Mick
Não sei exatamente quando a ideia de correr surgiu, mas de repente me pareceu uma boa. Eu ainda não queria voltar pra casa, e duvidava que beber fosse ajudar a melhorar aquela ressaca, então simplesmente peguei meu I pod e comecei a correr.
Eu sempre havia gostado disso - sempre fora o que gostava de esportes, e por isso costumava me dar bem com meu pai, por um tempo. Até ele começar a nos comparar, e o caralho do Greg sempre ganhava.
Eu costumava me importar - era uma criança. Mas depois de um tempo, acho que comecei a fazer tudo que ia contra suas expectativas, quase que de propósito. Meio fodido, eu sei.
Comecei a correr mais rápido, até todos os meus músculos queimarem, e parei por alguns instantes, ofegando. Tornei a correr o mais rápido que podia, e caralho, aquilo era relaxante. Não tanto quanto encher a cara, mas era.
Dei a volta pelo quarteirão algumas vezes, até estar um pouco mais que exausto, e voltei pra casa caminhando.
Vi o Audi de Greg do outro lado da rua, e suspirei. Eu não estava com cabeça para ouvir sermões, mesmo que de certa forma os merecesse.
Peguei uma garrafa de água na geladeira, virando-a em alguns goles, e fui para o banheiro. Enfiei a cara debaixo da torneira, quando ouvi alguns passos.
- Onde você estava? - Greg perguntou, largando seus papéis em algum lugar por ali, e procurei por uma toalha limpa. Eu precisava de um banho.
- Correndo - respondi, como uma espécie de pergunta, e esperei ter sido um pouco sarcástico. Ignorei seu olhar arrogante, e continuei subindo as escadas. Ele, entretanto, veio atrás. Mas que caralho.
- Eles realmente não te impõem limites, não é ?
Pensei que se eu o ignorasse, o idiota iria embora, o que não funcionou, porque ele ainda estava na minha frente.
- Vou tomar banho - eu disse, pegando uma toalha e roupas limpas - E a não ser que queira assistir, você deveria dar o fora.
Me virei, adicionando um tom de zombaria ao que eu dissera, e ele pareceu irritado.
- Você realmente não muda, não é? Cresça. Não adianta ficar bebendo ou saindo com aquela bandinha de mer...
Não o deixei terminar, porque meio que parti pra cima dele. Tudo bem, eu realmente parti pra cima dele, acertando seu maxilar, e ignorei a dor que se instalou em minha mão. Tudo o que eu queria era tirar aquela expressão de presunção ou superioridade, ou talvez ambos - eu não sabia dizer - de seu rosto.
- Você mal para aqui. Não liga, ou os visita. Nunca fez porra nenhuma. Então não venha falar merda pra mim, caralho - eu disse cada palavra lentamente, o encarando, e ele me empurrou contra a parede. Quase ri. Greg era a pior pessoa para se brigar - eu é que sempre tinha que defendê-lo. Entretanto, não me surpreendi quando ele acertou meu olho, ou algum lugar perto. Eu realmente nunca o vira tão nervoso.
- Vá se foder - falei, o empurrando, e fechei a porta com um pouco de força.
Aquele idiota havia me acertado com a porra daquele anel de noivado.
As coisas nem sempre haviam sido assim.
Quero dizer, nós éramos irmãos. As brigas são meio que inevitáveis. Por brinquedos, televisão, comida, ou até garotas.
Apesar de sermos um pouco diferentes, costumávamos nos dar bem. Eu o defendia dos garotos briguentos da escola, ele me defendia dos sermões de nosso pai, e tudo funcionava. Éramos uma espécie de equipe.
Então eu fiz merda.
Depois de Alison, algo em mim mudou, e foi para pior. Seria meio hipócrita de minha parte culpá-la, afinal, quem tomou as decisões fui eu - quem fez merda fui eu, mas aquela garota teve certa influência. Eu fiquei totalmente perdido.
Comecei a fumar, andar com as pessoas erradas - como diria Miranda - e correr atrás de qualquer garota que me desse mole.
Parei de frequentar as aulas, e quase deixei de lado a natação. E beijei sua namorada.
Eu sei, sou um filho da puta.
Era o último ano de Greg na escola, ele ia entrar pra faculdade que queria, faria medicina, e tinha uma namorada. Eu estava com inveja, estava bêbado, ela apareceu numa festa - Greg não ia à festas -, era bonita, então a beijei. Ela correspondeu, mas não disse a ele. Eu não queria piorar as coisas.
Então, no dia seguinte, todo mundo estava sabendo. Esperei que ele brigasse comigo, ou sei lá. Que fizesse alguma coisa.
Nós não nos falamos mais, e acho que nem eles. Ele foi pra faculdade no verão, e sumiu. Ligou, alguns meses depois, para contar que estava noiva de uma garota chamada Melissa. E nunca mais apareceu. Até agora.
Eu sei. Fui um idiota. Um filho da puta. E queria que ele não tivesse ido embora.
