velas e flores fúnebres

2.3K 225 31
                                        

LOREN SALVATTORE

Eu conhecia Miranda Monteiro desde sempre.

Ela sempre esteve nas festas de fim de ano com a família Castelli, nos brunchs que minha mãe participava sempre que visitávamos Caserta, e ela sempre me mandava presentes no meu aniversário, já que ela e minha mãe cresceram juntas. A maioria desses presentes eram laços de cabelo com pedrarias caras demais para uma criança usar, mas eu adorava.

A nossa convivência só aumentou depois que foi feito o acordo de casamento entre minha família e a dela quando eu tinha doze anos, o que nos tornava nora e sogra em um futuro muito próximo. Nessa época, seu marido ainda vivo, e meu pai planejaram a aliança de casamento, tudo em prol da Camorra. Detalhes que pararam de importar depois que ambos se foram, mas as promessas que fizeram, continuaram.

Ela me recebeu na sua casa de braços abertos quando minha vida inteira girou de ponta-cabeça aos dezesseis anos e eu fiquei sem nada.

Miranda me ensinou etiqueta e como uma garota como eu deveria se portar, trançava meus cabelos com uma paixão quase assustadora. Ela não tinha muito senso materno, e as vezes me tratava como se eu fosse uma boneca em um jogo de vestir, mas ela se esforçou pra cuidar de mim e do filho rebelde ao mesmo tempo.

Nossa rotina estava começando a parecer normal, mas então, os episódios de esquizofrenia começaram. O primeiro foi depois de quase um ano que passei a morar com ela e Mário na mansão Monteiro. 

Eu tinha dezessete anos, faltava apenas um ano para que o casamento finalmente acontecesse, Miranda estava empenhada para organizar tudo, na verdade, era a única animada para o evento, mas, mais uma vez, tudo saiu do controle. 

Miranda recebeu o diagnóstico de  esquizofrenia. A esquizofrenia geralmente se manifesta mais cedo, no inicio da adolescência, mas no caso dela, a condição era um pouco mais rara, conhecida como esquizofrenia de início tardio. 

Depois disso, as coisas forma de mal a pior. Minha vida se tornou uma bagunça novamente.

Ela se entregou totalmente a doença quando os episódios se tornaram cada vez mais frequentes e mais difíceis de lidar.

Alucinações e delírios se tornaram quase que fixos em nossa rotina, mas o pior de tudo era o isolamento físico e emocional, que ficaram cada mais graves. Miranda se prendia no quarto, não dormia, não comia, não bebia ou conversava, ficava na mesma posição, olhando para o nada, como se fosse uma estátua de cera. 

De inicio, Mário, que não era muito mais velho que eu e estava lutando para ter um lugar de respeito na Camorra, achou melhor se ninguém soubesse da condição dela, mas quando um dos episódios de delírio protagonizou o jantar de comemoração dos meus dezoito anos, foi impossível manter as coisas longe do público. 

Nosso casamento foi oficialmente "adiado", para priorizarmos a saúde de Miranda, o que foi um grande alivio para nós dois. 

Mário e eu sempre fomos uma dupla de cão e gato, com pequenas picuinhas e desentendimentos sem importância. Eu o conheci desde sempre e tínhamos idades próximas, então ele sempre foi quase que um primo chato, mesmo com todos tentando forçar nossa aproximação. Nunca o vi como homem, e ele muito menos já teve algum tipo de  sentimento adulto por mim.

Depois que passamos a morar juntos, nossa dinâmica era mais como a de irmãos do que qualquer outra coisa, mas as coisas entre nós só ficaram ruins de verdade depois da doença da mãe dele piorar.

Ela já tinha desistido dela mesma e aos poucos, Mário também desistiu. Eu via a dor em seus olhos sempre que a mãe estava em crise, sempre que ela se esquecia dele, sempre que ela tentava se machucar... E, eu não o culpava por isso, eu o culpava por ter colocado toda a responsabilidade de cuidar dela em mim, e simplesmente ir se tornar o louco sanguinário pelo qual ele era conhecido e temido.

