Capítulo 35

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Mick

Ela estava há algumas carteiras na minha frente - o que era estranho, pois Leah sempre sentava no fundo (no lugar em que eu estava, pra ser exato, e eu meio que estava esperando ela vir reclamar) - e parecia rabiscar algo, distraída, em seu caderno. A garota não virou nenhuma vez em minha direção, e embora talvez eu estivesse apenas sendo paranóico, parecia que ela estava me evitando. De novo.
Já fazia uma semana, e aquilo estava me deixando louco. Às vezes eu me perguntava se a garota tinha aquele transtorno de múltiplas personalidades, ou apenas era meio maluca. Ou talvez não estivesse a fim, pensei. Então porque tudo aquilo naquela noite? Porra, no que a garota estava me transformando? Numa espécie de maricas perseguidor, era o que parecia. E porque eu não conseguia parar de pensar nela? Tudo bem, o beijo havia sido bom - mais do que bom, na verdade - mas não havíamos feito nada demais. Mal havíamos chegado na porra das preliminares. E sim, ela era realmente gata - não de um jeito muito óbvio - e uma ótima companhia pra encher a cara. Mas eu podia ter outras garotas se quisesse.
Eu sei, aquilo era convencido pra cacete, e talvez eu não passasse de mais um merdinha arrogante, mas não era como se as garotas fugissem de mim.
Talvez eu só estivesse com o orgulho ferido por ter sido dispensado, quando normalmente era eu quem fazia isso. Meio irônico, eu sei.
- O que tá pegando entre vocês dois? - Tray perguntou, num tom propositalmente alto pra caralho, e algumas pessoas se viraram para nós, inclusive a garota, que pareceu, por alguns segundos, um pouco incomodada, e voltou a rabiscar em seu caderno.
- TPM, pelo visto - eu disse, não tão alto quanto Tray, mas o bastante para que Leah escutasse, e ela se levantou alguns segundos depois, saindo da sala a passos rápidos. Nossa. Ela realmente não estava num bom humor. Tudo bem, eu estava sendo idiota, mas a garota me deixara um pouco irritado.
Era difícil entender Leah. Um dia, ela agia como se não pudesse esperar um segundo pra te agarrar - no meio da pista de dança de um bar - e, no outro, como se estivesse brava ou algo do tipo. Caralho, eu não tinha feito nada. Pelo menos, não me lembrava de ter feito, já que nós nem sequer havíamos nos falado.
- O que você fez? - Tray me perguntou, e percebi que aquele era um de seus dias sóbrios, do contrário ele estaria dormindo ou fumando maconha, não assistindo à uma aula entediante de geografia e puxando assunto - Perdeu o número de telefone dela?
Tray sabia que aquela era a desculpa que eu usava quando não queria ligar. Ou, na maioria das vezes, não usava nenhuma. Meio babaca, eu sei. Mas em minha defesa, elas também sabiam. Eu deixava bem claro.
- Não faço ideia - dei de ombros, como se não importasse. Tray era uma espécie de amigo, mas eu não confiava totalmente nele. Com excessão de Zach, eu não confiava totalmente em ninguém.
Nós éramos o tipo de amigos que saiam pra beber - ou ficar chapados -, e se divertir com garotas. Não o tipo pra conversar e contar porcarias, como o fato de sua namorada ter terminado com você por uma mensagem, ou seu pai estar, possivelmente, morrendo.
Para ser justo com ele, Tray havia me ajudado quando o furacão Alison explodira bem na minha cara. Ele fora o único que não julgara minha fase escura, porque, talvez, ele também estivesse em uma, e não me obrigava a falar sobre isso.
Mas ainda sim, eu não podia confiar nele. Eu realmente não ligava pra Luíza, mas eu não conseguia imaginá-lo encostando em Leah. Eu socaria a cara do idiota.
- Vou falar com ela - eu disse, e ele fez alguma piadinha com Luke sobre eu estar domado, ao mesmo tempo em que eu lhe mostrava o dedo do meio, e a professora nos lançava um olhar feio, desviando por alguns segundos a atenção de seu livro.
Peguei minhas coisas, porque eu não planejava voltar pra aula, e possivelmente ninguém iria me dedurar.
Procurei pela garota no corredor, e a encontrei sentada numa das escadas com o celular na mão, e ela realmente não parecia em seus melhores dias. Não pude deixar de me perguntar se algo havia acontecido; mas eu sabia que a garota meio que odiava perguntas, ou fugia delas.
- Hey - eu disse, e ela demorou alguns segundos para levantar o olhar, e notei que seus olhos estavam um pouco vermelhos, como se ela tivesse chorado recentemente, o que me deixou um pouco surpreso, porque Leah me parecia do tipo durona. Não, ela definitivamente era do tipo durona.
- Hey - ela deu um sorriso educado, mas não me pareceu muito feliz. Na verdade, parecia quase irritada. Como daquela vez.
- Você está bem? - perguntei, me sentando ao seu lado, e ela guardou o celular na bolsa, ainda não me encarando.
- Tô legal - a garota deu de ombros, parecendo cansada, e um pouco desinteressada, mas não consegui ficar irritado. Porque era impossível ignorar o fato de que ela estava mentindo.
- Você é uma péssima mentirosa, Lee - eu segurei sua mão, que estava quente, e como nas vezes em que ela ficava nervosa, tremia.
Ela havia pintado as unhas - de um vermelho bem escuro, quase preto, meio descascadas.
Passei meu polegar em sua mão, e ela ainda olhava para baixo, mas eu podia ver que estava tentando conter um sorriso.
Entrelacei meus dedos nos seus, e a garota não relutou.
- Me desculpe - falei, e ela me encarou, um pouco confusa - Aquilo na aula. Eu tava brincando. Você ficou chateada?
- Ah, não - ela balançou a cabeça, parecendo sincera, então me encarou com uma expressão irritada - E não estou de TPM, só pra você saber.
- Tudo bem - dei de ombros, rindo, e beijei o topo de sua cabeça, seu cabelo com o cheiro habitual de frutas que eu adorava, e me abaixei para beijá-la.
- Mick - ela virou o rosto, de modo que acabei beijando uma de suas bochechas, e revirei os olhos. Sim, ela ia fazer aquilo de novo. A coisa de se afastar.
- O que foi? - perguntei, confuso, porque eu realmente queria saber. Se Leah não queria nada, bem, era só ela me dizer. Não era difícil.
- Você não pode ficar me beijando - ela suspirou, parecendo momentaneamente cansada, mas não soltou minha mão.
- Então me diga que você não quer - falei, aproximando meu rosto do dela. Tudo bem, eu queria provocá-la. Porque eu não sabia qual era a dela, mas com base naquelas noites, e em como ela reagia quando eu estava por perto, eu sabia que ela também queria. Ou, pelo menos, era o que parecia.
- Acho que é meio óbvio - eu disse, brincando com uma mecha de seu cabelo, e ela não se moveu.
- Para - ela disse num tom baixo, irritado, e algo mudou em sua expressão, então eu soltei. Ela continuou - Foi só uma noite. Eu...não quero mais. Sério. Só me deixe em paz.
Eu a encarei, tentando saber se ela estava falando sério, então soltei sua mão, porque ela parecia muito puta, e eu não era do tipo insistente.
- Tudo falei - falei, num tom imparcial, me levantando, e embora aquilo não fizesse porra de sentido nenhum, eu me sentia meio triste.

Perto do limiteOnde histórias criam vida. Descubra agora