Capítulo 41

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Mick

A primeira coisa que fiz foi correr. Porque eu não tinha um carro ali, e porque não podia voltar para aquele hospital. E precisava fazer algo. Eu precisava sair daquele lugar.
Então eu corri, até minhas pernas doerem e eu não conseguir respirar - porque eu já sentia como se não pudesse. E não parei.
Eu não sabia onde estava. Depois de um tempo, parara de tentar seguir qualquer caminho conhecido, e sabia que precisava parar - eu não aguentava mais dar nenhum passo, mas eu precisava. Eu precisava tirar aquela merda da minha cabeça. Eu precisa esquecer aquilo. Eu precisava sair dali. Para qualquer lugar.
Antes que eu percebesse, estava seguindo o caminho da casa de Leah, e então virei em outra rua, me lembrando de como as coisas estavam entre nós. Ou não estavam. A garota não falava comigo, e deixara claro que continuarmos com aquilo - o que quer que fosse - não era uma opção. E tudo bem. Foda-se. Mas eu precisava falar com alguém, e eu queria vê-la.
Antes que eu fizesse algo de que pudesse me arrepender depois, entrei no primeiro bar que encontrei - duas ruas depois da sua, porque eu não sabia pra onde ir, e pedi ao garçom um daqueles combos, conhecidos por serem caros pra caralho - e geralmente divididos entre bem mais de uma pessoa, mas eu planejava bebê-lo sozinho, e não me importei de aquilo ter gastado quase todo o meu dinheiro, porque eu podia voltar andando para casa. Ou não voltar. Se Leah estivesse ali...
Tentei tirar aquilo de minha cabeça - tirá-la de minha cabeça, mas pensar nela era melhor do que pensar no que havia acontecido. Não. Eu não podia.
Virei uma dose de uísque, que desceu queimando por minha garganta, e tornei a encher meu copo.
Me lembrei do modo como seus lábios se crispavam numa careta quando ela bebia algo que não gostava, e depois sorria. Ela era uma boa companhia para beber. E para beijar. E pra tudo. Pena que estava agindo como Alison. Nah. Ela não era como Alison. E eu não precisava de outra garota daquela. Eu não precisava de mais complicação.

Eu não sabia quanto havia bebido, mas sabia que um gole a mais e eu vomitaria, ou cairia pra fora daquele banco, quando uma garota loira magrela se aproximou de onde eu estava sentado, com um copo na mão, e embora eu não pudesse ouvir o que ela dizia, eu sabia que ela estava me dando mole.
Ela tinha um sorriso bonito, então lhe ofereci uma bebida, em parte porque eu não aguentaria beber nem metade daquilo, e já estava bêbado pra caralho, e em parte porque não queria ouvi-la. Eu não queria ouvir nada.
A garota se serviu de uma dose de uísque, dando pequenos goles, e notei que seus olhos eram extremamente azuis. Ela me disse, com uma voz doce e tímida, que se chamava Amanda, e estava visitando uma prima na cidade, e então perguntou meu nome. Então era a parte do papo furado.
Me apresentei, não sabendo o que a fizera vir até mim, porque eu certamente não deveria estar parecendo grande coisa naquele momento. Bêbado. Cansado. Em pedaços.
- Hey... Amanda - eu a encarei, tentando prestar atenção em seus olhos, porque milhões de imagens passavam por minha mente, e nenhuma delas era boa ou tinha alguma relação com a garota loira do bar ou aquela garrafa de uísque - Você quer sair daqui?
Ela parou de falar um pouco depois de minha pergunta, sorrindo, e concordou. Tentei me colocar de pé, mas tudo parecia estar girando, e eu sabia que ia vomitar. Na porra daquele instante, e então a garota loira me odiaria por vomitar nela.
Eu precisava sair dali.
Deixei uma boa gorjeta em cima do balcão, e sai, deixando Amanda para trás. Caralho, eu precisava de um pouco de ar.
Me sentei na calçada, virando-me para o lado, vomitei.
- Você está bem? - ouvi alguns passos atrás de mim, e surgiu, parecendo preocupada e eu disse que precisava ir, acabei tropeçando na merade do caminho enquanto tentava correr, e ela deve ter me achado louco, porque não veio atrás de mim. Que porra eu estava fazendo?
Andei sem destino por algum tempo, e talvez eu estivesse meio perdido, porque não conhecia aquele lugar. Eu não sabia onde estava, e nem sequer me lembrava de ter pego meu celular em cima do balcão.
Um carro parou ao meu lado, e pensei que talvez eu fosse ser assaltado, mas então me lembrei de que eu não tinha nada ali. Eu havia acabado com todo o meu dinheiro com aquelas bebidas.
- Cara, Mick - Luke saiu do carro, seguido por Zach, e eles começaram a me ajudar a levantar, e Luke ficou me perguntando como eu estava, enquanto Zach ficava em silêncio, olhando para outra direção.
- Nós ficamos te procurando um tempão - Luke bufou, e Zach fez uma careta, dizendo para ele me deixar em paz, num tom de voz baixo, como se eu não estivesse ao seu lado. Ele estava me protegendo? E que raios eles estavam fazendo ali?
Acho que perguntei isso em voz alta, mas os observei trocarem um olhar em silêncio, enquanto tentavam me arrastar para o carro, e me perguntei que porra estava acontecendo.
- Você quer ir pra casa? - Zach perguntou, se virando para mim, e neguei, bufando. Não. Eu só queria sair dali - Você precisa ir uma hora...
Ele se virou para mim, me encarando com aquela sua cara de quem estava prestes a me dar uma lição de moral, e eu sabia que estava bêbado demais para ouvir. Eu não queria ouvir.
- Não quero ouvir esse papo - balancei a cabeça, fechando os olhos, e eu podia ter caído no sono, não fosse o fato de eles estarem sussurrando, como se eu não estivesse ali, e de termos chegado na casa de Zach.
- Sinto muito, garoto - o pai de Zach me deu um tapinha nas costas assim que entrei e me perguntou se eu precisava de algo. Então eles sabiam. Todos eles sabiam. Então era verdade.
Tentei ignorar o bolo que se formava em minha garganta, e fiquei grato pelo fato de eu ter bebido demais para sentir qualquer coisa a mais do que aquilo, então agradeci ao pai de Zach, me jogando num de seus sofás, e Luke fez o mesmo.
Fechei os olhos, mas não cai no sono porque alguns instantes depois Zach voltou com algumas latas de cerveja barata, que bebemos até depois da meia noite, apesar de meu estômago estar se revirando, quando Luke disse precisar ir embora.
- Me passa isso - eu peguei sua lata, praticamente intocada, porque ele raramente bebia. Não que Luke fosse certinho ou algo do tipo, ele apenas gostava de ter o controle sobre tudo.
Ele tentou me dar um abraço desajeitado, e recusou a carona de Zach, dizendo que iria pegar um ônibus pra casa.
Me levantei para pegar mais uma cerveja, e Zach fez uma careta.
- Você vai acordar com uma puta ressaca...
- Eu não me importo - caminhei em direção à geladeira, e ele me segurou.
- Cara... - ele começou a protestar, mas então me seguiu, e bebemos até cair no tapete da sala, quando eu estava cansado demais para pensar em levantar.

