Leah
Estrada 27, 610 km de Bluish City
"Senti sua falta, baby.”
Eu conseguia imaginar perfeitamente sua voz doce e familiar, e embora antes me confortasse, naquele momento estava me causando ânsias.
Limpei o suor que escorria de minha testa, forçando-me a ficar calma.
Céus, eu precisava sair dali.
Olhei para minhas mãos, que tremiam, e me forcei a respirar vagarosamente. Contei até dez mentalmente, algumas vezes, e limpei as lágrimas que escorriam involuntariamente.
Sem que eu pudesse controlar, estava, em alguns segundos, soluçando.
Me forcei a continuar dirigindo, ignorando aquela sensação sufocante de estar sendo seguida.
Eu estava hiperventilando.
Limpei minhas mãos na calça furiosamente, odiando-o. Por ter aparecido. Por ter encostado em mim, e estragado o final de semana com meus pais - o primeiro, depois de muito tempo.
Odiei-o por me deixar apavorada. E me odiei, ainda mais, por deixá-lo ter tanto controle sobre mim.
Dizendo a mim mesma novamente que precisava ficar calma, limpei as lágrimas que borravam minha visão, respirando profundamente. Eu precisava sair dali.
Dirigi o mais rápido que podia, agradecendo mentalmente ao fato de não haver trânsito naquela parte da cidade, e encostei o carro em frente a um bar, que me parecia satisfatoriamente vazio.
Eu não gostava de beber. Nunca gostara da sensação de não ter o controle sobre mim mesma, e Marcus me fizera odiar a bebida - e tudo o que ela fazia com as pessoas. Mas eu precisava esquecer aquilo. Precisava esquecê-lo.
Ri, um pouco alto. Como se eu ainda estivesse apaixonada por ele. Não... Ele precisava me esquecer.
Tudo o que eu queria, naquele momento, era apenas uma noite de paz. Sem medos e pesadelos. Sem meus demônios para me atormentar. E mesmo que isso significasse ficar bêbada, eu iria tê-la.
Forcei minhas pernas a caminharem até a porta do pub, e joguei minha bolsa no balcão, exausta. Sentei-me numa cadeira afastada do restante das pessoas que bebiam, ou conversavam animadamente, ou ambos, e pedi ao barman que me trouxesse uma tequila.
- Documento - ele pediu, depois de me encarar fixamente por alguns instantes, e suspirei. Aquele era um péssimo dia pra eles escolherem seguir a lei.
Pedi, ao invés, uma coca gelada, e ele assentiu, trazendo-a alguns segundos depois.
Despejei a lata no copo, bebendo quase tudo em um só gole, numa tentativa de dissipar o bolo que se formava em minha garganta.
O que eu fora fazer ali?
Notei quando ele se aproximou, mas não pensei que se sentaria ao meu lado. Na verdade, eu estava torcendo para que ele não me visse, afinal, eu não estava lá num ótimo humor para papo furado - não que nós conversássemos, de qualquer maneira. Mas que raios aquele garoto estava fazendo ali?
Mick. Mick Young, me lembrei.
O idiota que fizera a piadinha na piscina.
Resolvi ignorá-lo, porque assim talvez ele fosse embora, mas o garoto se sentou ao meu lado, me encarando por um tempo a mais do que o que era normalmente considerado educado, o que fez com que eu me perguntasse se ele havia me confundido com outra pessoa.
- Isso é coca? - ele perguntou, depois de algum tempo num silêncio esquisito, que eu não estava disposta a quebrar, em tom de ironia, enquanto me encarava daquela maneira irritante.
Talvez, se eu não respondesse, ele fosse embora logo, pensei. Alguns segundos depois, entretanto, ele continuava estava ali.
Talvez fosse uma piada, suspirei. Talvez, em suas noites de tédio, eles escolhesse alguém aleatoriamente para importunar. Bem, mas eu não estava com muita paciência.
- Posso te pagar uma bebida - ele disse, gesticulando na direção de meu copo, e ainda me encarava com aquela expressão. Algo que parecia uma mistura de ironia e curiosidade. Ou talvez ele só estivesse bêbado.
Bem, eu não estava num bom dia para aquilo.
