Leah
Eu sabia que, mesmo se pulasse o café da manhã, chegaria atrasada para a aula, o que me garantiria não só entrar na metade da aula, como entrar na metade da aula com fome. Então, ao invés de me apressar, disse à Rebeca que eu iria de ônibus mais tarde, e comi alguns biscoitos de chocolate tranquilamente, enquanto terminava o trabalho de literatura.
A verdade é que eu não estava com muita vontade de ir para aquela aula. Primeiro porque a srta. Montgomery não dava exatamente uma aula - ela ficava lendo suas revistas ou algo do tipo enquanto nos mantinha ocupados (ou tentava), e segundo porque era uma das aulas que Mick e eu tínhamos juntos; e nossa convivência estava no mínimo estranha depois de termos nos beijado por várias vezes e eu está-lo evitando. E terceiro porque, quando estávamos no mesmo ambiente, eu meio que quase me sentia culpada por isso. Quase, porque, na verdade, eu ainda estava esperando que ele desistisse. Dava pra ver o modo como Luiza, ou algumas outras garotas cujos nomes eu não fazia questão de gravar, se exibiam para ele. Então, bem, ele não precisava exatamente de mim. E eu torcia por isso. Eu torcia pra Mick manter distância, porque eu sabia que não tinha muito controle quando ele estava por perto. Na verdade, eu não tinha quase controle nenhum.
Então era difícil estar na mesma sala do que ele. Até mesmo porque ele ficava me encarando - no começo, com expectativa, e agora, um pouco irritado, e aquilo estava meio que me deixando louca. Eu quase havia pedido a ele que parasse, mas aquilo significava falar, e eu não podia arriscar.
Tudo bem, eu estava exagerando. Depois daquela noite, ele havia me mandado uma mensagem - que eu quase havia respondido - e sim, nós havíamos nos cumprimentado nos corredores, mas eu meio que o estava evitando, e esperava que ele deixasse pra lá logo. Na verdade, estava até um pouco surpresa.
Depois de enrolar tentando alguma coisa diferente com o cabelo - e então, alguns minutos mais tarde, desistir, e usá-lo como de costume - e demorar um pouco mais procurando por uma vaga no estacionamento da escola, peguei um dos cafés pela metade daquela máquina e entrei na sala, procurando por meu lugar ao lado de Sally.
Disfarcei uma careta ao notar Mick o ocupando, com Tray ao seu lado, e continuei caminhando, me sentando no único lugar vazio - duas carteiras à sua frente - e não pude ignorar os olhares que ele me lançava. Meu Deus. Porque ele ficava fazendo aquilo?
Fingi ignorá-lo, concentrando-me em arrumar meus livros, e depois de algum tempo, quando o silêncio se tornou meio constrangedor, levantei o olhar, e ele sorriu para mim de um jeito brincalhão.
Revirei os olhos, virando as costas, e comecei a copiar as instruções da lousa.
- O que tá pegando entre vocês dois? - Tray perguntou, num tom irônico, e basicamente estava gritando, o que fez quase a sala toda virar em sua direção, inclusive eu, meio que por reflexo. Me perguntei, envergonhada, o que Mick havia dito a ele. Eu não sabia se ele era do tipo que contava todos os detalhes aos amigos - se bem que não havíamos feito nada demais, e eu não me importava. Aqueles garotos não deveriam me incomodar, tentei convencer à mim mesma.
Notei que meu celular vibrava, e abri a mensagem, quase o deixando cair ao reconhecer o número.
'Fale comigo, baby. Por favor, podemos nos encontrar?'
E depois, mais uma
'Eu vou até você...'
Resistindo à vontade de jogar o celular do outro lado da sala, me forcei a respirar fundo, fechando os olhos, e tentei não pensar nele. Em Marcus. Conseguindo meu número. Possivelmente descobrindo onde eu estava. E aquela última mensagem. Não. Não.
Lutei contra as lágrimas que se formavam em meus olhos - eu não ia chorar por ele - e quase não ouvi os comentários de Mick e Tray.
- TPM pelo visto - Mick disse, num tom irritado, e eu tinha certeza de que ele queria que eu ouvisse. Naquele momento, eu meio que poderia tê-lo odiado, não fosse a raiva que eu já sentia por outra pessoa.
Peguei minhas coisas rapidamente, não me virando para trás, e sai da sala, sem me importar com o que diriam. Eu não podia ficar ali. Eu ia surtar. Eu não podia surtar ali - não perto de todo mundo.