Zach estava certo. Acordei na manhã seguinte com uma ressaca dos infernos, e eu mal consegui me colocar em pé.
Eu poderia ter dormido até tarde, mas não estava na minha casa. E meu celular estava tocando. Na verdade, ele não parava de tocar no bolso da calça, e pensei em ignorá-lo, mas aquele som estava fazendo minha cabeça explodir.
Me levantei, o desligando, e Zach tomava café. Ele me ofereceu uma xícara.
- Miranda ligou. O enterro é às duas...
- Tudo bem - bebi o café, que estava amargo pra caralho, em alguns goles, e lavei a xícara rapidamente.
- Quer falar sobre isso?
- Você não precisa ir pra faculdade? - perguntei, ignorando propositalmente o que ele havia ido, porque ele nunca faltava, apesar de estudar do outro lado da cidade, mas eu sabia que ele faltaria. Zach não perderia o enterro de meu pai.
- Posso usar sua moto? - perguntei, e ele fez uma careta, com medo de que eu pudesse fazer besteira, mas me jogou as chaves.
- Onde você vai?
- Passar em casa. Fique calmo - lhe assegurei - Vou entregá-la inteira.
...

Foi uma tortura. Cada parte.
Eu tomei um banho demorado, e levei mais do que o necessário para vestir uma camisa social quase completamente desamassada e meus jeans pretos, porque eu sabia que Melissa e Greg estavam lá embaixo, e ela o estava consolando.
Quando eu desci, ele tinha a cabeça em seu colo, e ela enxugou os olhos vermelhos, me dando um sorriso fraco. Então eles fizeram as pazes, pensei, e de certa forma aquilo era bom. Pelo menos ele não seria um pé no saco pelos próximos dias.
Greg não me encarou, mas ele parecia cansado. Melissa se levantou, vindo em minha direção, e me ofereceu um abraço, trazendo seu perfume de lavanda consigo.
- Você já comeu? - ela perguntou, se afastando - Eu ia preparar um sanduíche para o Greg...
- Estou bem - afaguei seu ombro. Melissa era assim, sempre preocupada.
Me sentei no outro sofá, esperando um discurso de Greg sobre o fato de eu ter surtado no hospital, ou passado a noite fora, ou agido como uma criança. Mas ele não veio, e Greg simplesmente ficou em silêncio, com a cabeça entre as mãos. Então eu também não disse nada.
Acho que simplesmente me desliguei, porque não vi a coisa toda passar. O caminho de carro até lá e Greg brigando com a garota por uma coisa idiota. Miranda linda num vestido preto de mangas longas, e o modo como ela veio me abraçar e caiu no choro, molhando minha camisa e reclamando sobre o fato de eu nem ao menos tê-la passado e de meu hálito estar cheirando a uísque. Um cara que eu não conhecia que não saia do seu lado. Alguns parentes distantes e vizinhos solidários dizendo sentir muito.
Então simplesmente desliguei. Eu não queria estar ali. Eu não queria que aquilo fosse real.
Lembro de ter visto Luiza, e me perguntar que diabos ela estava fazendo ali, e procurar pelos olhos bonitos de Leah. É claro que ela não iria. Ela havia deixado bem claro que não queria mais nada. Luke e sua namorada baixinha. Zach, os pais e a irmã - que estranhamente estavam todos juntos.
Também teve uma briga, mas não fiquei tempo o suficiente para saber o motivo. Então pedi as chaves do carro de Tray, porque eu sabia que Zach não me emprestaria sua moto de novo, e ele veio atrás de mim, então lhe perguntei se ele conseguiria arranjar algo forte.

Perto do limiteOnde histórias criam vida. Descubra agora