Falcão. - Rio de Janeiro, 26 de fevereiro, Complexo da Maré. 23:45.
Não vou negar que com o pouco de bebida que eu tomei, eu já estava bem mais animado do que quando eu cheguei.
Depois que toquei algumas músicas com Ronaldo, agradeci e voltei pra mesa, tomei algumas com o pessoal enquanto comia alguns petiscos que chegavam pra gente. Junto com o petisco, dona Ana trouxe alguns números de telefone das mulheres que mandavam pra mim e pros caras que estavam comigo. Era engraçado ver Maria de cara fechada com as justificativas de Danone que de todo jeito tentava controlar a situação.
Eu estava de boa, não queria mulher hoje não. Na verdade eu não sou um tarado que só pensa em foder, mesmo que eu goste bastante disso, mas essa semana eu passei tanto tempo trabalhando que nem pensei.
- Vou escolher essa porra no unidunitê. - DG falou com dois telefones na mão.
- Pega logo as duas de uma vez. - falei zoando e ele me olhou levando a sério.
- É isso, valeu irmão, vou dar uma volta por ali. - deu duas batidinhas no meu ombro e levantou me deixando de vela ali com o casal.
Olhei todo o local já querendo ir pra casa, mas algo me disse pra não ir. Escolhi obviamente ouvir a minha intuição, mas fui pro lado de fora fumar um cigarro.
Sentei no capô do carro e acendi segurando entre os dedos e colocando na boca, soprando a fumaça logo em seguida.
Mal terminei meu cigarro e olhei pra dentro do bar vendo Carolina crescendo pra cima de um dos caras que estava bebendo. Forcei a vista pra ver quem era o cara e era um vapor que eu nem lembrava o nome.
Carolina tava com o dedo apontado na cara dele enquanto falava algo possessa de ódio. Me mantive ali observando, já que eu não tinha nada a ver com a história. Mas a coisa mudou quando ele avançou pra tentar bater nada.
Joguei o cigarro pela metade fora e caminhei rápido pra perto de onde eles estavam e me meti no meio dos dois ficando de costa pra ela e batendo de frente com o menor que abaixou a bola na hora.
- Seu arrombado de merda. - Carolina ainda gritava alterada e eu olhei pra ela por cima do ombro.
- E aí, irmão. Tá pegando o que aqui? - perguntei calmo controlando a sensação estranha de proteção que eu estava sentindo.
- Porra, essa puta aí se oferecendo, chefe. Tem a cara de pau de me chamar de arrombado, arrombada é ela. - ele falou meio embolado e bêbado.
- Lava a tua boca pra falar de mim seu filho da puta do caralho. - Carolina falava ainda possessa.
- Cala a boca os dois, porra. Se manda daqui, não fode não. - eu falei alto fazendo ele se calar e baixar a cabeça. - E tu vem comigo. - apontei pra Carolina.
- Eu tô trabalhando, não vou com você. - ela falou e virou as costas dando de cara com dona Ana.
- Não filha, tá liberada. Você já passou do seu horário, pode ir porque já ficou tranquilo o movimento. - dona Ana respondeu e virou, vi que ela olhou de relance pra mim dando um sorriso de canto de boca.
- Só vou pegar minhas coisas. - ela falou e eu fiz sinal pra Danone avisando que eu tava de saída.
Dois minutos depois ela voltou e passou por mim igual um foguete. Se eu não fosse atrás e segurasse, ela já estaria lá na casa dela.
- Desculpa. Mas eu não tô pra brincadeira hoje e nem pra conversa fiada. Eu só preciso descansar, vi demais por hoje. - ela falou e deu um jeito de se soltar de mim.
- Eu vim na paz, po. Sossega o coração, vou te levar em casa. - eu falei e ela negou com a cabeça.
- Para de ser bipolar. - eu a olhei sem entender.
- Numa hora tá sendo um babaca. Outra hora tá um super educado, querendo me dar carona pra cima e pra baixo. - ela explodiu.
- Porra, vou te dar o papo. Na moral, tu é uma mal agradecida, Carolina. Acabei de te livrar da porrada que tu ia levar daquele filho da puta e é assim que tu me agradece? - eu falei perdendo a paciência.