Não queria ser ingrata, eles me acolheram quando eu mais precisei  mas cuidar de alguém daquela forma era difícil, principalmente quando eu era apenas uma adolescente e ela, não queria ajuda.

As coisas foram só piorando e piorando, até qur Mário nos tornamos inimigos declarados.

Ele deixou de morar oficialmente na mansão quando eu fiz dezenove, e a essa altura, Miranda era apenas a sombra da mulher que foi um dia. 

Às vezes, ela acordava, como se estivesse tudo bem, penteava meus cabelos, escolhia as roupas que eu ia vestir, e naquele momento, tudo parecia em paz, até que outro episódio chegava com força total.

Finalmente chegamos em um consenso sobre colocar ela em um hospital psiquiátrico que poderia cuidar dela depois de muitos embates e altos e baixos, então aconteceu tudo que aconteceu com Águia e o bebê bastardo de Mário, depois o meu casamento relâmpago com Leonardo, eu me mudei de Caserta, e nunca mais fui ver Miranda, nem mesmo perguntei por noticias dela.

Eu estava confiante que ela estava sendo bem cuidada, que a esposa de Mário se encarregaria desse assunto... 

Enquanto Leonardo dirigia, sem emitir nenhum som, eu não conseguia deixar de pensar que as coisas poderiam ser diferentes se eu não tivesse me afastado, se a tivesse visitado, se eu tivesse cuidado dela um pouco melhor... 

A verdade era que eu ainda não havia caído minha ficha. Eu ainda não podia acreditar que havia perdido outra figura importante na minha vida, definitivamente dessa vez. 

Eram quase oito da manhã quando finalmente chegamos em Caserta. Durante a viagem, pouco depois do sol amanhecer, Leonardo ligou para Fabrizio, avisando que estávamos indo para o velório. O evento estava acontecendo na mansão Monteiro, como o esperado. 

Expliquei o caminho a Leo, e conforme nos aproximávamos, sua expressão de culpa deu lugar a sua mascara de seriedade, a qual eu já estava acostumada.

Ele não falou mais nada depois que avisei que estava vindo para Caserta. 

Silenciosamente, ele entrou no closet, se vestiu todo de preto e depois me esperou terminar de arrumar minhas coisas e me vestir, para levar a mala e guardar no carro. Durante a viagem, ele fez ligações para Armando e outros homens, mas eu estava aérea demais para sequer tentar prestar atenção. 

Quando paramos em frente a mansão no estilo clássico da cidade, que foi onde sobrevivi por alguns anos, ele abriu a porta da Range Rover Evoque preta blindada e me ofereceu o braço. Haviam poucos carros estacionados lá, o que novamente não me surpreendeu. 

A família Monteiro perdeu certo prestígio depois da morte do pai de Mário, e com a mãe doente, Mário sempre envolvido nos piores escândalos, não haveria uma multidão mesmo... e mesmo que fosse triste e cruel, era a realidade. 

O hall de entrada estava vazio, mas eu sabia muito bem para onde ir. 

A sala de estar estava cheia de velas e flores fúnebres, vi alguns rostos conhecidos, inclusive meus tios, meus primos, mas não tive tempo nenhum de prestar atenção neles, já que algo me deixou um tanto quanto... perplexa. 

No meio da sala, havia não um, mas sim dois caixões. 

Olhei para Leo buscando uma explicação, apenas para o caso dele ter decidido me esconder mais alguma coisa, mas ele me olhou de volta, parecendo tão perdido quanto eu. 

— Não olhe pra mim - ele disse, baixinho se inclinando para que apenas eu pudesse ouvi-lo — Dessa vez eu realmente não sei o que está acontecendo. 

Ah, meu Deus.

LORENHistórias para pegar e não largar. Descubra agora