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Nova Orleans, Luisiana - 2012

A biblioteca estava mergulhada numa tensão silenciosa, como se até os livros empilhados nas estantes tivessem prendido a respiração. A penumbra era cortada apenas pela luz amarelada de um lustre antigo pendendo do teto, lançando sombras oscilantes sobre as paredes de madeira escura. O cheiro de pergaminhos velhos, cera derretida e algo indefinido, algo quase metálico no ar, pairava pesado, como um presságio.

Elijah permanecia em pé, as mãos cruzadas às costas, o olhar fixo nos papéis sobre a mesa de carvalho maciço. Seus olhos estavam sombrios, a mandíbula tensa. Klaus, escorado na beirada da mesma mesa, fitava os desenhos como se quisesse destruí-los com o olhar. Hayley, de braços cruzados, alternava o peso de uma perna para a outra, impaciente, o cenho franzido. Já Amélia mantinha os braços apoiados sobre a mesa, os dedos levemente trêmulos enquanto observava os traços espalhados diante deles, a maldita imagem de Celeste, que parecia pulsar com uma energia viva e ancestral.

— Os italianos chamam de "Strega". Os Yoruba da África chamam de "Aje", que significa mãe. No lugar onde minha mãe nasceu, chamavam de "Hexa". E aqui... chamamos de bruxas. — Elijah começou, a voz carregada de reverência e memória. — Através dos séculos, vampiros lutaram contra e ao lado delas. As amaram e as queimaram. Foram inimigas e aliadas. Mas sempre temidas. Sempre poderosas.

— A bruxa que deu origem à minha linhagem odiou tanto os vampiros que, mesmo petrificada, lançou uma maldição horrível no meu sangue. — Amélia acrescentou, com um tom sombrio de mágoa na voz.

— Os ancestrais dela são pilares mágicos dessa cidade. — Elijah continuou, olhando para um dos desenhos. — Nunca houve uma bruxa tão poderosa... até Davina.

— Que agora está presa com segurança naquele corredor, sob minha proteção. — Klaus disse, cruzando os braços com arrogância.

— Proteção? — Amélia arqueou a sobrancelha. — Tá mais pra prisioneira.

— Eu concordo. — Hayley murmurou, lançando um olhar firme a Klaus.

— Sua Celeste era muito bonita... — Klaus comentou casualmente ao pegar um dos desenhos, observando-o com interesse. — E aparentemente, um presságio do mal, de acordo com nossa hóspede artista.

— Talvez Davina confunda o que chama de "mal" com "poder". Celeste, com certeza, era poderosa em sua época. — Elijah disse, os olhos se estreitando. — Mas ela está morta há mais de duzentos anos. O que eu não entendo é por que Davina desenharia isso agora.

— Por que uma bruxa faz qualquer coisa? — Klaus rebateu com indiferença.

— Talvez ela queira voltar dos mortos... reascender a chama. — Amélia ironizou, lançando um olhar mordaz a Elijah. O ciúme em seu tom era quase palpável.

Klaus não se conteve e riu, gostando do tom provocativo entre os dois.

— Olha só, tá indo muito bem. — ele comentou, ao ouvir sons abafados de gritaria e objetos sendo arremessados no corredor.

— Se a ideia era ganhar a confiança dela, envenenar o único amor da garota talvez não tenha sido o melhor caminho. — Elijah retrucou com frieza.

— Tem alguma outra morte inoportuna que você queira jogar na minha cara? — Klaus disparou.

— Me dê um mês. — Elijah respondeu sem hesitar. — Eu faço uma lista.

— Jovens, velhas, vivas ou mortas... bruxas são sempre desagradáveis. — Klaus murmurou antes de sair da biblioteca, entediado.

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