Capítulo 38

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Leah

Rebeca me deixou ficar o restante da tarde em sua sala, enquanto ela trabalhava, e constantemente me perguntava se eu estava bem, até, no meio da tarde, eu me cansar de parecer inútil, e resolver ajudá-la. Já passava das oito quando seu chefe apareceu com algumas embalagens de um restaurante chinês perto dali, e uma garrafa de vinho, que dividimos ali mesmo enquanto ele e Rebeca tagarelavam sobre assuntos da revista - e eu me concentrava na comida, que estava ótima, enquanto reforçava o pensamento de que, bem, aquele cara parecia meio a fim dela. Tirando o fato de ele ser casado, tudo estava ok.
Parei no meu segundo copo de vinho - eu não queria parecer bêbada na frente do chefe da minha irmã mais velha, e os dois se ocuparam do resto.
Lá pelas dez, ele a liberou, e nos ofereceu uma carona pra casa embora eu tivesse certeza que ele sabia que Rebeca tinha um carro.
- Ele gosta de você - eu disse, assim que a porta do elevador se fechou, e Rebeca arregalou os olhos, então riu, se lembrando que estávamos sozinhas.
- Ele é meu chefe. E é casado - ela pareceu chateada, e revirei os olhos.
- Ah, Bec. Para. Tá na cara. Vocês dois estava basicamente flertando na minha frente...
Eu ri, e ela fez uma careta, me ignorando.
- Eu preferia você calada - ela resmungou, irritada, mas sorriu alguns segundos depois. A verdade é que aquele tempo com Rebeca havia me deixado melhor. Porque eu quase havia esquecido toda a coisa com meu ex namorado perseguidor. E o garoto que eu havia dispensado naquela manhã.
- Garotos são uma perda de tempo - Rebeca me abraçou, notando meu olhar, e concordei. Eles eram.
- Decidiu cortar para o outro lado? - eu perguntei, sorrindo, e ela me deu um soco no braço, de brincadeira.
- Bobinha. E não. Eu apenas estou bem. Solteira.

Eu demorei a conseguir pegar no sono, e quando finalmente o fiz, fui interrompida por uma sequência de pesadelos sem sentido que iam e vinham. Na metade da noite, já exausta, me levantei pra tomar um copo d'água e lavar o rosto. Eu estava suando. Eu queria tomar banho - talvez aquilo ajudasse a me acalmar - mas não queria acordar Rebeca, por isso voltei para o meu quarto, e procurei por meus fones de ouvido na mochila.
Então, procurei nos arquivos de meu celular pelo áudio de Mick tocando, e o repeti algumas vezes até conseguir pegar no sono novamente, acordando, algum tempo depois, com o barulho do despertador. Era estranho como o som de sua voz conseguia quase que me...acalmar.
Entrei debaixo do chuveiro, tomando um banho demorado - eu tinha tempo de sobra, já que estava um pouco adiantada, e relutante, me encarei no espelho enquanto secava o cabelo. Eu estava horrível. Procurei, na necessaire que eu guardava no espelho e raramente usava, pelo corretivo, numa tentativa débil de disfarçar aquelas olheiras dos infernos, e prendi meu cabelo num coque baixo.
Vesti um jeans e meu moletom favorito, que eu havia ganhado do meu pai há uns dois natais, e ainda servia - ele costumava me animar, como uma espécie de ursinho de pelúcia ou algo do tipo, e calcei meus all stars.
Fiquei enrolando no quarto enquanto não dava o horário exato de sairmos, pois eu não queria que Rebeca percebesse o quanto eu havia tido uma noite ruim, e ela era ótima em notar essas coisas. Arrumei minha cama, dobrei as roupas, sequei o banheiro, escovei os dentes mais uma vez e mexi em minha prateleira de livros.
- Leah - ela me chamou, impaciente, e peguei minha mochila, descendo as escadas rapidamente - Achei que ainda estivesse dormindo.
- Bem que eu queria.
Fui o caminho todo ouvindo aquele áudio, como uma espécie de segredo.
- Boa aula - eu estava distraída, e se Rebeca não tivesse me chamado, teria ficado no carro por sabe se lá quanto tempo.
