— Só que minha mãe tinha outros planos. - continuei — Arruinar a vida de um filho parecia ter sido um gatilho forte o suficiente para ela decidir que não ia mais viver daquela forma, que nenhum de nós ia. Acho que esse era o plano dela, que não deu muito certo. Quando meu pai disse aquelas palavras, de repente, as mãos delas estavam no volante e ela jogou o carro em um precipício. - fiz uma pausa, minha garganta seca - Eu não lembro de muita coisa, o carro girando, gritos, o rosto da minha mãe e então, tudo ficou escuro, só lembro então, de acordar e receber a noticia que eu meus pais e meu irmão mais novo tinham morrido e, Policarpo, estava em coma. Eu não senti nada além de... alívio e depois culpa, e depois raiva. Não queria que Alaric tivesse morrido também.
"Quando meu irmão acordou, meses depois, para a sorte de todos, ele não lembrava de nada. Não lembrava do próprio nome, não lembrava das cenas que éramos forçados a assistir e não lembrava do que foi forçado a fazer com apenas doze anos. O que foi uma benção, se não, ele teria ficado como eu. Ou pior. Eu não tinha chegado a fazer nada, só tinha visto, mas com ele foi diferente. Ele foi quem mais sofreu.
Depois de tudo, ficamos aos cuidados de Afonso. A Camorra moveu seus pauzinhos para que não fôssemos mandados para um abrigo ou algo assim. Então, continuamos em casa. Continuamos nossas vidas, como se nada tivesse acontecido. Mas não era bem assim.
Enquanto Peregrini lidava com a falta de memórias, eu tinha que lidar com todas elas. Tive pesadelos todas as noites por anos e anos, ataques de pânico que me deixavam a beira da loucura, tentei tirar a minha própria vida algumas vezes, o que foi a gota d'água para Afonso me mandar para a terapia. Mas não serviu de muita coisa, já que eu me recusava a falar sobre isso. Sempre me recusei.
Por anos, eu não deixei que nenhuma garota se aproximasse. E quando aconteceu, eu só sentia vontade de machuca-las. Eu odiava sexo. Era nojento. Eu lembrava dos meus pais, lembrava do meu irmão, do acidente. Tinha nojo de mim mesmo. Até que eu acostumei. Ainda tinha alguns episódios onde eu acabava machucando minhas parceiras, e não me orgulho disso nenhum pouco, mas eu era jovem demais. Com o tempo, aprendi a me controlar, descobri o que eu gostava de fazer. Armando me ajudou nisso. Então sexo passou a ser algo relativamente normal.
Estava tudo normal. Meu irmão tinha completado idade suficiente para assumir o cargo que era do nosso pai, eu comecei meu treinamento. As coisas estavam bem, até que Peregrini foi assassinado, e, toda a responsabilidade de Pisa, caiu em cima de mim. Então nós nos conhecemos, tenho que assumir que não estava em um dos meus melhores momentos e-"
Um soluço cortou minha voz, antes que eu pudesse continuar divagando sobre como minha vida tinha mudado depois que conheci Loren. Desviei meu olhar das árvores secas e virei para o lado. Loren estava chorando. Pelo rosto todo molhado, ela estava chorando fazia algum tempo e estava lutando para não fazer nenhum barulho.
— Mic? - chamei baixinho, e ela negou com a cabeça. — Ei, não chore.
— Sinto muito - sua voz estava embargada, quase não consegui entender o que ela estava falando. — Sinto muito. Sinto muito.
— Está tudo bem - eu tentei puxa-la para perto, mas Loren não deixou.
— Não, não está! Você era uma criança, um menino. Você não devia ter passado por isso. Ninguém deveria passar por isso. - as palavras saiam juntas e emboladas, misturadas com choro e soluço, era difícil entender o que ela estava querendo falar. — E eu me jogando em você o tempo todo. Você me odeia por isso? Eu sinto muito, Leo. Eu sinto muito.
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LOREN
RomanceLoren Colucci era a noiva de Mário Monteiro desde a adolescência, mas nenhum dos dois desejava a união. Loren não suportava a ideia de se casar com o menino que viu crescer e com ele não era muito diferente, se existisse algum tipo de sentimento bo...
