Coloco os galhos que encontrei ao lado da fogueira e olho em volta para ter certeza de que todos estão bem, então me afasto e sento encostando em uma árvore, longe o bastante para não me ouvirem, mas em um local em que possam me achar se precisarem.
Olho para o céu e consigo sentir a lua cheia que está chegando afetando o meu lobo, a alcatéia vai se transformar e correr pela floresta mais tarde, mas eu prefiro a companhia dele...
— Pran?
Ele fica feliz ao me ouvir, as vezes usar um telefone não parece uma má ideia, mas isso é uma coisa nossa, fazemos há décadas, não quero mudar agora.
— Está sozinho?
A sua alegria confirma que está sozinho, tento calcular onde ele está agora, em algum lugar próximo do santuário provavelmente, se tudo sair como programado ele vai chegar lá amanhã ao entardecer.
Considero mais uma vez se eu conto pra ele sobre ter me tornado o príncipe herdeiro, mas de novo eu desisto, não importa quanto eu pense, sei que ele vai chegar a conclusão, eu virei um grande alvo para os inimigos dele, os inimigos do Paul, para os que não estão satisfeitos com a divisão do reino, aqueles que são contra a nossa filha...
Sinto a sua preocupação e me concentro nele.
— Estamos fazendo um bom tempo de viagem, se tudo der certo eu vou conseguir te encontrar amanhã a noite.
Ele responde com saudade e eu suspiro.
— Também sinto a sua falta!
Ouço um barulho vindo de algum lugar não muito distante e aprimoro a visão pra ver através da escuridão, mas não há nada, apenas silêncio.
— Pran, eu preciso resolver um problema, já falo com você.
Apesar a sua preocupação eu não falo mais nada, levanto indo na direção do barulho e sinto uma pancada forte na cabeça.
~•~
Acordo sendo atingido pelos sentimentos do Pran, é tudo tão confuso que não consigo pensar ou me mover, ele está com raiva, medo, preocupado... A minha cabeça gira e o meu estômago embrulha, tento me concentrar tempo suficiente para me desconectar dele, mas começo a sufocar, quando não aguento mais desmaio novamente.
~•~
Ouço vozes e tento me concentrar nelas, é estranho, o Pran parece estar dormindo, mas ainda consigo sentir o medo vindo dele.
— Tem alguma coisa errada, ele está assim há três dias, porque não acorda? Ele é um alfa poderoso, ouvi histórias dele em batalha, é assustador. Será que batemos na cabeça dele forte demais?
— Não fala merda!
— Mas...
O medo do Pran aumenta quando ele acorda e o seu desespero me engole mais uma vez.
~•~
Tento descobrir onde estou e o que está acontecendo, o Pran está mais centrado, não exatamente calmo, apenas focado, isso me ajuda a ter foco. Por algum motivo não estou conseguindo desconectar, estou tentando na última hora, mas nada, talvez porque a conexão dos últimos dias estava muito profunda.
Ouço risadas e tento identificar quantas pessoas estão aqui, não entendo porque eles colocaram uma venda nos meus olhos se eu fiquei apagado desde que me atacaram. Três ou quatro aqui comigo, mas provavelmente tem mais do lado de fora, ninguem se arriscaria sequestrar um alfa com tão pouco.
O meu estômago dói fazendo eu lembrar que não me alimento há dias, imediatamente eu percebo que o Pran não se alimenta há dias, seja o que for que está pensando em fazer, ele pode estar fraco demais pra isso. Queria poder falar com ele, mas se o Pran ficar agitado novamente eu não vou conseguir me concentrar.
Os homens estão discutindo sobre o que vão pedir para comer, acho melhor eu comer alguma coisa também para ter forças pra lutar, fugir ou sei lá.
— Se vão comprar alguma coisa, eu prefiro carne.