Peguei minha guitarra, tocando aleatoriamente músicas que vinham à minha cabeça, e então tive a ideia. Eu geralmente não gravava vídeos ou áudios tocando - não há algum tempo, pelo menos, mas eu queria falar com ela. Precisava de uma desculpa pra ter seu número. A verdade é que eu não tinha uma.
Toquei uma das músicas daquela banda que ela gostava, 30 seconds to Mars, e que, na verdade, era muito boa. Pensei em mandar a que havíamos dançado, mas eu gostava mais daquela.
Não conferi o áudio para ver como estava. Apenas enviei e fiquei tocando algumas músicas que gostava.
Ouvi batida fraca na porta, deduzindo ser Miranda, e pensei em ignorar, quando ela a abriu.
- Ei - ela pareceu satisfeita ao me ver tocar. Miranda sempre gostava de ouvir - Podemos conversar?
Assenti, deixando a guitarra de lado, e a acompanhei.
Ela pegou alguns legumes na geladeira, colocando-os em cima da tabua, e começou a picá-los. Ela gostava de estar ocupada quando ia ter uma conversar importante, ou nos dar um sermão. Lembro da vez em que ela brigava com Greg enquanto se maquiava, e nós nos segurávamos para não rir.
- Mick...sei que não pareço (sou muito nova pra isso) mas sou sua mãe... Onde raios você esteve?
Tirei a faca de sua mão, cortando os legumes eu mesmo. Miranda era péssima na cozinha. Geralmente pedíamos algo, ou era comida congelada. Ou meu pai cozinhava.
- Podia ter deixado um bilhete - ela continuou, e pareceu subitamente cansada - Ou ao menos atendido nossas ligações.
- Eu sei.- falei, pegando um molho para sua salada na geladeira, e acrescentei que sentia muito, porque eu não sabia o que dizer.
Como explicar que eu era um covarde e não conseguia... Sei lá, lidar com aquilo? Porque se eu fingisse que não estava acontecendo, talvez toda aquela merda não acontecesse. Idiota, eu sei.
- Só não suma de novo - ela pegou a tigela de minhas mãos, piscando para mim, e peguei uma fatia de pizza congelada na geladeira.
Comemos em frente a TV - ela estava assistindo um programa chato de moda, e fingi prestar atenção, apenas por ter sido um idiota a semana toda.
Levei os pratos para a pia, e subi, lembrando-me de ter deixado o celular lá em cima.
Vi uma ligação perdida de Leah, há alguns minutos, e retornei. Porque ela havia me ligado?
Ela atendeu alguns segundos depois.
"Leah?"
"Como conseguiu meu número?" ela perguntou, mas não parecia exatamente brava. Curiosa, eu acho.
"Isso importa?"
Eu havia pedido para aquela garota que se sentava ao seu lado na maioria das aulas, e ela me passara, depois de certa relutância.
"Sim" ela riu "Você pode ser uma espécie de perseguidor..."
"Você é a perseguidora aqui" eu disse, me lembrando de ela ter aparecido na última apresentação do Andrômeda. "Mas não se preocupe. Acho sexy. "
Baixei o tom de voz, e ela demorou alguns segundos para responder.
"E o que você não acha sexy?" perguntou, em tom de brincadeira.
"Garotas bêbadas dançando" eu disse, e não era verdade. Não em relação à ela, pelo menos.
"E sabe o que EU não acho sexy?" ela perguntou, e eu sabia que responderia na mesma moeda.
"O que, Leah?" perguntei, fingindo está-la paquerando, e me perguntei se de fato eu estava.
"Garotos bêbados tentando me beijar." ela disse, numa espécie de sussurro, e eu ri. Eu sabia que ela estava brincando, mas também sabia que ainda estava um pouco puta por causa da última noite.
"Você os prefere sóbrios?" perguntei, fingindo certa curiosidade, e ela riu. Cara, era bom ouví-la rir.
Talvez fosse o grande contraste com aquela manhã.
"Sim." ela respondeu, num tom provocante, e eu não sabia dizer se estava brincando.
"É uma especie de convite?" perguntei, e ela novamente demorou a responder.
"Céus, pare de flertar comigo!"
"Porque me ligou?" perguntei, alguns segundos depois.
"Não fique convencido" ela pareceu um pouco relutante "mas você é bom pra caralho."
Ri de sua escolha de palavras, e pude ouví-la suspirar do outro lado da linha.
"Eu estava falando sobre o áudio!"
"Se você diz..."
"Bem, eu preciso ir. Boa noite."
"Boa noite Lee."
Não sei de onde veio aquela ideia. Do apelido. Mas eu gostei. Pareceu combinar.
"Mick" ela disse, um pouco antes que eu desligasse "Eu saio pra beber com você. Ou sei lá. Só não use...aquelas coisas de novo, ok?"
"Tudo bem" eu disse, desligando, e por algum motivo quis ouvir a voz dela um pouco mais.
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Perto do limite
RomanceEu passei muito tempo tentando entender o que essa história representa - para os leitores e para mim, mas acho que, no fim, é uma história sobre se apaixonar. Sobre como o amor pode trazer de volta cores para uma parte da sua vida que estava em somb...
