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Nova Orleans, Luisiana - 2012

Amélia se viu outra vez naquele campo vasto e dourado. O céu tingido por tons de rosa e laranja parecia uma pintura viva, o vento acariciava sua pele com a suavidade de uma memória esquecida. A grama alta se movia como ondas, e à frente dela, a mesma figura de sempre corria: uma menininha de cabelos negros, leves como penas, o vestido branco esvoaçando conforme ela avançava.

Espera... — Amélia murmurou, com a voz embargada.

Ela correu. Como sempre corria. Mas dessa vez, seus pés não pareciam afundar no chão. Não havia a lentidão sufocante que normalmente a impedia de alcançá-la. A distância entre as duas diminuía. O coração de Amélia batia acelerado, não pelo esforço, mas pela urgência... pelo reconhecimento.

Ela estendeu a mão. Os dedos quase tocando.

Por favor, me mostra quem você é...

A menina parou.

No silêncio repentino, o campo pareceu prender a respiração.

Amélia se aproximou devagar, como se qualquer movimento brusco pudesse quebrar a ilusão. A menina virou-se.

E Amélia congelou.

Os olhos eram os seus. O mesmo brilho sonhador, a mesma dor silenciosa. A mesma menina que ela foi um dia. O rosto da sua infância. A inocência que ela perdera.

A menina a encarou, séria, os cabelos sendo dançados pelo vento, e então disse, com uma voz firme, madura demais para um corpo tão pequeno.

Se prepare. E não confie em ninguém.

O mundo ao redor tremeu.

Amélia acordou com um sobressalto, o coração descompassado. O quarto estava banhado pela luz suave da manhã, e o silêncio gritava. Estava sozinha.

A cama ao lado dela já estava vazia. Lençóis frios.

Ela levou uma mão à barriga, como que para se ancorar no presente, tentando deixar o sonho se dissipar, mas as palavras da criança ecoavam dentro dela como um aviso.

Levantou-se com lentidão. Caminhou até o banheiro, deixou que a água quente do banho escorresse sobre seu corpo, tentando levar junto a estranha sensação de premonição.

Vestiu-se com cuidado, os movimentos calmos, quase cerimoniais. Como se já soubesse que aquele dia traria algo diferente.

O som estridente de martelos e paredes sendo demolidas parecia vibrar nas têmporas de Amélia enquanto ela saía do quarto. O eco das reformas misturava-se ao último sussurro do sonho que ainda rondava sua mente como uma sombra.

"Se prepare... e não confie em ninguém."

Ela respirou fundo. O aviso ecoava como um trovão abafado dentro dela. Ainda podia ver os olhos da menininha, os olhos dela mesma, quando criança, tão intensos e assustadoramente lúcidos. Um arrepio subiu pela espinha.

O corredor estava impregnado com o cheiro de madeira velha sendo quebrada e poeira. Assim que deu os primeiros passos, avistou Klaus parado adiante, com aquele ar habitual de tédio arrogante, e Genevieve à tiracolo, como se fosse sua própria sombra ruiva e sorrateira.

— Chega! Que horror de barulho! — Klaus reclamou, o cenho franzido com exagero, como se fosse um artista ofendido pela bagunça ao redor.

Amélia arqueou uma sobrancelha, sorrindo de canto. Os dois eram assustadoramente parecidos às vezes... temperamentais, impacientes, mordazes. Ela achava que era por isso que eles eram tão amigos.

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