Carolina. - Rio de Janeiro, 27 de fevereiro, Complexo da Maré.
Eu ainda tentava recuperar meu fôlego, joguei minha cabeça pra trás e Falcão aproveitou a deixa pra passar a ponta da língua no meu pescoço que estava livre pra ele, de baixo pra cima até chegar próximo ao meu ouvido.
Filho da puta do caralho, ele é bom no que faz.
- Gostosa da porra tu, Carolzinha. - ele falou no meu ouvido e eu mais uma vez me arrepiei e fraquejei.
- Falcão... - ele beijou mais embaixo quase no meu peito e eu me sentia nas nuvens.
Puxei seu rosto pra cima de novo e beijei sua boca de forma agressiva, ele riu entre o beijo e puxou alguns fios do meu cabelo. Nos separamos novamente por falta de ar e eu encostei minha testa na sua sentindo ele regular a própria respiração enquanto eu fazia o mesmo.
- Meu Deus... - eu falei ainda ofegante e ele soltou uma risadinha sacana.
- O que foi? Te deixei sem ar? - ele perguntou cínico e eu ri.
- Você é ridículo. - me levantei do seu colo e me assustei com o tapa que o abusado deu na minha bunda. - Que liberdade é essa que eu não te dei? - eu perguntei e ele riu negando com a cabeça.
- Tu sentou no meu pau, Carolina. Quer liberdade maior que essa? - ele perguntou e eu neguei com a cabeça.
Fiquei em pé na sua frente e vi ele ajeitando a pistola na cintura. Nem percebi ela ali, mas assim que vi me lembrei da pistola que achei na casa dele. Escrito o seu suposto nome.
- Acho que eu descobri teu nome. - eu falei ainda olhando o movimento dele mexendo na cintura e em seguida olhei pro seu rosto que parecia meio confuso.
- Qual é então? - ele perguntou cruzando os braços e me encarou.
- Thales Falcão. Né não?
- Não. - ele riu e negou com a cabeça. - Esse aí é o nome do meu velho. Meu nome não é Thales, princesa. Tu viu a pistola que tava no meu armário né? - ele perguntou já sabendo a resposta e eu dei de ombros.
- Talvez. Tava lá mas tava mal escondida, se tivesse escondido melhor eu não teria achado. - brinquei e ele me encarou. - Mas qual é seu nome então?
- Ih, tá pensando que é assim, princesa? - ele falou e se levantou. - Vai ter que me conquistar pra eu te dar essa informação. - ele respondeu e se aproximou de novo.
- Prefiro ficar sem saber mesmo. - respondi e ele me roubou um selinho.
- Tô indo lá, valeu aí. Qualquer coisa grita que eu escuto. - ele saiu de casa e eu fui atrás pra ver como Natan estava na rua.
Tamires e Maria estavam sentadas na calçada da casa delas enquanto meu bebê brincava de bola entretido com os meninos. Ele olhou pra Falcão saindo de casa e acenou pro mais velho sorrindo de orelha a orelha.
Eu tinha uma sensação boa quando via a interação dos dois, mas eu não quero meu filho envolvido com o tipo de coisa e com o tipo de pessoa que o Falcão é e faz. E me incluo nessa parte de manter distância dele, hoje ultrapassei todos os meus limites.
(...)
Falcão. - Rio de Janeiro, Complexo da Maré. 16h40 PM.
Porra eu dormi tão mal essa noite que tive que dar um cochilo depois que saí da casa de Carolina. Tomei só um banho quando cheguei e capotei na cama, acordei já era de tarde. E o pior é ter que acordar e sentir o perfume da maldita pela minha casa toda.
Levantei da cama depois do meu sono e fui pro armário caçar uma roupa pra voltar na boca e terminar o que eu tenho que resolver. Olhei a pistola do meu pai no meio das roupas e lembrei de Carolina achando que Thales era o meu nome.
Meu pai também foi dono de morro, também fazia parte dessa vida e cuidava da Penha. Quando eu era moleque, ele tomou a Maré num confronto e me deu pra cuidar, mas eu mal sabia o que tava fazendo, tive que levar muita porrada da vida pra aprender nesse meio.
