Ayla Miller sempre teve o controle de tudo, perigosa, intensa e criada no meio do crime, ela nunca se ajoelhou por ninguém.
Até que seus olhos se prendem ao garoto mais improvável do colégio: Isaac Willian, o nerd calado que vive sendo alvo de bull...
— Vai comprar uma casa pra mim naquele condomínio? — Isaac pergunta, arqueando uma sobrancelha.
— Bem... posso te emprestar uma casa minha. — respondo.
— Você tem mais de uma casa naquele lugar absurdamente caro? — ele solta, agora erguendo as duas sobrancelhas.
— Não.
— Então fala "minha casa". Porque se você diz uma casa minha, soa como se tivesse várias — ele diz, cruzando os braços.
— Na verdade, eu tenho duas, sim! — cruzo os braços também, me armando para o contra-ataque.
— Duas casas naquele condomínio? — ele repete, agora abrindo um sorriso sarcástico — Ah, e a casa dos seus pais não conta. E, aliás, foram eles que compraram.
— Tá! Tanto faz! — fecho a cara, bufando — E para de me corrigir!
Ele quer rir. Eu sei. Dá pra ver pelos cantos da boca tremendo. Mas se segura.
— Enfim... quer ou não?
Isaac tira o lápis das mãos e o deixa sobre a mesa, pensativo. Seu olhar vai para o chão, depois sobe devagar até os meus olhos
— Vai mesmo me emprestar a casa? — pergunta mais baixo.
— Vou. — respondo
Ele assente, se ajeita na cadeira como quem aceita uma proposta difícil de recusar.
— Está bem. Eu aceito sua ajuda. Agora, foca nas questões.
— Certo.
***
O som da minha sandália tocando o chão ecoa baixo enquanto saio do carro e ajeito a barra do meu vestido florido — ele balança levemente com a brisa suave do final da tarde. Achei bonito para usar hoje. Depois de mostrar a casa ao Isaac, prometi levar Alice a um fliperama, e ela não me deixou esquecer.
Travo o carro, e assim que a porta se fecha, Alice simplesmente dispara na direção da entrada do condomínio, correndo até a Liz que espera de óculos e mochila pendurada no ombro.
— Senhora Miller! — o senhor atrás da portaria sorri, quase emocionado ao me ver.
— Mars! Pode abrir? Vou deixar minha casa com alguns hóspedes.
Ele se levanta devagar, como sempre faz, e aperta o botão do portão. O portão desliza lentamente, e caminho com eles até a casa um pouco acima da entrada principal. Não é longe, mas o condomínio é grande, então cada casa parece um mundo próprio.
Com a chave em mãos, destranco a porta. Acendo a luz, revelando o interior da casa ainda tão bonita quanto eu lembrava. Espaçosa, elegante, luxuosa até demais para uma adolescente. Meu refúgio. Meu esconderijo secreto.
Ganhei essa casa quando fiz quinze. Presente do meu pai. Da minha mãe, ganhei um carro. Dois extremos: um espaço para fugir, e uma forma de fugir. Por muito tempo foi meu canto seguro, até que eles descobriram. Desde então, proibida. E ficou esquecida trancada no tempo, com móveis cobertos por plásticos
— Nossa... — Liz entra primeiro — É melhor que no apê, Zack!
Alice vai logo atrás, animada, e desaparecem escada acima com risos leves.
Fico parada por um instante.
— Essa casa é um pouco... grande só pra você. — Isaac caminha lentamente pelo corredor, as mãos nos bolsos, o olhar atento em cada canto — Seu pai é um pouco exagerado.
— Sim... Eu falei pra ele que não precisava de uma casa desse tamanho só pra mim, mas... ele nunca me escuta. — coloco as chaves sobre a mesa da entrada, onde costumava deixar meu celular anos atrás — Podem ficar aqui o tempo que precisarem.
Ele observa o sofá coberto, os quadros caros, a escultura de vidro na mesinha lateral.
— Isaac... — minha voz o chama de volta — Por que você veio pra Seattle?
Ele larga um vaso decorativo, e caminha até a cozinha. Acende a luz. O branco moderno do ambiente o envolve.
— É complicado. — diz, a voz baixa — Quando eu vim pra Seattle, deixei tudo em Nova York. Minha família... meu futuro.
Ele se vira, olhos fixos nos meus.
— Meu pai é dono de várias empresas, como você sabe. Começou em Nova York. Meu destino era assumir tudo. Ser o chefe. Mas eu recusei. Quis seguir meu sonho: ser veterinário.
— Oh...
— Meu pai cortou tudo. Dinheiro, herança. Disse que só devolveria se eu assumisse a empresa. Minha mãe me ajuda escondido. O apartamento, o carro... tudo presente dela, em segredo. Foi por isso que disse que não compraria uma casa nesse condomínio. Seria arriscado. Chamaria atenção.
— E onde está seu carro? — pergunto.
— Estragou. Tá na oficina.
— E como vai levar sua irmã?
— A pé. Não tem problema. — diz com simplicidade, mas não me convence.
Olho para o porta-chaves e, sem pensar duas vezes, pego a chave da minha Mercedes.
— Aqui. — jogo em sua direção.
Ele a pega no ar, os olhos descendo até o chaveiro.
— Uma Mercedes? Você tem outra?
— Presente da minha mãe. Quer ir ver?
Acendo todas as luzes no caminho até a garagem. Abro a porta. A claridade revela o pano preto cobrindo meu carro. Puxo o tecido com cuidado, revelando o brilho da pintura vermelha, impecável, como se tivesse saído da concessionária ontem.
— Uau... — Isaac se aproxima, abre a porta e inspira fundo — Ainda cheira a novo. Quantas vezes você usou esse carro?
— Só uma...
Ele me encara por alguns segundos, depois fecha a porta com delicadeza.
— Se já tem um carro, por que não vende esse?
— Ganhei de aniversário. Não consigo vender as coisas que recebo de presente. — dou um sorriso sem graça.
Ele apenas balança a cabeça, volta para dentro e começa a tirar os plásticos dos móveis com paciência. Vou atrás, observando tudo.
— Quer que eu faça as compras?
— De comida? Não precisa. — diz sem me olhar — Eu mesmo vou depois.
— Está bem...
Fico parada na porta, sem saber o que dizer. Quando estou sozinha no meu quarto, minha mente fervilha com assuntos que eu queria puxar com ele. Mas agora, diante dele, tudo desaparece.
Continua...
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