- Não. Obrigada - eu disse, revirando os olhos, e me levantei. Eu já havia terminado minha coca de qualquer maneira, e não conseguiria comprar nada com aquela identidade naquele lugar.
Eu não deveria estar ali. Céus, eu havia saído da casa de meus pais no meio da noite. Eles com certeza estavam desesperados. E Marcus... Ele viria atrás de mim?
Eu não podia pensar naquilo. Não naquele momento.
Respire, eu disse para mim mesma, fechando os olhos por alguns instantes.
Mick segurou meu braço, e notei que ele também se levantara. Talvez tivesse interpretado meu nervosismo como mau-humor, o que não estaria tão longe de ser verdade, não fosse...tudo. E eu nem sabia por onde começar.
- Também não estou num bom dia, gracinha - ele resmungou, naquele mesmo tom irônico, e tentei me soltar. Que se dane, pensei. Eu precisava sair dali.
Olhei em volta, assustada, e me forcei a respirar. Droga, eu estava surtando. Era isso o que Marcus fazia comigo.
- Tire as mãos de mim - sussurrei, o que saiu como um resmungo, notando que ele ainda me segurava.
Ele me encarou atentamente, suspirando, e parecia ofendido. Ou talvez apenas irritado.
- Se acalme. Você não faz exatamente o meu tipo. - ele usou aquele mesmo tom de voz, carregado de ironia, e aquilo estava me irritando. Ele já havia insinuado isso na piscina, o que me pareceu totalmente sem sentido. Eu nunca sequer prestara atenção nele.
Tudo bem, aquilo era mentira. Não tinha como não notá-lo, com aquela pose ridícula de garoto perigoso que ignorava o resto do mundo. Eu já o havia notado, mas nunca fizera questão de falar com ele. Garoto metido. E de qualquer forma, ele viera falar comigo. Porque não podia simplesmente ir embora?
Talvez estivesse bêbado, pensei, então dei de ombros, desejando lhe passar uma expressão de "foda-se" silenciosamente.
Notei que minhas mãos ainda não haviam parado de tremer, e suspirei. Droga, eu realmente precisava me acalmar. Eu precisava de uma bebida. Eu precisa ir pra casa. Casa. Há quilômetros dali. Em outra cidade. Mas eu não podia voltar para lá.
- Ei - ele franziu o cenho, me encarando com aquela expressão irritante. - Você está bem?
Era possível que eu estivesse com uma cara péssima, e eu tinha certeza que estava, porque não notei a ironia daquela vez, ou talvez ela estivesse lá, mas eu não queria ouví-la. Eu não precisava de mais um motivo para desejar ir embora pra casa, e saber que não podia fazê-lo.
Tudo bem, eu estava num péssimo humor.
Suspirei, tentando me acalmar, e ele ainda me encarava, parecendo preocupado, o que era um pouco estranho. Eu parecia tão mal assim? Segundos atrás, eu sentia como se eu pudesse desmaiar, mas eu não achei que ele estivesse sóbrio o suficiente para perceber. Ou apenas me deixar em paz.
- Me pague uma bebida e eu vou ficar - falei num tom de brincadeira, depois de convencer a mim mesma de que não poderia dormir sem uma bebida. O que eu estava fazendo?
Então me sentei, antes que eu mudasse de ideia, porque aquela noite não podia piorar.
- Só uma? - ele levantou as sobrancelhas, sorrindo, e chamou o barman, pedindo algumas latas de energético e uma garrafa (gente...) de vodka. Tudo bem, nós não beberíamos tudo aquilo, tentei tranquilizar à mim mesma.
Observei-o misturas as bebidas naqueles copos vermelhos enormes, e, dane-se, eu realmente precisava de uma bebida.
Peguei a garrafa de sua mão, enchendo meu copo, e ele mostrou aquele sorriso irônico, fazendo o mesmo com o seu. Brindamos, e o observei virar tudo de uma vez.
Tudo bem, eu podia fazer o mesmo. Tente disfarçar a careta quando aquilo queimou minha garganta, e consegui não tossir. Céus, aquilo estava muito forte.
