39

1.2K 157 163
                                        

Mystic Falls, Virgínia - 2011

O relógio marcava seis da manhã, mas Amélia já estava desperta há horas. O sono fora uma batalha perdida naquela noite, e a dor da perda ainda pesava sobre seu peito como uma âncora, puxando-a para um abismo silencioso.

O mundo parecia mais cinza naquela manhã. O ar carregava uma melancolia quase palpável, e a casa, tão familiar, agora parecia grande demais, vazia demais.

Descendo as escadas em passos arrastados, ela seguiu para a cozinha, onde encontrou Tyler já sentado à mesa, uma caneca de café entre as mãos. O aroma quente e amargo pairava no ar, misturado com o cheiro da chuva que ainda ressoava nos vidros da janela.

Por um breve instante, uma fagulha de felicidade acendeu-se dentro dela. Vê-lo ali trazia uma ilusão de normalidade, como se a vida ainda seguisse seu curso, como se tudo não tivesse mudado de forma tão brutal. Mas essa sensação durou pouco. Foi rapidamente substituída por uma saudade esmagadora.

Saudade das manhãs em que toda a família se reunia em volta da mesa, entre risadas e conversas despreocupadas. Das tardes de sábado no Grill, onde dividiam hambúrgueres e cervejas sem que a sombra da morte pairasse sobre eles.

Esses momentos eram cada vez mais raros. Desde que Richard morreu, o tempo parecia se fragmentar em pedaços de dor e sobrevivência.

Tyler ergueu o olhar ao notar sua presença, oferecendo-lhe um pequeno sorriso.

— Bom dia. Você dormiu? — Tyler perguntou, a preocupação evidente no olhar.

A voz dele era suave, mas Amélia não respondeu de imediato. Apenas caminhou até a cafeteira e serviu-se de uma xícara, o calor do líquido espantando um pouco do frio que sentia por dentro.

— Um pouco. — Ela soltou um suspiro, girando a colher dentro da xícara sem realmente precisar.

Era mentira, mas ele não a contestou.

O silêncio entre eles não era desconfortável, mas carregava um peso que antes não existia. Amélia sentiu um aperto no peito ao perceber isso.

O mundo não parou para lamentar sua dor. O tempo seguiu em frente, arrastando a todos com ele, e agora tudo o que restava eram as lembranças de uma vida que parecia pertencer a outra pessoa.

Uma vida onde não existiam maldições, promessas quebradas e despedidas que deixavam cicatrizes.

Mas essa vida já não existia mais.

— Cadê a mamãe? — Amélia perguntou, sentando-se à mesa.

— Já foi pra prefeitura. — Ele respondeu, dando um gole no café.

— Tão cedo? — Ela arqueou as sobrancelhas.

— Pois é. — Tyler deu de ombros e limpou a boca com o guardanapo antes de se levantar. — Já vou também.

— Pra onde? — Amélia perguntou, desconfiada.

— Ainda preciso fingir que tô ligado ao Klaus. — Ele suspirou. — Ele me chamou, então tenho que ir.

— E você não vai ajudar no comitê de limpeza do baile? — Ela gritou quando ele já estava se afastando.

— Nem pensar, maninha. — Tyler riu, piscando para ela. — Mas a Caroline tá te esperando na escola.

— Fala sério! — Amélia resmungou, jogando a cabeça para trás.

— Até mais tarde! — Ele abriu a porta, já saindo. — Te amo!

— Também te amo, idiota. — Ela respondeu, baixinho, antes de tomar um gole do café.

E, pela primeira vez naquela manhã, esboçou um pequeno sorriso.

Lua de SangueOnde histórias criam vida. Descubra agora