Mick
Eu não sabia o que mais me atraia em Leah, porque não sabia o que me atraia nela.
A garota e eu éramos uma espécie de coisa impossível. Eu não me via com ela uma semana atrás - e se alguém sugerisse aquilo, eu acharia ridículo. Na verdade o mandaria se foder, porque Leah Parker e eu? Não. Aquilo não aconteceria.
A verdade é que existe um número grande pra caralho de pessoas em que nós não reparamos, e Leah era uma dessas para mim. Eu não passava muito tempo olhando pra ela, porque bem, não era algo fácil de se olhar. Ela sempre estava com uma careta mal-humorada - como uma garota na TPM todos os dias, ou um dos caras do time de futebol perdendo uma centena de jogos seguidos. Leah era assim. Ela parecia aquele tipo de tempestade violenta que você não queria se aproximar.
Ela não tinha amigos - com excessão da garota com quem sempre se sentava e aparentemente trocava algumas palavras - e não parecia se incomodar com isso. Na verdade, era como se ela não quisesse ter. Como se não quisesse perder seu tempo com outras pessoas.
Eu já a havia visto, é claro. Uma vez a peguei cabulando a aula de educação física para ler ns biblioteca - cara, quem fazia isso?
E outra vez ela me pegou agarrando Luiza atrás de uma das quadras de esportes, onde alguns caras chapados iam pra fumar, o que achei estranho, porque nunca a vira fumando.
A questão é que eu nunca tinha reparado nela de verdade antes.
Leah não era feia - na verdade, eu até já havia ouvido alguns garotos falando em chamá-la pra sair - mas também não era do tipo que se mostrava. Ela nunca ia às festas, jogos, ou qualquer outro evento idiota que reunisse todos.
Eu me lembrava de uma vez - quando ela havia aparecido, no início do semestre, e ninguém a conhecia - a Srta. Dune, nossa professora de literatura, pediu (ou na verdade obrigou, já que ela era bastante insistente) que eu me sentasse com a garota, para que ela pudesse usar o livro comigo. E eu até havia tentando ser legal - mas ela mal trocou duas palavras comigo, e nem se apresentou. Eu não podia críticá-la, entretanto. Aquilo a tornava meio interessante.
Então, naquele dia nas arquibancadas, eu e Tray havíamos cabulado o último período para fumar - aquele babaca da outra turma, Charles, que estava sempre chapado, fornecia maconha para qualquer um por um bom preço - quando a vimos meio escondida, com seus fones de ouvido. Ela tinha um caderno na mão, e parecia estar escrevendo, ou desenhando - eu não sabia dizer.
Então Tray fez algum comentário sobre ela estar gostosa, e a garota pareceu não ouvir - ou não se importar - e eu disse que ele precisava de óculos. Na verdade eu nem havia reparado se ela estava, de fato, ou não, mas queria que ela dissesse alguma coisa.
Eu não sabia o que me atraia em Leah, mas algo atraía. Eu até, cacete, eu até gostava um pouco dela.
E então a beijei. De novo.
Não sei de onde veio aquela ideia, mas eu sabia que ela não gostava de falar - sobre ela mesma ou sua vida, ou os raios de segredos que ela parecia guardar - e eu não gostava de ouvir, então acho que éramos uma boa combinação; e a julgar por suas expressões enquanto estávamos no carro, eu podia dizer que ela concordava comigo.
- Quer ir pra algum lugar? - eu perguntei, alguns instantes depois de as coisas começarem a ir rápidas demais, e ela se afastar por alguns segundos.
A verdade é que eu não queria parar. Com a Leah, nunca dava pra parar. Era como se, caralho, como se estivéssemos num incêndio ou algo do tipo. Mas eu podia ver que ela não parecia muito certa de até onde queria chegar. E eu não era do tipo que forçava a barra.
- Rebeca está me esperando. Minha irmã, quer dizer - ela ajeitou a regata, e nossa, como eu adorava aquela blusa, mas não me encarou. Então ela ia começar com aquela coisa de quente e frio de novo...
- Não é nada demais, Leah. Só quero ficar uma noite com uma garota bonita - eu disse, lhe lançando meu melhor sorriso, e ela pareceu estar cogitando as opções por alguns instantes.
- Tem várias garotas bonitas por aí que adorariam sair com você - ela disse, em tom de brincadeira, e me encarou de forma provocadora.
- Estou chamando você - eu disse, e pude ver que ela tentou conter um sorriso - Vamos, Parker. O que mais você tem pra fazer num domingo a noite?
- Está me chamando de desocupada? - ela fingiu uma expressão surpresa, e me perguntei o que ela fazia em seu tempo livre. A garota não parecia do tipo que ia ao shopping, ou a bares (embora as duas primeiras vezes que acabamos nos encontrando tenham sido em um) - E não me chame assim.