- Não pedi pra você fazer nada, eu sei me defender. - eu olhei pra ela serio e ela sustentou meu olhar. - Agora me deixa ir.
- Não vou deixar, tá tarde e cheio de maluco noiado na rua. - falei e abri a porta do carro. - Aceita pelo menos a porra de uma carona.
Sem falar nada, ela entrou no carro de cara feia e eu dei a volta entrando no banco do motorista.
- Qual foi a fita? O que rolou lá? - ela me olhou e eu liguei o carro dando partida pra casa dela.
Observei de canto de olho ela pegando o celular e mandando alguma mensagem.
- Nada fora do comum, só comentários nojentos vindo de um babaca. - ela suspirou ainda mexendo no celular.
- Te preocupa não que ele vai ser cobrado. - eu falei e ela negou com a cabeça.
- Deixa isso pra lá, eu não me importo.
Ela colocou o telefone no ouvido esperando que alguém do outro lado atendesse a ligação, mas não estava atendendo e ela respirou fundo. Ela tentou ligar mais umas duas vezes mas não estava conseguindo.
- Qual foi? - perguntei curioso estacionando na frente da casa dela e ela mordeu a unha.
- Tamires não tá me atendendo, eu não trouxe minha chave. Ela deve ter dormido. - ela falou nervosa.
- Quer que eu buzine? Pode ser que ela ouça. - eu perguntei olhando pra ela.
- Não, Natan pode acordar e se ele acordar agora, não vai dormir tão cedo. - ela suspirou cansada.
- Dorme lá em casa, amanhã cedo tu vem pra cá. - ela me olhou com os olhos cerrados. - Sem maldade, pô. Tá aí quase dormindo em pé.
- Não sei não. Natan pode precisar de mim na madrugada, eu nunca dormi longe dele. - ela falou.
- E tu vai entrar em casa como? - debochei e ela me olhou revirando os olhos. - Sério mesmo, na inocência. Tu pode dormir na minha casa, durmo no carro ou vou pra boca pra tu ficar à vontade.
- Falcão...
- Porra de mulher difícil do caralho. - reclamei e manobrei o carro estacionando na garagem da minha casa.
- Eu não aceitei.
- Mas tu não tem opção. Ou dorme aqui ou dorme na rua, e aí? - falei e ela respirou reconhecendo que eu tava certo.
- Tá, tá bom. - ela abriu a porta e saiu do carro me fazendo rir sozinho.
- Tá tudo em reforma, repara a bagunça não. - ela entrou na minha casa olhando tudo ao redor. Só o que eu deixei como tava era o meu quarto. - Tá com fome?
- Não, tô tranquila. - ela falou.
- Tem um banheiro no quarto, tem toalha no armário e escova de dente nova na gaveta. Pode ficar aí a vontade, vou colar na boca. - falei com a chave do carro na mão e mesmo que eu tivesse morto de cansado, eu não dormiria aqui porque sei que ela ia ficar pilhada. Já percebi que Carolina não é muito de aproximação, coisa do passado dela, certeza.
- Não precisa não. Eu durmo no sofá e amanhã cedo eu saio, a casa é tua. - ela falou e eu neguei com a cabeça.
- Pode ficar aí, tenho coisa pra resolver na boca. - falei e ela assentiu devagar.
Óbvio que eu não tinha nada pra resolver na boca, mas eu ia dormir por lá hoje.
- Obrigada, Falcão. - ela agradeceu e eu até estranhei, era difícil ouvir essa palavra saindo da boca dela.
- Fé aí, vou indo lá. Qualquer coisa me liga.
Antes de ouvir a resposta dela, eu peguei o carro e voei pra boca. Ajeitei o sofá pra dormir por ali mesmo e apaguei todas as luzes.
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RENASCER [CONCLUÍDA)
RomantikCarolina conhece muita coisa sobre relacionamento, principalmente tendo passado pelas mãos doentias do ex abusivo, ela só conhece o lado negativo de se relacionar. Natan, seu filho, foi a única coisa boa que lhe aconteceu nesse período conturbado da...
