-Como é possível não saberes que ela teve uma filha? - Olhei para ele aturdida, tal só era possível se... - Pensas que ela te traiu?
-Isso é impossível, achas que ela teria uma filha e eu não daria conta? Para além disso, ela não era dessas coisas, companheiros são para a vida, e infligir dano ao outro só causa dor em nós mesmos. - Ele parecia pensativo, as suas sobrancelhas juntas, andava de um lado para o outro dentro da sala.
-Peço desculpa mas eu não consigo pensar em outra hipótese.
-E se... - Ele inspirou fundo, e apertou o seu nariz num gesto impaciente, tudo o que eu lhe tinha contado estava a rodopiar na sua cabeça, quase que podia ver as engrenagens a funcionar.
Esperei impaciente pela sua resposta, mas ela demorou a chegar, mexia-me no sofá com o nervosismo e só me apetecia abaná-lo para que ele falasse.
-Antes de nos juntarmos, o meu pai insistiu que ela tivesse um tempo de descanso antes da cerimónia - Ele explicou rapidamente ante o meu olhar de estranheza - O meu pai é um homem muito tradicional, ele nunca largou os velhos costumes, segundo a tradição ele tinha de escolher uma companheira para mim, e ele escolheu a Caroline. Ela era...frágil aos olhos dele, como a minha mãe, alguém que seguiria os meus comandos sem questionar. Mas eu apaixonei-me por ela, eu não era o homem que o meu pai queria, eu não era mau, e não o conseguia ser com ela, ela despertava o meu melhor lado e eu só queria protegê-la de tudo, e o meu pai odiou-me por isso. Quando ele me contou que ela iria passar um tempo fora para "aproveitar os últimos momentos de liberdade", citando-o, eu fiquei devastado, ele queria que ela passasse uns meses sem mim, e foram os piores da minha vida, mas eu não podia recusar, então ela foi ainda não sei para onde. Quando ela voltou, ela chorou por dias, eu tentava falar com ela, mas ela nunca me dizia o que se passava, mas eu via nos seus olhos que algo tinha acontecido, algo que a tinha devastado, mas eu nunca insisti porque ela começava sempre a chorar. Até chegar ao dia em que ela parou de o fazer, e parecia um pouco mais como ela própria, ela nunca puxou o assunto e eu nunca mais perguntei. Talvez eu devesse ter perguntado, deveria ter insistido - Gritou alto e deu um murro na parede o que me fez saltar do sofá com a amostra de violência dele.
-Achas que o teu pai teve algo haver com isso? - Que tipo de pessoa era esse homem? Eu não o conhecia e neste momento não tenho desejos de o fazer.
-O meu pai odeia-me, essa é a verdade. Eu nunca fui como ele, nunca vi o prazer em rebaixar e em tratar mal as mulheres, ele queria que eu fosse como ele, mas saiu desapontado. Eu nunca fiz o que ele pediu, ele queria que eu disciplinasse a Caroline, ela era frágil mas tinha espírito, ela amaldiçoava-o e gritava com ele, e eu sempre a protegia, mas eu via a fúria do meu pai, o quanto ele queria quebrá-la. E por isso tivemos de fugir, ele queria que eu a tomasse em frente à alcateia como prova da minha leadade, mas eu achei isso tão repugnante que só o próprio pensamento me punha agoniado. Quando ela engravidou dos gémeos eu decidi que era a altura de parar de fugir, eu tinha que enfrentar os meus problemas. Criámos tudo isto com muito custo, e pouco depois foi tudo por água abaixo quando os humanos vieram e a Caroline morreu. - Sentou-se no sofá com uma postura derrotista, custava-me vê-lo assim, a sofrer novamente pela mesma coisa, ele ainda não tinha cicatrizado, nem perto disso, ele ainda sangrava por ela, e não me parecia que isso fosse acabar em breve, parece que teve tão pouco tempo para amá-la, para aproveitar a liberdade que eles tanto ansiavam.
-O que posso fazer para ajudar? - Perguntei-lhe desesperada, eu queria muito ajudá-lo, queria que ele deixasse as magoas para trás e voltasse a ser feliz, se é que tal fosse possível sem a Caroline.
-Eu tenho de ir falar com ele, eu tenho de saber o que realmente aconteceu, não consigo ficar na ignorância, não mais, eu tenho de ouvir pela boca dele o que ele lhe fez, eu tenho de ter provas. - Falava agitado, eu sabia que ele estava a ser movido pela raiva e neste momento a sua capacidade de raciocínio não era a melhor.
-Então eu vou contigo. - Continuei quando ele fez tenções de falar - Só preciso de falar com o Jake e com o Kyle e podemos ir - Levantei-me.
Darren agarrou-me o braço suavemente fazendo-me parar, olhei para os olhos dele e culpa e raiva transbordavam deles, isso nunca era bom.
-Os meus filhos seriam loucos se te deixassem ir. - Ele falou suavemente.
Olhei para ele desconfiada - A mim? E acha que se eles soubessem o deixavam ir também? - Sorri para ele quando ele não respondeu. - Será o nosso segredo.
-Kora não sabes no que te estás a meter, e eu não quero que te magoes, tu não conhecesses o meu pai, ele não é um bom homem. - Ele queria proteger-me eu entendia, mas eu tinha de o ajudar se eu podia e iria fazê-lo, o medo não me impediria.
-Deixa-me dar-te uma novidade, caso tu não saibas eu sou a alfa agora, por isso o que eu digo é lei. Eu vou contigo e isso não é discutivel, espera por mim ao pé do teu carro em uma hora estarei lá.
Um grande sorriso adornou os lábios dele - É esse o tempo que vai demorar para tu os convenceres?
-Isso eu já não posso dizer, mas meia hora talvez chegue - Disse-lhe arqueando uma sobrencelha e sorrindo.
Dei-lhe um beijo casto na bochecha e sai. Tinha vindo aqui á procura de respostas, mas encontrei mais do mesmo, com a diferença de que já saibamos quem está por trás de isto. Será que o ódio poderia mover o pai de Darren a algo impensável? Como alguém pode ódiar um filho ao ponto de maltratar a mulher que ele ama? Fugir foi a melhor coisa que ele podia ter feito, viver num lugar em que nos sentimos deslocado é o pior que nos pode acontecer, é uma prisão invisivel que nos vai consumindo. Darrren não tinha aceitado nada disto com bom agrado, as lágrimas que ele tinha derramado ainda que não me olhasse quando eu lhe contava o estranho momento qur eu tinha tido com a Caroline. O seu corpo tremia e custou-me todas a forças que eu tinha para não ir até ele e abraça-lo, mas havia certas coisas que era melhor fazer na solidão. Eu ia ajudá-lo a encontrar as respostas que ele queria, até porque eu tinha quase a certeza que era a resposta para as minhas perguntas também.
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A Sombra de Kora
Hombres LoboKora é uma loba que fugiu da alcateia com a sua família, obrigada a voltar pelo alfa, descobre que o seu futuro sempre tinha estado naquela aldeia. Rodeada por dois irmãos gémeos que fazem de tudo para a ter, Kora vai ter de lidar com a indecisão e...