Todos ficam em silêncio assim que me ouvem, passos se aproximam até alguém tirar a venda dos meus olhos. Tento me adaptar rápido a luz, quando consigo vejo um homem com barba branca e bem aparada, isso me surpreende, nem lobo, nem vampiro, apenas um humano.
— Quem é você?
Ao invés de responder o homem faz um sinal se afastando e ouro sai correndo. Estou em uma casa simples, talvez uma cabana, me deixaram no sofá da sala, as minhas mãos presas apenas com uma corda, não parece que estão realmente tentando me manter preso, é isso ou eles são realmente estúpidos. A minha volta tem mais seis homens, todos humanos, ouço barulhos não muito distantes, dentro e fora da casa, então tem mais deles por aí. Os móveis também são simples, uma mesa, outro sofá, algumas cadeiras e bancos. Nada que se destaque.
A porta abre e um homem entra, não parece agitado, nervoso ou irritado, apenas me olha com curiosidade. Ele é mais jovem que o outro, provavelmente tem entre 40 e 50 anos, veste um terno caro, cabelo bem penteado e um ar de superioridade que poucos humanos tem. Um rapaz coloca uma cadeira na minha frente e o homem senta pegando um cigarro e acendendo.
— Você sabe quem eu sou?
Eu não respondo, primeiro porque não sei, segundo porque quanto mais ele falar, mais informações eu vou conseguir.
— Então primeiro deixa eu me apresentar. Eu sou Major, sou do ministro de relações interespécies.
Isso parece promissor. Apesar do ataque não acredito que os humanos vão querer iniciar uma guerra, se quisessem bastava me matar, não precisava de todo esse espetáculo.
— Nós soubemos que você foi uma peça chave no fim da guerra dos lobisomens e vampiros. O consorte do rei dos vampiros que também é príncipe herdeiro dos lobos, o que faz de você muito mais importante do que os dois reis.
— Ninguém é mais importante do que eles.
— Você é, meu rapaz, você é!
— Se eu sou tão importante, porque vocês me atacaram e sequestraram? Conseguem imaginar o que vai acontecer agora?
O homem coloca o cigarro na boca com a mão tremendo levemente, fora isso ele permanece calmo.
— Não era a nossa intenção, as coisas apenas saíram de controle. Era pra ser uma conversa rápida, depois te soltariamos, mas você continuou desmaiando e o médico não sabia o que fazer.
— E o que vocês querem?
— Liberdade.
Isso me surpreende, os humanos não se envolvem muito com lobisomens e vampiros, e nós não nos envolvemos com eles além do necessário.
— Liberdade?
— Queremos que vocês parem de nos caçar, nos transformar, de nos usar como refeição.
— Não é o que fazemos.
— Talvez não no palácio em que você viveu rapaz, mas o mundo é muito grande.
O Pran começa a ficar agitado e isso tira o meu foco, eu considero o que o homem disse e penso no que fazer, conhecendo o Pran como eu conheço tenho certeza que ele está me procurando e a sua calma me faz acreditar que já sabe onde estou, é só uma questão de tempo, mas a verdade é que um resgate não é necessário, agora mesmo seria fácil sair daqui e, se preciso, matar quem estiver no caminho, mas esse homem apesar da aparência calma está com o coração acelerado, os outros assistem em silêncio tão ansiosos quanto ele. Penso no que o Pran faria nessa situação, não sobre o sequestro, mas sobre leis sendo quebradas e qualquer outra coisa que estejam fazendo com os humanos, a resposta é fácil, ele ouviria o que eles têm a dizer, ele os ajudaria. Com a decisão tomada eu sento soltando a corda que ainda prende as minhas mãos enquanto falo.
— Pran, eu estou bem, não faça nada por enquanto!
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Puro Sangue
FanfictionEm meio a uma fuga para salvar suas vidas, Pat, um lobisomem e Pran, um vampiro puro sangue, são forçados a confrontar suas próprias naturezas e limites quando uma conexão proibida é estabelecida entre eles. Envolvidos em uma relação intensa e peri...