Comprei um café no caminho para a aula - educação física - e ao sentir o cheiro das batatas fritas que vinha da cantina, percebi que eu estava faminta. Comprei um daqueles sanduíches possivelmente nada naturais, e procurei por um canto afastado das arquibancadas, onde pudesse comê-los sem ser interrompida.
Pensei em sair dali quando a fumaça de cigarros - e possivelmente algo mais - me fez ter um ataque de tosse, mas percebi que as pessoas já tinham começado a se aglomerar perto da piscina, e a técnica já havia chegado, então eu não conseguiria escapar daquela aula. Ou talvez eu pudesse ficar escondida, e terminar o meu livro. Me parecia uma ideia bem melhor do que mergulhar na piscina naquele frio e, possivelmente, pegar um resfriado. Eu mal havia dormido, e não queria ficar doente também.
Tentei me concentrar em meu livro, mas todo aquele barulho tornava aquilo meio impossível, e a história era ruim. Na verdade, eu o havia pegado aleatoriamente na biblioteca, numa tentativa de me distrair. Bem, não estava funcionando.
Tentei não pensar no fato de que Mick estava perto dali, e eu podia ouvir sua conversa com Luiza. Tentei não encará-los, e tentei não pensar no fato de ela estar com aquele maiô ridículo que deixava seus peitos enormes. Na verdade, talvez eu estivesse com ciúmes, porque ela estava muito bonita. Sim. Céus, eu estava. Mas porque? Eu o havia chutado, afinal.
Aumentei o volume da música até o máximo, mesmo que aquilo me incomodasse um pouco, depois de ouvi-lo dizer que ela estava bonita. Definitivamente, eu estava com ciúmes. Então, parei de prestar atenção em seu papinho furado e na voz irritante de Luiza, que foi interrompida pelo apito da técnica, e nos mandou formar duplas.
Fiz uma careta, mal-humorada. Ela realmente nos faria nadar naquele frio?
- Vamos fazer uma competicãozinha - ela disse, confirmando o que pensei, e olhou em minha direção, antes que eu pudesse me esconder - E senhorita Leah, nos dê o prazer de sua companhia dessa vez. Não pode fugir de minha aula o tempo todo...
Ela me encarou com o cenho franzido, e riu, o que me fez pensar que estava de bom humor.
Tirei meu moletom, pensando em uma maneira de escapar, e ela me veio em minha direção, impaciente.
- Vamos, você não vai fugir dessa vez, mocinha...
- Tudo bem - dei de ombros, concordando, mas a verdade é que eu estava nervosa pra caralho. Nadar com Mick havia sido uma coisa. Mas...eu não sabia se podia fazer de novo. E eu não queria parecer uma idiota na frente de todas aquelas pessoas. Na frente dele, mais especificamente.
- Eu faço dupla com ela - Luíza colocou-se ao meu lado, me lançando um sorriso que pareceu um pouco falso, e me perguntei o que ela estava aprontando, afinal, mas não pude deixar de concordar. Eu não queria dar um showzinho na frente de todo mundo, e já que a técnica havia me visto, não podia escapar. E todas as outras duplas já estavam formadas - notei que Mick estava com uma garota de cabelos encaracolados que participava de mais da metade dos clubes esportivos existentes.
Fingi não prestar atenção quando Mick tirou a camisa, exibindo seus músculos bem definidos, e as tatuagens escuras que contrastavam com a pele clara e cobriam quase toda a suas costas; até mesmo porque Luiza estava ao meu lado, e fazia o mesmo.
- Não finja que não está olhando - ela revirou os olhos, me assustando. É, eu realmente estava distraída - Mick é o cara mais quente que eu conheço.
O modo como ela disse isso me fez pensar que ela ainda era afim dele. Bem, não importa, eu pensei. Ela podia tê-lo agora.
Dei de ombros, e o encarei descaradamente, mais para irritá-la ,o que pareceu dar certo. Mas a verdade é que eu queria vê-lo. Mick era inegavelmente atraente e eu podia ficá-lo encarando por horas. Me lembrei, então, de como havíamos nos beijado, e de quando as coisas começaram a ficar, de fato, quentes, e senti meu rosto corar. Eu queria poder beijá-lo novamente e, quem sabe, até mais. Mas eu não podia, e precisava parar de pensar nele.
