Carolina. - Rio de Janeiro, 18 de março, Complexo da Maré. 12:00 AM.
Se eu achava que nesses últimos dias Thiago tava estranho, agora eu tenho certeza absoluta. Ele tava calado, quando veio trazer Natan da escola, mal abriu a boca. Mas ficou por aqui, provavelmente pra que o meu filho não sentisse tanto a ausência dele.
Mas eu não ia questionar, pode ser coisa da boca, coisa que não interessa pra mim. Não vou me meter nos assuntos dele pra evitar estresse, da ultima vez que eu fiz isso deu merda.
- F de folha. - falei pra Natan que tentava escrever o nome de Falcão. - A de arvore, L de lápis...
- Caraca, é isso aí, menor! - Falcão bateu dez com ele sorrindo quando viu o nome feito e eu ri também. Cada conquista dele me deixava tão feliz.
- Parabéns, filho. - beijei seu rosto e Natan sorriu.
Peguei a travessa com a macarronada que eu fiz e botei na mesa pra os dois bonitos se servirem.
Falcão pegou um prato serviu Natan e em seguida se serviu. Dei um sorriso de lado e botei um pouco de comida pra mim também, comendo em silêncio.
Quando os três tinham acabado, Natan pediu licença pra ir tomar banho e deixou o prato na pia como sempre fazia.
- E aí, como tá o trabalho? - perguntei puxando o assunto e ele me olhou por alguns segundos antes de balançar a cabeça.
- Tá de boa, trabalho não falta. - ele falou meio nervoso e eu juntei as sobrancelhas.
- Você tá esquisito, tá tudo bem? - ele respirou fundo e se levantou pegando seu prato e o meu indo pra pia pra lavar o pouco de louça que tinha.
- Ta tudo ótimo, melhor impossível. - ele não sabe disfarçar, mas eu não iria insistir. - E tu? Muito trabalho lá na dona Ana?
- Muito trabalho, e isso é bom. Gosto de trabalhar. - falei disfarçando meu descontentamento.
- Carolina, deixa eu te perguntar uma coisa? - ele falou secando a mão no pano de prato.
- Sim, claro! - me aproximei ficando de frente pra ele.
- Se a mãe do teu ex marido voltasse querendo ver Natan, tu deixaria ela ver? - ele perguntou e eu estranhei.
- Não. - respondi rápido. - Não deixaria porque ela tem influencia e dinheiro pra tirar ele de mim.
- Nem se ela só quisesse ver ele? - eu neguei com a cabeça.
- Eu gostava muito dela, considerava pra caramba porque ela sempre tentou me afastar de Dan, ela conhecia o filho que tinha, sabia o que ele fazia. Mas eu não deixaria hoje ela se aproximar do meu filho, eu não a conheço mais. Depois que uma mãe perde um filho, tudo muda, tudo é diferente. - falei e minha garganta fechou, engoli as lágrimas sentindo as lembranças de alguns anos atrás vindo à mente e abaixei a cabeça olhando pros meus pés com os braços cruzados.
Flashback on.
Depois de mais uma surra que levei sem nem lembrar o motivo, olhei pra Dan que me encarava com muita raiva. A maioria das vezes é assim, ele me indaga de alguma coisa, a gente discute, ele perde a paciência e desconta em mim. É um ciclo vicioso.
- Isso é pra tu aprender, sua vagabunda. - ele falou e eu solucei sentindo as lágrimas queimarem as feridas do meu rosto. Tudo em mim doía.
- Dan... Para, por favor. - eu falei já sem força e ele deu um chute na minha barriga e outro nas minhas pernas me fazendo gemer de dor.
- Cala a porra da boca que tu tá toda errada, caralho. - ele gritou e eu fechei os olhos torcendo pra que aquilo acabasse logo.
Uma dor aguda no pé da barriga me fez gritar e Daniel se afastou olhando pro meio das minhas pernas. Senti um líquido escorrendo por elas e pus a mão pra saber do que se tratava, quando vi o sangue escorrendo eu sabia o que era e o olhar de desprezo de Dan me fez chorar ainda mais, transferindo toda a dor física pro emocional.
Ele matou o meu filho, meu primeiro filho.
Flashback off.
- Porra, não me diz que... - ele supôs e eu concordei voltando a olhar seus olhos. - Foi mal, não deveria ter tocado nesse assunto.
Senti seus braços passarem ao redor da minha cintura e seu queixo encostar na minha cabeça. Os abraços de Falcão eram meio desajeitados, mas eram bons.
- Eu não sou a melhor opção no momento pra tu conversar, mas se quiser tamo aí. - ele se afastou um pouco e segurou meu rosto com as duas mãos, e passou os dois dedões nos meus olhos pra secar o resquício de lágrima que tinha ficado.
Num impulso eu beijei sua boca num selinho, mas ele segurou minha nuca e segurou o beijo. Passei minha mão por seu pescoço e arranhei sua nuca.
- Já te falaram que teu beijo é bom? - ele perguntou e eu dei de ombros.
- Algumas vezes. - eu respondi mesmo ele sendo o primeiro cara que eu beijei depois da morte de Dan, mas eu não falaria isso pra ele tão cedo.
- Ah Carolina, vai pra merda. Fiz uma pergunta mas não precisava tu dar essa resposta. - gargalhei e ele deu um sorriso de lado ainda com a cara meio fechada.
- Mamãe, terminei! - ouvi o grito de Natan e ri pra Thiago na minha frente.
- Ele ainda não aprendeu a se vestir. - ele riu também e me soltou me dando um selinho. - Vou lá, já voltamos.
- Vai lá, princesa. - ele apertou minha bunda e eu soltei um gritinho.
Andei até o quarto de Natan, ele já tava enrolado na toalha e me esperando com a roupa que ele mesmo separou. Uma blusa do Hulk e uma bermuda do flamengo. Meu Deus, quem foi que ensinou essa criança a se vestir assim?
Como ele ia ficar em casa, vesti assim mesmo e penteei seus cabelos.
- Você é um gato, meu filho.
- Igual meu pai Falcão, né mãe? - eu olhei pra ele e pisquei algumas vezes absorvendo o que ele falou e ele nem tava prestando atenção, tava brincando com a escova de cabelo.
- Isso meu amor. - foi só o que eu respondi e dei um sorriso de lado.
- Ele tá aí ainda? - meu filho perguntou.
- Sim, filho. Tá lá na sala. - ele levantou correndo e foi pra sala atrás do pai.
Esses dois são unha e carne, com tão pouco tempo de convivio eles se conectaram de um jeito que não dá pra explicar. Era pra ser assim mesmo.
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RENASCER [CONCLUÍDA)
RomanceCarolina conhece muita coisa sobre relacionamento, principalmente tendo passado pelas mãos doentias do ex abusivo, ela só conhece o lado negativo de se relacionar. Natan, seu filho, foi a única coisa boa que lhe aconteceu nesse período conturbado da...