Meu velho morreu num confronto lá na Penha, morreu na crueldade, ele e a minha irmã. Entraram na maldade no morro e na sede de matar os dois, meu pai foi decapitado e minha irmã foi estuprada por dois caras e morta em seguida. Porra, foi o dia mais difícil da minha vida, recebi o vídeo de tudo acontecendo e são cenas que até hoje me deixam desestabilizado. Depois disso, a Penha passou a não ser mais uma aliada e se tornou inimiga da Maré e ficou por isso.
Eu sou um porra louca mas tenho senso e não vou botar meus caras pra pegar a Penha, é um risco do caralho. Mas o dia vai chegar e eu vou honrar o nome do meu velho.
Me vesti rápido e coloquei uma havaiana no pé, peguei a chave da moto e zarpei pra boca vendo os moleques na frente. Eles estavam papeando mas assim que me viram já foram circulando e fingindo que estavam fazendo alguma coisa. Cínicos do caralho.
- Bora, quero geral lá na minha sala pegando trouxinha. Vão vender droga, tô ficando sem grana. - falei pros aviãozinho que estavam ali. - Quem vender mais hoje vai ganhar uma extra filézinha aí. - eu falei e eles logo se animaram e me seguiram pra pegar as trouxinhas pra vender.
- Chefe, posso trocar uma ideia contigo? - um moleque de uns quinze anos me parou quando todos saíram e eu olhei sério pra ele.
- Fala, menor.
- Será que tu não podia desenrolar um extra pra mim não? Qualquer coisa, até derrubar um, eu derrubo. - ele pediu meio desesperado.
- Qual teu nome, moleque? - ele engoliu em seco e eu cruzei os braços.
- Matheus. - ele respondeu e coçou a cabeça.
- Pra que que tu quer serviço extra, Matheus? Tá faltando o que pra tu? - perguntei e ele negou com a cabeça.
- Nada não, chefe. Só quero fazer mais dinheiro. - eu conhecia aquele olhar, era desespero puro.
- Quer mentir logo pra mim? - eu questionei ele pressionando pra desembuchar.
- Porra, Falcão. Minha mãe, ela tá... desempregada e não tá dando pra segurar as contas com o meu pagamento da semana, tô sem comer desde ontem. Desenrola qualquer coisa aí pra mim. - ele implorou e eu imaginei que era isso.
Peguei duas notas de cem e dei na mão dele.
- Toma aí. Compra lá coisa pra tu comer e depois volta aqui que eu desenrolo outro trampo pra ti. - respondi e ele pegou o dinheiro com os olhos brilhando.
- Porra, serão mesmo? - concordei com a cabeça e ele ficou sem reação. - Valeu aí, Falcão. Tu é o cara. - fiz toque com ele e observei ele saindo da minha sala todo animado enquanto eu pensava no que eu daria pra ele fazer.
O moleque até falou em botar alguém na vala, isso é desespero pra botar comida na mesa e é triste saber que esses moleques passam por isso e dependem de mim pra se manter.
- Qual foi aí, Falquinho? - Danone chegou se jogando no meu sofá e eu sentei na minha mesa coçando a nuca.
- Preciso de uma nova função na boca, pensa aí comigo. Tamo precisando do que? - eu perguntei.
- Eu preciso de um dublê pra vim trabalhar no meu lugar. Tô cansadão. - ele respondeu e eu segurei a risada.
- Claro que fica cansado tomando chá todo dia, quem é que aguenta? - ele revirou os olhos.
- Você ainda vai cuspir pra cima, lindinho. Tenho sorte que minha mulher é fofoqueira e me conta o que acontece nesse morro. - ele me olhou e levantou as sobrancelhas.
- Vai se fuder, tenho mais o que fazer, porra. - peguei um bolo de dinheiro e coloquei na contadora pra somar o valor.
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RENASCER [CONCLUÍDA)
RomanceCarolina conhece muita coisa sobre relacionamento, principalmente tendo passado pelas mãos doentias do ex abusivo, ela só conhece o lado negativo de se relacionar. Natan, seu filho, foi a única coisa boa que lhe aconteceu nesse período conturbado da...
