Nova Orleans, Luisiana - 2012
O vento assobiava por entre as árvores da plantação, uivando como um aviso dos fantasmas do passado que ainda rondavam aquele solo. Cada rajada parecia tocar a pele de Amélia como garras geladas, arrepiando os pelos de sua nuca. O cheiro da terra molhada invadia seus sentidos como uma memória enterrada que agora se recusava a permanecer no esquecimento.
Ela tremia. Não apenas pelo frio cortante da noite tempestuosa, mas pelo peso do que estavam prestes a fazer. Uma magia ancestral, o poder de uma mulher que outrora aterrorizara os próprios filhos, prestes a ser consagrado novamente naquele solo. Tudo nela gritava para recuar, seus instintos, seu sangue, até o bebê em seu ventre parecia se agitar inquieto como se também sentisse o perigo que se aproximava.
Estavam todos reunidos no coração da plantação de maçãs, o terreno alagado sob seus pés tornando cada passo um esforço. A lama se misturava com folhas secas, raízes expostas e galhos quebrados, como se o chão relutasse em aceitar o que seria depositado ali.
A chuva caía sem piedade, tamborilando sobre o guarda-chuva que ela e Hayley dividiam. As duas estavam encharcadas apesar da proteção, os cabelos colados ao rosto, os casacos pesados de água.
Sua respiração estava presa na garganta, e cada batida do coração parecia mais pesada que a anterior. A cena diante dela tinha algo de sagrado e ao mesmo tempo profano. Enterrar aquela mulher ali era um risco. Um erro, talvez. Mas também era a única chance de trazer Davina de volta a vida após o sacifício... e, por consequência, salvar toda Nova Orleans.
Ela olhou para Elijah por um instante, os olhos dele tão serenos quanto sempre, mesmo diante do impensável. Havia confiança ali, convicção. Mas também algo mais sutil, um pedido silencioso para que ela confiasse nele. Amélia não sabia mais se podia. Ela não era uma Mikaelson. E exatamente por isso, talvez, sentia mais claramente o quanto aquela escolha era perigosa.
— Isso não parece certo... — murmurou, quase para si mesma, mas Hayley ouviu.
— Eu sei. — respondeu a loba, com um olhar carregado de dúvidas. — Mas às vezes a gente precisa fazer o que for necessário... mesmo que seja idiota.
Amélia respirou fundo, os olhos voltando-se para o caixão sendo lentamente depositado no buraco aberto. A chuva lavava tudo, como se tentasse apagar os pecados daquela terra. Mas algumas marcas eram fundas demais para serem apagadas.
E no fundo, ela sabia: nada naquela noite sairia impune.
— Tá tão frio aqui. — murmurou Amélia, os braços cruzados sobre o peito.
— Fica mais perto. — Hayley respondeu, puxando-a com gentileza. — A gente se esquenta.
À frente delas, Klaus, Rebekah, Elijah e o padre Kieran se posicionavam diante do túmulo aberto, onde o caixão repousava coberto apenas por um fino lençol de lona. As cinzas do corpo de Esther Mikaelson aguardava a consagração.
— Você conseguiu achá-lo? Ele vai trazê-la? — Klaus perguntou a Rebekah, com a voz tensa.
— Ele vai trazer ela. — Rebekah respondeu, firme, embora seus olhos traíssem um leve nervosismo.
— Estão prontos pra isso? — Kieran perguntou, observando o círculo de irmãos diante dele.
— Sempre e pra sempre. — Klaus respondeu com determinação, antes de sacar a adaga de prata do bolso interno do casaco.
Ele cortou a palma da mão com a lâmina, sem hesitar. O sangue escorreu quente por entre os dedos e caiu na terra encharcada.
Rebekah foi a próxima. Depois Elijah.
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Lua de Sangue
أدب الهواةAmélia Lockwood sempre viveu uma vida normal em Mystic Falls ao lado de seu irmão gêmeo, Tyler. Inteligente e de língua afiada, ela nunca se envolveu com o que não podia explicar, até começar a ter sonhos sombrios e perturbadores: um homem de terno...