Fui para o banheiro, e vendo que ele estava lotado por algumas garotas que tinham acabado de sair da aula de educação física e se trocavam, me sentei num dos degraus da escada no final dos corredores vazios, tentando me acalmar. Depois de deletar a mensagem, e beber um pouco de água - ou forçá-la pela minha garganta abaixo, eu já estava melhor. Ou quase. Tudo bem, eu estava mentindo.
Aquele filho da puta conseguia me deixar doente mesmo há quilômetros de distância. Limpei meu rosto. Eu não ia deixar que ele me fizesse chorar. Ele não ia me machucar. Não de novo. Nem nunca mais.
- Hey - sua voz me assustou, e então percebi o quanto eu estava perdida em meus pensamentos, e demorei um pouco a encará-lo, torcendo para que não estivesse com uma cara horrível de choro.
Tudo bem, se Mick visse o quanto eu era patética, talvez ele desistisse de uma vez. Aquilo seria ótimo.
- Hey - eu sorri, tentando parecer simpática, afinal, ele não havia feito nada de errado. Eu meio que o havia dispensado.
- Você está bem? - ele perguntou, se sentando ao meu lado, e parecia preocupado, com aquela ruginha no meio da testa. Droga, Mick.
- Tô legal - dei de ombros, e ele soltou um suspiro.
- Você é uma péssima mentirosa, Lee - ele disse, tentando parecer irritado, mas na verdade soou quase doce. Como se ele...se importasse. Céus. Porque você tem que complicar as coisas, Mick?
Então ele segurou minha mão, e só então eu percebi que estava tremendo. Ele segurou minha mão, e naquele momento, tudo passou. Fechei os olhos por um instante, e ele passou o polegar em minha mão, logo depois entrelaçando seus dedos nos meus, e não pude deixar de sorrir. Como ele podia me acalmar com, caramba, com apenas um toque?
- Me desculpe - ele disse, num tom baixo, e o encarei, não entendendo sobre o que ele estava falando - Aquilo na aula. Eu estava brincando. Você ficou chateada?
- Ah, não - então ele achou que era por aquilo que eu estava triste. Meu Deus. Eu não era tão sensível assim - E só pra você saber, não estou de TPM.
- Tudo bem - ele riu, dando de ombros, e beijou o topo de minha cabeça, mexendo em meu cabelo daquele jeito irritante, e se abaixou para me beijar, o que fez com que todo o meu corpo se arrepiasse.
- Mick - eu virei o rosto, e ele acabou beijando minha bochecha, mas deixou seus lábios ali por alguns instantes, antes de se afastar, irritado.
- O que foi? - perguntou, parecendo chateado, e evitei encará-lo. Porque ele não podia facilitar as coisas pra mim?
- Você não pode ficar me beijando - eu disse, suspirando, e ele pareceu confuso.
- Então me diga que você não quer - Mick aproximou seu rosto do meu, sussurrando naquele tom propositalmente provocante, e tive vontade de lhe dar um tapa. Garoto irritante.
- Acho que é meio óbvio - eu disse, embora ambos soubéssemos que não era. A verdade é que nem eu mesma sabia o que queria.
Ele pegou uma mecha do meu cabelo, e eu não me mexi, porque eu sabia que, perto dele, eu não podia me controlar. Qualquer toque, qualquer movimento, era como uma faísca. E então nós poderíamos explodir.
- Para - eu disse, talvez um pouco tarde demais, mas tentei usar um tom autoritário, e pareceu surtir efeito, porque ele me encarou, e eu sabia que precisava fazer algo sobre tudo aquilo, ou as coisas iriam longe demais - Foi só uma noite. Eu não...quero mais. Sério. Só me deixe em paz.
Ele me encarou, parecendo tentar decidir se eu estava falando a verdade, e então suspirou, soltando minha mão. Naquele momento, desejei voltar atrás, porque ele pareceu um pouco magoado. Mick. Magoado. Cara.
- Tudo bem - ele disse, num tom indiferente, mas eu pude ver sua raiva contida; e não o encarei. Eu não podia. Porque senão, mudaria de ideia. E então, eu estaria ferrada. Nós dois estaríamos.
Observei-o se afastar, e quando todo o corredor ficou silencioso, peguei minhas coisas, tentando não pensar no fato de que eu tinha acabado de afastar a única coisa boa que tinha acontecido nos últimos tempos.
Atravessei o estacionamento correndo, ignorando os olhares do grupo de garotos chapados que passava por ali, e dirigi o mais rápido que pude até o trabalho de Rebeca. Aquele era o problema de não ter nenhuma amiga próxima - eu não tinha alguém com quem conversar quando as coisas explodiam. E naquele momento, tudo estava meio que entrando em combustão instantânea.
Parei em frente ao prédio espelhado, de repente me sentindo mal vestida em meu jeans preto e coturnos. Esse era o problema de ter uma irmã que trabalhava numa revista de moda - você nunca se sentis muito bem vestida.