Ele me pegou o encarando por alguns segundos antes de eu desviar o olhar, e pude ver que ele parecia decepcionado por ter perdido para a garota, que tentava animá-lo. Me perguntei se ele a havia deixado ganhar, ou se a garota era, de fato, mais rápida.
A técnica nos chamou, e me aproximei, relutante, tentando me lembrar de como respirar. Joguei a toalha num canto qualquer, me lembrando que eu podia fazer aquilo - eu já tinha feito, há pouco tempo. Com Mick. Me virei, procurando-o nas escadas, e o avistei com a mesma garota. Ele não olhou em minha direção, mas eu sabia que ele estava ali, e tentei pensar nisso. Estranhamente, me acalmou, e então, fechei os olhos por alguns segundos, me concentrando, numa tentativa de evitar que as imagens de sempre me inundassem, impedindo-me de respirar.
Olhei para trás mais uma vez, e ele me encarava. Antes que eu pudesse desviar o olhar, Mick sorriu - um sorriso meio torto, que fez meu coração bater um pouco mais rápido, e então eu pulei.
Tentei não estremecer quando minha pele entrou em contato com a água, dizendo a mim mesma que eu me acostumaria, mas estava frio pra caramba.
Então mergulhei, e enquanto deslizava na água, senti toda a raiva daquela manhã se esvair conforme eu dava as voltas, ultrapassando, facilmente, Luíza; e então me lembrei do quanto eu gostava daquilo. A adrenalina e a sensação de calma - ambos ao mesmo tempo, na mesma medida. Nadei mais rapidamente do que tinha nadado em muito,
muito tempo, mesmo sem necessidade - Luíza parecia não estar se esforçando muito com seu nado livre lento e desajeitado.
Sai da piscina, secando meu rosto na toalha que eu havia jogado num canto qualquer, e esbarrei em Luiza, que me ignorou, não parecendo irritada com o fato de não ter ganhado, quando notei que treinadora me encarava com um sorriso de aprovação.
- Mandou bem, garota. Não sabia que podia ser tão rápida - ela me deu um tapinha no ombro, parecendo surpresa - Não fuja das minhas aulas. Talvez eu consiga te encaixar em alguma coisa.
Ela me dispensou com uma piscadela, e então me perguntei como seria fazer aquilo de novo. Nadar. Talvez eu até pudesse...competir de novo. Se conseguisse. Tentei não ficar muito esperançosa enquanto levava minhas coisas para o vestiário.
Eu precisava seguir com a minha vida. Não podia deixar o passado estragá-la pra sempre, certo? Então porque ele ainda me perseguia?
Pensar naquela mensagem, de Marcus, me fez estremecer, e tive que parar por alguns segundos, forçando-me a ficar calma, antes que eu surtasse; e me enfiei embaixo do chuveiro, aproveitando o fato de o vestiário ainda não estar muito cheio. Eu havia terminado de secar meu cabelo, e o ajeitava com as mãos, quando o vestiário começou a ficar cheio, e peguei minhas coisas, notando que uma garoa forte começava a cair. Atravessei o centro esportivo com pressa e pensei em começar a correr, quando nos encontramos.
Ele murmurou um pedido de desculpas, e ficou me encarando por alguns instantes, antes de eu dizer que estava tudo bem.
Às vezes, quando ele me olhava daquele jeito, eu sentia como se pudesse enxergar tudo. Cada parte. E aquilo me assustava pra caramba.
- Você é ótima, Leah - ele disse, como se estivesse pensando alto, e pareceu se arrepender. Porque ele tinha que dizer aquelas coisas? Aquilo só me fazia parecer mais idiota por tê-lo dispensado. Mas eu não podia me envolver. Não com toda aquela bagunça que eu era, e não quando toda minha bagagem do passado ainda me perseguia. E não quando havia a remota possibilidade de eu me machucar.
- Você é - eu disse, o que era verdade, e completei dizendo que precisava ir.
- A gente se vê - ele me deu uma piscadela, se afastando, e tentei não me sentir como se estivéssemos terminando algo.

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