Ele já enchia o copo novamente, e o virei, desta vez fazendo uma pausa. Depois de quantos copos aquilo ficaria bom?
Acabamos fazendo uma espécie de competição silenciosa, e antes que eu percebesse, a garrafa já estava se esvaziando. Virei o restante do conteúdo em meu copo, tentando não derrubar tudo.
Quantas bebidas eram necessárias para deixar alguém bêbado? Ou talvez alegre?
Descobri a resposta alguns segundos depois, quando tudo começou a ficar um pouco desfocado, como num filme passado em alta velocidade na frente de meus olhos.
Os fechei algumas vezes, tentando me concentrar, e Mick riu.
Aquela coisa de beber era nova pra mim, mas até que não estava tão ruim. Eu estava bem.
Mick se levantou, e parecia um pouco tonto. Também me levantei, e acabei me desequilibrando.
- Você está bem? - perguntei, e ele riu. Talvez por ser eu a que tivesse quase caído, ou por minha voz estar soando engraçada.
Ele resmungou alguma coisa sobre se sentar, e pediu algumas garrafas de água ao garçom. Eu não estava com sede!
Ri, recusando, e pedi, ao invés, uma dose de tequila. Eu sempre quisera experimentar aquilo.
Chupei o limão, ignorando o sabor azedo, e virei o conteúdo do copo de uma vez, como eu via nos filmes. Aquilo era bom, mas, meu Deus, porque aqueles copos eram tão pequenos?
- Estou BEM - falei, um pouco alto. Talvez ele não estivesse me ouvindo com toda aquela música.
Música. Eu adorava aquilo.
Tirei aquela jaqueta, que estava me fazendo soar, jogando-a no balcão, e Mick me encarava de um modo que poderia ser um pouco constrangedor. Como se estivesse... Me paquerando. Ou apenas observando, eu não sabia dizer.
"Pare de me encarar" eu quis dizer, mas então me distrai com a música. Aquela que eu adorava.
- Eu AMO essa música - falei, puxando-o em direção ao centro do lugar, que naquele momento me parecia uma ótima pista de dança, mesmo não sendo muito grande.
Comecei a dançar, e embora eu não soubesse o que estava fazendo - girando de um lado para o outro, ou pulando, ou balançando, eu não tinha certeza, aquilo estava muito legal.
Eu não me lembrava que dançar era tão... Bom. E céus, ele estava tão perto que eu podia sentir o cheiro de creme para barbear. E bebida.
Ele aproximou seu rosto de meu pescoço, e eu ri. O que ele estava fazendo?
E quanto eu havia bebido?
Não percebi quando a música acabou, dando lugar a outras, e de repente, eu estava tonta, suada e cansada. Mas pelo menos só havia caído uma, ou talvez duas, vezes.
Tirei a mão de seu pescoço, exausta, e ri, talvez alto demais. O que eu estava fazendo? Dançando. Sim, aquilo era tão legal!
Ele me puxou de volta ao balcão, e tentei não cair na metade do caminho.
- Sabe o que seria ótimo? - perguntei, observando todas aquelas luzes. Tudo estava tão...brilhante. E quente. Eu estava com muita sede.
- O que? - ele perguntou, levantando as sobrancelhas, naquele tom irônico.
- Champanhe - falei, e talvez aquela fosse uma ideia idiota. Eles nem sequer venderiam aquilo ali. Mas Mick sorriu, e alguns segundos depois, tínhamos uma garrafa de champanhe barato na nossa frente. E estava delicioso.
Ele virou o champanhe naqueles copos de plástico, mas depois de alguns goles, começamos a beber direto da garrafa, e me forcei a ir com calma. Como voltaria pra casa? Eu sequer me lembrava do caminho? Eu já sentia meu estômago sem embrulhando.
- E então - ele esbarrou seu braço no meu, me passando a garrafa já pela metade - Me conte porque está aqui.
Porque eu estava ali? Então, me lembrei. Meus pais. Marcus.
Tudo. Não, eu não queria falar.
- Porque você está aqui? - evitei responder sua pergunta, mudando o foco da conversa para ele, que apenas deu de ombros.