A garota loira de óculos atrás do balcão me lançou um olhar curioso, perguntando-me o que desejava, e eu lhe disse que precisava falar com minha irmã, Rebeca.
- Você marcou um horário? - ela perguntou, numa voz bastante enjoativa, e então me lembrei que, na verdade, aquela era a Sally, ou Molly. A garota com quem Rebeca tinha alguns conflitos pendentes.
- Ela é minha irmã - eu disse, um pouco irritada, e ela levantou as sombrancelhas, descrente.
- Querida, eu preciso confirmar.
Bufei, enquanto ela discava algo no telefone, e tentei disfarçar meu nervosismo tirando o restante do esmalte de minhas unhas já descascadas.
- Ela disse que você pode entrar - a garota disse, relutante, e lhe lancei um olhar de "eu disse", que ela fingiu ignorar, me dizendo para entrar na primeira sala à esquerda do terceiro andar.
Pelo vidro da porta, vi que Rebeca conversava com um bonitão de gravata - no caso, seu chefe, por quem ela tinha uma espécie de quedinha - e esperei alguns minutos antes de bater à porta.
- Hey - eu disse, e ela me encarou, surpresa e preocupada.
- Leah? O que está fazendo aqui? Você tá bem? - ela largou os papéis e um café bebido pela metade, levantando-se - Richard, essa é minha irmã...
- Então você é a famosa Leah - ele me lançou um sorriso absurdamente branco e um pouco cansado, e estendeu a mão - É um prazer. Bec me fala muito sobre você.
Então ele olhou para minha irmã, e se o cara não fosse casado, eu podia jurar que aquele não era um olhar apenas " amigável".
- Vou deixar vocês garotas conversarem - ele saiu, levando uma pilha de papéis, e assim que encostou a porta, me joguei nos braços de Rebeca, não me importando em parecer uma louca.
- O que aconteceu? Você tá bem? - ela se afastou, me obrigando a encará-la, e disse em seu tom de voz firme - Leah, se acalme. Você precisa me falar o que aconteceu. Calma.
Deixei que ela me puxasse até uma das cadeiras, e bebi obedientemente um copo de algo que parecia chá, enquanto ela esperava pacientemente que eu me acalmasse. Rebeca me conhecia perfeitamente - e ela sabia que quando eu estava nervosa, não podia falar. Eu precisava de alguns minutos pra me acalmar e... respirar, se é que isso fazia algum sentido.
- Foi aquele garoto? - ela perguntou, alguns minutos depois, parecendo um pouco brava - Mick, Nick, ele terminou com você?
Depois daquela noite - no fim de semana em que meus pais haviam vindo nos visitar - que eu havia ficado com Mick até tarde, Rebeca me obrigara a lhe contar sobre ele. Eu não havia dito tudo à ela. Ela só sabia que havia um garoto, e nós havíamos saído algumas vezes.
- Não. Eu... Nós não temos nada. É... Sobre Marcus. Ele me mandou outra mensagem, Beck. Isso está me deixando nervosa...
- Aquele filho da puta - ela suspirou, me puxando para um abraço - É sério, Leah, se esse projeto de garoto não parar, nós vamos na polícia. Ele não vai ficar aterrorizando você.
- Você sabe que ele não fez nada - ela arregalou os olhos, e então me corrigi - Você me entendeu. Agora. Uma mensagem. Não vão prender ele por uma mensagem, Beck.
- Eu já disse. Ele não vai chegar perto de você - ela me assegurou, afagando meu cabelo do jeito que fazia como quando éramos crianças, e concordei, embora estivesse com medo do contrário. Eu temia, todos os dias, que Marcus encontrasse um jeito de vir até mim, e estragar tudo. Contaminar minha nova vida com toda a sua poeira tóxica do passado que eu queria manter enterrado em minhas lembranças escuras. Caralho, porque ele não podia me deixar em paz depois de tudo o que havia feito? Já não estava bom ter me machucado tantas vezes e de tantas maneiras? Não era suficiente me causar pesadelos que eu não conseguia afastar e tirar de mim o que eu mais gostava? Caramba. Como era possível odiar tanto alguém?
E enquanto eu pacientemente bebia todo o chá, me perguntei quão grande era a parte de mim que estava triste pela coisa com Mick ter, inevitavelmente, acabado.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Perto do limite
RomanceEu passei muito tempo tentando entender o que essa história representa - para os leitores e para mim, mas acho que, no fim, é uma história sobre se apaixonar. Sobre como o amor pode trazer de volta cores para uma parte da sua vida que estava em somb...
