Capítulo 39

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Ayla Miller

Encaro aqueles olhos tão próximos dos meus. Os lábios de Isaac, a poucos centímetros, tentam roubar minha atenção. Por um instante, me pergunto o que aconteceria se eu simplesmente o beijasse — um beijo rápido, silencioso

Mas a coragem me abandona, como sempre. Então desvio o olhar, fingindo naturalidade, e me perco entre as luzes lá embaixo. As pessoas se movem como pequenas formigas apressadas, entre barracas e brinquedos

Algo me chama atenção. Um palhaço.

Parado no meio da multidão, imóvel, como se fosse uma pintura viva. O rosto branco como giz, os olhos pintados com um preto grotesco. Um balão azul preso na mão, a minha cor preferida. Ele está me encarando.

Sinto um frio gelado cortar minha espinha. Não faz sentido. Não deveria estar me olhando assim, não deveria sequer me notar aqui do alto da roda-gigante.

— Por que... aquele palhaço está me encarando? — sussurro, sem conseguir desviar os olhos.

Isaac num piscar de olhos, sua mão cobre meus olhos com firmeza.

— Não olha. — sua voz é baixa, mas o comando é firme.

Ele me vira de frente pra si, e quando sua mão se afasta, tudo o que vejo é ele. Os olhos castanhos profundos

Concordo com a cabeça, tentando apagar da mente aquele rosto pintado. Tento focar nos beijos de Isaac, na forma como ele me tocou naquela noite, em sua voz quando sussurra meu nome. É fácil me perder nisso

A roda-gigante desacelera e o passeio termina. Voltamos a andar pelo parque. Brincamos em algumas barracas, comemos de novo.

Paro de andar. Não por cansaço, nem para ver alguma barraca interessante.

Ele está lá. De novo. O mesmo palhaço. Mesma maquiagem. Mesmo balão azul. A poucos metros de distância. Me observando com aquele maldito sorriso pintado.

— Isaac... — minha voz sai falhada.

— Vamos por outro caminho — ele diz, a mão quente envolvendo meu pulso gelado.

Desviamos para a parte mais movimentada do parque. Mas mesmo assim, sinto os olhos do palhaço queimando nas minhas costas.

Ele nos segue. Isaac acelera o passo. Eu também. O medo já assumiu o controle do meu corpo, e antes que perceba, sou eu quem está puxando Isaac.

A criatura pintada começa a cortar caminho pelas brechas entre as barracas. Ele quer nos alcançar. E está fechando a única saída.

— Isaac! Pra onde vamos? — pergunto, sem fôlego.

— Por aqui! — ele responde, me guiando por um caminho mais estreito.

Mas algo está errado. Ele está nos afastando da multidão.

— Isaac! A gente precisa voltar! — solto meu braço, o pânico tomando conta.

— O quê? Mas ele vai nos pegar! Confia em mim, eu sei como sair daqui.

— Não!

Isaac para. Me encara, sem entender

— Anda logo! Ou você quer ficar e abraçar ele?

— Se a gente se afastar das pessoas, o pior pode acontecer! Temos que nos misturar! — rebato.

Viro para tentar voltar, mas dou de cara com alguém. Me desequilibro, tropeço em mim mesma e caio de costas. O balão azul voa para o céu e explode.

Encaro o palhaço com uma faca na mão. Mas Isaac avança e arranca a lâmina da mão do palhaço. Não consigo entender o que vejo, apenas ouço os sons de algo sendo espancado. O rosto pintado do palhaço começa a borrar com o sangue que escorre, os punhos de Isaac movem-se com tanta fúria que chega a doer ver.

Mas o pesadelo não termina ali.

Um suspiro gelado, tão próximo ao meu ouvido que sinto a umidade da respiração, me paralisa. Não preciso olhar para saber. Outro palhaço. Agachado. Com um novo balão azul.

Grito por dentro e corro. Corro como se minha vida dependesse disso, porque depende. O terror me empurra, e só paro quando meus olhos encontram logo à frente um homem de roupa preta, completamente coberto, segurando uma arma com silenciador.

O que...?

Ele atira, mas não em mim. Olho para trás. O palhaço foge, desesperado.

Era uma pegadinha? Dereck.

Aquele desgraçado. Só ele sabia do meu medo de palhaços. E agora, depois de levar um soco meu e ser humilhado publicamente, ele decide se vingar como o idiota que é.

Mas essa brincadeira saiu do controle.

Mais um tiro me arranca dos pensamentos, e volto a correr. Dou de cara com uma estrutura velha e sombria, decorada com bonecos de palhaço. É a casa do terror. Sem pensar, entro.

O som abafado dos meus próprios passos ecoa nos corredores apertados. A iluminação é fraca, as sombras dançam nas paredes. Meus olhos vasculham cada canto. Mantenho distância das paredes.

Labirinto de espelhos.

Ah, não...

— Ayla! — grita uma voz atrás de mim. É ele.

Entro mais fundo, sem olhar para trás. Meus próprios reflexos me cercam, rostos distorcidos, múltiplos

— Não adianta fugir para sempre! — sua voz ressoa no espaço — Uma hora ou outra, você vai morrer!

— O que você quer?! — grito, aproveitando a confusão do labirinto. — Por que eu?! Nunca te fiz nada!

— Você não, mas seus pais fizeram! Eles precisam saber a dor de perder alguém importante! Talvez assim, parem com essa maldita matança!

Fico em silêncio por alguns segundos. O medo é uma âncora no meu peito.

— Meus pais nem gostam de mim... — minha voz sai sincera. — Acho que nem fariam diferença.

Ele ri. É um som seco, amargo.

— Não gostam? Você é a preferida deles. Por isso mesmo você tem que morrer.

Preferida?

Continua...

Eita que no próximo capítulo tem revelações!

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Eita que no próximo capítulo tem revelações!

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