Carolina. - Rio de Janeiro, 13 de fevereiro de 2023. Complexo da Maré. Dias atuais.
Subi o morro cheia de sacolas e Natan estava do meu lado segurando na minha camisa já que minha mão estava ocupada. Tamires hoje não pôde ficar com ele por ter um compromisso, então eu não fui trabalhar e fiquei com ele. Por ser um sábado, ele não tinha aula e eu não conhecia ninguém de confiança aqui que poderia deixá-lo, e nem queria que ninguém cuidasse dele. Natan é calmo, mas como qualquer criança, ele é uma responsabilidade.
- Mamãe, quero colo. - ele resmungou.
- Já estamos chegando em casa, meu amor. Aguenta só mais um pouquinho. - ele murchou e continuou andando cansado.
Assim que chegamos em casa, coloquei as sacolas na cozinha e comecei a preparar o almoço pra mim e pro meu bebê enquanto ele estava entretido pintando um desenho.
Eu me mudei pro Complexo da Maré, por ser o local mais seguro, com baixa criminalidade e que caberia no meu orçamento baixíssimo. Obviamente, se eu tivesse dinheiro de sobra eu iria pra outro estado e começaria do zero. Mas só de me mudar de bairro já fico aliviada.
O morro estava sob a posse da polícia. Era bom mas ao mesmo tempo era ruim. Eles mantinham a segurança dos moradores, mas sempre batiam nos meninos novinhos que passavam, simplesmente porque os olharam ou por motivos bestas assim, era um abuso de autoridade sem limites.
Quando cheguei aqui, um dos policiais fez com que eu jogasse todas as minhas roupas no chão, as roupas na bolsa do meu filho também foram jogadas pra verificar se eu não estava entrando ali com droga. Eu já tinha pago o primeiro aluguel então a minha única opção foi engolir aquela atitude e seguir o meu caminho.
- Mamãe, o Lucas perguntou se eu posso ir no aniversario dele amanhã, eu posso? - meu filho chegou de banho tomado e enrolado na toalha com as roupas na mão pra que eu o ajudasse a trocar. Ele estava enorme, prestes a fazer cinco anos. Meu maior orgulho.
- Eu vou ver certinho, filho. - respondi e ele assentiu compreendendo.
Passei a roupa pelo seu corpo pequeno e ele se sentou na mesa pra aguardar seu almoço. Coloquei no prato dele a comida fresca que eu acabei de fazer, uma colher e um copo de suco também recém feito.
Logo depois servi meu prato e me sentei à sua frente, comi vendo Natan enchendo a barriga também e não tinha sensação melhor do que essa.
- Você tá com sono amor? - perguntei vendo que ele estava com os olhinhos meio pesados e passei a mão pelos seus cabelos.
Tive que o acordar muito cedo pra levá-lo comigo enquanto eu resolvia os assuntos da sua escola. Faltei trabalho por ele, mesmo sabendo que estava colocando em risco o meu emprego, eu expliquei os meus motivos para a minha chefe torcendo pra que ela não me mande embora.
- Tô, mãe. - ele respondeu e tomou o último gole do suco.
- Vai pro quarto logo então, daqui a pouco eu te acordo pra fazer seu dever de casa.
Ele assentiu e se levantou vindo pra perto de mim beijando minha bochecha como sempre fazia.
- Te amo, minha vida. - falei pra ele carinhosamente.
- Te amo, mãe. - ele foi pro quarto e eu tratei de lavar as louças que sujamos e dei uma geral na casa enquanto ouvia um pagode baixo pra não incomodar o sono de Natan.
Meu filho era a minha cara, a única coisa que puxou do pai foram os olhos verdes, mas de resto, toda a sua aparência e sua personalidade eram minhas. Ele pouco se lembra do pai, me perguntou algumas vezes e chegou a chorar poucos dias depois da morte de Dan. Mesmo que eu me sentisse mal por ter que explicar que o pai dele não estaria mais conosco, ao mesmo tempo eu me sentia aliviada por não viver o inferno que eu estava vivendo e por Natan não viver em um ambiente familiar como aquele, se é que aquilo poderia se chamar família.
Família, pra mim, somos eu, Natan, Tamires e Maria. Elas duas foram as únicas que se aproximaram de mim, são irmãs e minhas vizinhas, sei que com elas eu posso contar. Elas sabem uma parte da minha história, sabem que eu vivi um relacionamento conturbado antes de vir pra cá e sabem que Dan está morto.
Maria foi quem me ajudou a conseguir um emprego na mesma loja que ela trabalha aqui no complexo. Tamires é a mais nova das duas, tem dezesseis anos e ela cuida de Natan quando eu vou para o trabalho ou quando preciso resolver algo que não posso levá-lo.
Terminei minha arrumação na casa, pausei a música e em silêncio fui para o banho. Aproveitei para lavar meus cabelos e fazer uma hidratação que estava precisando. Assim que saí do banheiro, coloquei uma roupa fresca pois estava fazendo quase quarenta graus no Rio hoje. Fui pra sala e liguei a TV pra assistir algum filme.
Aproveito pra ter meus momentos enquanto Natan está dormindo. É raro, mas acontece algumas vezes.
O tempo passou voando e quando eu percebi já eram quase cinco da tarde, acordei Natan mesmo ele resmungando que estava cansado, mas se eu não o acordasse, ele não dormiria de noite.
Cerca de meia hora depois, Maria e Tamires chegaram, as duas trouxeram pão fresquinho e eu já fui fazendo um café pra comermos juntas.
- Como a Fabricia estava? - eu perguntei pela minha chefe.
- Eu acho que ela estava de boa, segunda você vai saber. Mas você é uma das melhores vendedoras, acho que ela não vai te mandar embora por uma falta. - Maria respondeu e eu suspirei.
Elas ficaram ali até anoitecer, conversavam comigo e com Natan. Ele parecia um adulto no nosso meio, falava tão sério que parecia realmente entender o que a gente conversava.
Quando deu mais ou menos oito horas eu decidi levar ele pra praça que tinha aqui perto. Ele não dormiria agora e eu precisava cansar ele, nada melhor que deixar ele correr a praça inteira enquanto eu como algo das barraquinhas que vendem lá.
Arrumei ele e passei um perfume, descemos pra praça e avisei as irmãs que estávamos ali caso elas quisessem vir. Assim que chegamos na praça, me sentei em um banco e deixei ele correr. Logo Natan fez um amiguinho e os dois estavam brincando no balanço da praça sob o meu olhar.
Eu observava meu filho correndo e pensava o quão rápido ele estava crescendo. No próximo mês ele faria cinco anos e eu estava tão nostálgica, lembro exatamente como foi quando ele nasceu, quando ele falou a primeira palavra que foi "momãe", quando ele deu os primeiros passos.
Ele acenou pra mim de longe e fez beleza mostrando que estava bem depois de ter levado um tombo. Sorri e acenei pra ele de volta.
Travei quando ouvi um barulho muito conhecido por mim. Eram tiros. Uma rajada de tiros, vindo de todos os lados.
Me desesperei e meu primeiro reflexo foi correr até onde Natan estava, peguei ele no colo e corri até um beco onde estávamos protegidos.
VOCÊ ESTÁ LENDO
RENASCER [CONCLUÍDA)
RomanceCarolina conhece muita coisa sobre relacionamento, principalmente tendo passado pelas mãos doentias do ex abusivo, ela só conhece o lado negativo de se relacionar. Natan, seu filho, foi a única coisa boa que lhe aconteceu nesse período conturbado da...
