabe?

- *suspiro* Já são quase cinco meses, não é?

- Acha que os pais dela foram contra o nosso casamento e por isso não querem deixá-la voltar?

- Minashigo, vocês já são adultos, e impedir alguém de sair contra a própria vontade é crime! E nós sabemos que tipo de mulher a Mari é! Ela vai dar notícias! Confie nela!

- Eu confio! Só que... Já faz tanto tempo, sabe?

- Eu imagino! Pelo visto as coisas estão ruins para nós dois, não é?

- Haha realmente!

- Estão me chamando aqui, e eu vou ter que desligar! Até outro dia, Minashigo!

- Foi bom falar com você outra vez, Ethan!)

- Um flashback em forma de sonho, não?

Olhei para o lado, e Erina ainda dormia. Peguei meu celular e acendi a tela para ver o horário, que indicava ser dez e vinte da noite. Me estiquei e tirei a coberta de cima de mim, me sentando sobre a cama. Erina não se mexia, então fiz esforço para não fazer som enquanto descia as escadas, ao mesmo tempo em que observava o pequeno lago do outro lado da casa, onde havia alguns bancos de madeira e um espaço para fogueira. Abrindo as portas de vidro que levavam até tal parte da casa, haviam algumas toras de madeira, provavelmente deixadas para caso o cliente quisesse usar a fogueira. As toras estavam secas e sem qualquer indício de que tivessem sido molhadas, e nisso, peguei algumas delas, levando-as comigo até os bancos. O frio da noite estava congelante, mas a aurora boreal naquele céu noturno compensava o clima frio, tal frio que começou a fugir quando comecei a queimar uma das lenhas com um pedaço de papel sem importância que encontrei em minha blusa, juntamente de um isqueiro que usei para acender o papel. Com o fogo iluminando a noite, pude ver que o lago tinha um monte de terra em seu centro, juntamente de uma árvore que aparentava ser um salgueiro, e junto dela... Uma presença. Pude ouvir algo atrás de mim, mas a tal presença ao lado da árvore havia prendido a minha atenção. A iluminação que a chama da fogueira produzia não ajudava, mas forçando os olhos, conseguia ver que o ser ao lado do salgueiro usava roupas pretas, com exceção da camisa branca por baixo do colete, e seu cabelo também era branco, e carregava algo em suas costas que, se aquilo não estivesse sendo pendurado na diagonal, com toda a certeza já estaria encostando no chão. Olhando nos olhos daquela coisa, um calafrio surgiu em mim, e eu não saberia dizer se aquilo era pelo frio ou se era, de fato, alguma péssima sensação ao cruzar olhares o que quer que fosse aquela figura, e quando o calafrio me deixou, aquele ser sorriu de forma diabólica. Esfreguei meus olhos com ambas as mãos, e quando voltei a abri-los, tal semblante não estava mais lá, deixando apenas um salgueiro curvado, derramando suas folhas.

- Eu acordei agora, então talvez seja isso! Mas mesmo assim... Isso foi bem esquisito!

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