-Descobri que minha namorada é uma idiota. E o desgraçado do meu amigo... - ele disse, com certa naturalidade, após ponderar por alguns segundos - Não vamos nem falar sobre ele.
Eu ri, e então ele riu também. "Qual das suas namoradas?", eu queria perguntar, mas achei que aquilo seria um pouco grosseiro.
- Essa é uma boa razão pra encher a cara - eu falei, em tom de brincadeira, e ele riu, tomando o restante do champanhe.
Ficamos em silêncio por algum tempo, e eu achei que ele estivesse meio puto com o que eu havia dito. Me virei em sua direção, e ele dormia, com a cabeça encostada no balcão sujo, e não pude evitar uma risada. Encostei minha cabeça por alguns instantes, porque, céus, eu estava tão exausta.
Alguém mexia no meu cabelo, e eu queria dizer que não parasse, porque estava bom, mas o sono me vencia.
- Você precisa acordar - ouvi a voz grave de Mick bem próxima, e resmunguei. Porque ele não me deixava dormir em paz?
- Que horas são? - perguntei, depois de alguns segundos, e ele bocejou.
- Tarde pra caralho. Ou cedo. - ele sorriu, e notei que tinha umas ruguinhas ao redor dos olhos.
- Droga - me lembrei que Rebeca provavelmente estaria preocupada, e me levantei rapidamente. "Não caia", repeti a mim mesma. - Preciso ir pra casa.
- Eu levo você - ele falou, num tom sério, e então começamos a rir. Teríamos sorte se conseguíssemos chegar à saída do bar.
Ele estendeu seu braço, e andamos assim, meio enganchados, numa tentativa idiota de não cair. Ele destravou seu carro, me dizendo para dormir um pouco.
Tudo bem, aquilo era meio perigoso. Eu nem o conhecia direito, afinal. Ou conhecia? Estudávamos juntos desde o começo daquele ano, mas ele nunca me dirigira a palavra. Nem eu a ele. Naquele momento, me perguntei porquê.
Mas havíamos enchido a cara juntos. E caído no chão. E estávamos bêbados. E provavelmente no dia seguinte ele estaria falando sobre aquilo pras pessoas - na verdade, eu torcia para que não se lembrasse, e, com a quantidade de coisas que havia bebido, não seria uma possibilidade difícil.
Acabei pegando no sono rapidamente, só acordando algum tempo depois com o som de sua voz. Ele estava no telefone, e chamava um táxi.
Suspirei, aliviada. Eu já não me parecia um ótimo motorista, que dirá naquele estado.
O táxi chegou rapidamente, e nos jogamos nos bancos de trás, meio abraçados. Pedi ao motorista para ligar o rádio, e Mick riu.
- Onde você mora? - ele perguntou, e só então percebi que eu estava cantando baixinho.
Demorei alguns instantes para me lembrar, e disse o endereço vagarosamente para o motorista, que revirou os olhos.
Mick pediu a ele para esperar alguns segundos, e desceu comigo, me perguntando se eu conseguiria subir todas aquelas escadas sozinha.
Subi o primeiro degrau, rindo, e quase me desequilibrei. Pelo visto, eu havia bebido mais do que me lembrava.
- Céus, acho que nunca bebi tanto - suspirei, disfarçando uma risada, e pensei que talvez eu tivesse dito algo idiota, porque Mick ficou me encarando por, sei lá, um tempão.
Ele se aproximou, me segurando pela cintura, e me ajudou a subir as escadas. Na verdade, eu tinha a impressão de que ambos poderíamos cair a qualquer instante, e aquilo não seria nada bonito.
Suspirei, aliviada, ao chegarmos no segundo andar, e procurei pelas chaves em meu bolso. Mick tornara a me encarar, e aquilo era um pouco assustador, e bem sexy, pra falar a verdade. E eu só conseguia pensar que ele tinha olhos bem bonitos.
Como diabos ele fazia aquilo? E porque meu coração batia tão rápido?
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Perto do limite
RomanceEu passei muito tempo tentando entender o que essa história representa - para os leitores e para mim, mas acho que, no fim, é uma história sobre se apaixonar. Sobre como o amor pode trazer de volta cores para uma parte da sua vida que estava em somb...