- Eu não disse nada - levantei as mãos, a provocando, e ela fez uma careta, rindo, e por fim concordou.
Dirigi até o Slayer, o único lugar que eu conhecia aberto naquele horário, em um domingo, e que não se parecia com um boteco, e então me lembrei de como havíamos enchido a cara lá.
Bob me cumprimentou com um aceno, e analisou Leah atentamente, depois deu do ombros, então me lembrei que eu nunca havia entrado com uma garota - geralmente era o lugar em que eu ia quando queria esfriar a cabeça, o que significava ficar de porre, e garotas não ajudavam - mas eu sempre saia com elas. Normalmente era a garçonete gostosa (a ruiva de corpete), mas quando se está bêbado, fica difícil lembra das coisas.
Tentei não pensar nisso enquanto Leah e eu íamos para o fundo do bar, e ela pedia uma daquelas bebidas enjoativas de chocolate, então me lembrei do quanto aquilo parecera bom em sua boca.
Pedi uma daquelas bebidas que Tray sempre pedia, e me pareciam uma porcaria, mas eu queria experimentar. Red paloma ou algo assim.
- Não vai querer um pouco da minha dessa vez? - ela perguntou, me estendendo o copo verde neon com uma bola de sorvete de chocolate flutuando na bebida, e lhe lancei um sorriso.
- Você pode me deixar experimentar de outro jeito - eu disse, olhando significativamente para sua boca, que dessa vez estava sem aquele batom, mas eu quis beijá-la do mesmo jeito.
- Você tá dando em cima de mim? - ela perguntou, brincando, mas notei uma pontada de curiosidade. A verdade era que nem eu sabia o que estava fazendo.
Trocamos os copos, e a garota deu um gole em minha bebida, fazendo uma careta.
- Alguém deveria beber algo mais fraco - eu disse, a provocando, e ela me lançou um olhar tipo "tá brincando?", virando quase toda a minha bebida em um gole só, me encarando de forma desafiadora, e pediu ao bar man outra daquela, me estendendo o copo.
- Alguém tem que dirigir - eu disse, passando-o para ela, que rolou os olhos.
- Como se você ligasse pra isso - ela disse, com um sorriso, e me lembrei daquela primeira noite, naquele mesmo bar. É, eu realmente havia dirigido bêbado pra cacete.
Eu sei, aquilo fora idiota. A verdade é que eu havia sido um pouco arrogante - achava que não era fraco pra bebidas, e por isso, podia encher a cara e ainda assim dirigir.
- Não vou beber isso sozinha - ela disse, dando pequenos goles, e me estendeu o copo. Tudo bem, eu não ficaria bêbado com só aquilo. Já havia feito pior antes.
- Não vai me chamar pra dançar hoje? - eu perguntei, enquanto bebia meu terceiro drink, e ela lambusava algumas batatas fritas no molho de pimenta.
- Não - ela me lançou uma expressão mal-humorada, revirando os olhos, e sorriu - Eu precisaria estar bem bêbada pra isso.
- Gosto de sua versão bêbada - eu disse, lhe passando meu copo, e ela deu um longo gole, dessa vez não fazendo careta, e a puxei.
- O que tá fazendo? - ela perguntou, se colocando de pé, e segurou-se em meu braço, tentando manter o equilíbrio, o que seria uma boa ideia, não fosse pelo fato de eu também estar meio tonto.
- Eu gosto dessa música - eu disse, a imitando, e ela deu uma risada alta, me encarando como se não acreditasse. Ela estava certa, a música parecia ruim.
- Odeio essa música - ela disse, rindo, e, depois de acabar com a bebida, segurou minha mão, me puxando para o centro do bar.
- E eu não sei dançar - ela completou, enquanto ambos estávamos parados ali no meio, e as outras pessoas, bêbadas demais para se importar.
- Eu também não - eu disse, a puxando mais para perto, até que eu podia sentir o cheiro de seu shampoo, e ambos nos desequilibramos. Ela riu, passando os braços pelo meu pescoço, e depois os retirou, parecendo envergonhada, então a puxei para uma espécie de abraço meio desajeitado, e ela aproximou sua boca do meu ouvido, sussurrando sobre aquela não ser uma música lenta.
- Odeio músicas lentas - eu falei, e ela ficou em silêncio, me encarando com aqueles olhos grandes, as mãos em volta do meu pescoço novamente - O que foi?
- Só quero beijar um garoto bonito por uma noite - ela disse, sussurando a última parte, e segurou meu rosto com as mãos.
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Perto do limite
RomanceEu passei muito tempo tentando entender o que essa história representa - para os leitores e para mim, mas acho que, no fim, é uma história sobre se apaixonar. Sobre como o amor pode trazer de volta cores para uma parte da sua vida que estava em somb...
