Capítulo 11

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Ayla Miller

Fui no banco de trás do carro durante todo o trajeto, tentando manter os filhotes quietos dentro da caixa de papelão improvisada. Eles se remexiam, soltando latidos finos e gemidos curiosos, enquanto a mãe deles, parecia a própria serenidade em forma de animal, com a cabeça erguida e a língua de fora, completamente tranquila, como se soubesse que agora estava em segurança.

Isaac estaciona em frente a um prédio médio, moderno e bem iluminado. A fachada é de vidro refletivo com detalhes, tão reluzente que dá pra ver o reflexo do mundo passando. Ele abre a porta com um gesto ágil e pega a cachorra nos braços como se ela fosse leve. Com um pouco da força dele e um malabarismo meu, consigo sair do carro sem tropeçar, sem derrubar a caixa e, graças aos céus, sem passar vergonha.

A porta se fecha com um clique. Dou uma olhada no prédio. Tudo ali parece muito limpo, organizado... A maioria das pessoas que cruzamos pelo saguão são mulheres de jalecos brancos, ou uniformes verdes, andando de um lado para o outro com tablets ou pranchetas. E todas olham para Isaac com um brilho a mais no olhar.

— Isaac! — uma voz chama por ele, e meu pescoço vira no mesmo instante.

Ela é linda. Bem... Os olhos dizem tudo. Eu reconheço esse olhar porque, bom... é o mesmo tipo de olhar que eu já dei para caras que me interessavam.

— Que linda... Onde você a achou? — ela estica o pescoço para espiar a cachorra, mas seu olhar logo voa para a caixa nos meus braços. — Os filhotes estão bem?

— Estão sim. Estão com a Ayla. Um amigo dela levou pra casa.

— Quem é Ayla?

Sério? Estou literalmente do lado dele. E ela pergunta quem é Ayla como se eu fosse invisível.

Isaac só ergue o polegar na minha direção, sem nem se virar.

— Essa é a Ayla.

— Ah... oi! — ela sorri, mas o sorriso tem veneno por trás.

— Oi-

— Então, Zack! — ela me interrompe, virando-se completamente para ele — Você não veio ontem, aconteceu alguma coisa?

Zack?! Ela chamou ele de Zack? Porra! Se acalma, Ayla. Ele não é seu.

Ainda.

Isaac entrega a cachorra para a garota e, em silêncio, pega a caixa das minhas mãos. Enquanto eles conversam, eu viro figurante. Totalmente ignorada. E odeio ser excluída. Odeio com todas as minhas forças.

Ele entra em uma das salas, e eu o sigo com passos contidos. A garota entrega a cachorra para uma funcionária, mas quando me aproximo da porta, ela ergue a mão na minha frente.

— Você não pode entrar.

— O quê? — arqueio a sobrancelha.

— Só funcionários! — aponta para a plaquinha na porta e fecha com um estalo antes que eu possa argumentar.

Fico ali, encarando a madeira como se meus olhos pudessem perfurá-la. Meu maxilar trava. Respiro fundo. Muito fundo. Me afasto, caminhando pelo corredor enquanto repito mentalmente: não se irrite, não se irrite, não se irrite.

Saio pela porta da frente, sentindo o ar fresco bater no meu rosto. Encosto na parede ao lado do prédio, observando a rua quase vazia.

O celular vibra no meu bolso. Pego e vejo. Marcus.

Penso em ignorar, mas... conhecendo meu irmão, ele vai continuar ligando até o mundo acabar. Atendo.

— O que foi?

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